Festival Indígena de São Vicente celebra a história viva dos povos originários
Evento gratuito reúne lideranças da Tekoa Paranapuã, cinema, cultura e debates sobre os povos originários da Baixada Santista
É curioso como o Santista sabe onde fica o melhor restaurante novo da cidade, qual prédio vai subir na esquina e até o trânsito em tempo real. Na verdade a Baixada Santista adora falar sobre suas origens. Fala do Porto, dos bondes, dos monumentos (a lista é grande!).
Mas existe uma pergunta que quase nunca entra nessa conversa: o quanto conhecemos sobre as pessoas que estavam aqui antes de tudo isso?
E temos que ir além dos indígenas que aparecem nas páginas dos livros de História. Estamos falando daqueles que vivem hoje. Criam seus filhos, preservam tradições, defendem seus territórios e mantêm viva uma cultura que resistiu a séculos de apagamento.
Talvez a resposta seja até desconfortável. Mas explica por que tanta gente ainda se surpreende ao descobrir que existe uma comunidade indígena ativa na Baixada Santista.

Foto: Divulgação
A poucos quilômetros de algumas das praias mais movimentadas do litoral paulista, a Comunidade Indígena Tekoa Paranapuã segue preservando saberes ancestrais, fortalecendo sua identidade e enfrentando desafios que raramente chegam às conversas do dia a dia.
É justamente para diminuir essa distância que acontece o III Festival Indígena de São Vicente.
Mais do que um evento cultural, o encontro propõe algo que parece simples, mas raramente acontece: criar oportunidades para que indígenas e não indígenas ocupem o mesmo espaço, conversem e se escutem.
Porque o preconceito costuma crescer onde falta convivência. E conhecimento costuma nascer quando alguém decide ouvir.
A história está mais perto do que parece
Quando o festival surgiu, em 2022, a motivação veio de uma constatação que continua atual.
Muitas pessoas sequer sabiam da existência da Comunidade Indígena Tekoa Paranapuã.
O próprio Elias Julio Ferreira, produtor executivo do encontro e diretor da Confraria Jovem do Instituto Histórico e Geográfico de São Vicente, viveu essa descoberta antes de idealizar o projeto.
“Eu mesmo não conhecia. Foi quando comecei a visitar a comunidade, conhecer a cultura, ouvir as lideranças e entender os desafios que eles enfrentam no dia a dia”, conta.
A experiência mudou sua percepção sobre a presença indígena na região.
E também levantou uma reflexão importante.
Como é possível viver na Baixada Santista sem conhecer uma das comunidades que ajudam a preservar parte fundamental da história deste território?
A resposta passa por décadas de invisibilidade.
Embora os povos indígenas façam parte da formação cultural do Brasil, suas histórias quase sempre aparecem de forma superficial. Muitas vezes, são apresentadas como algo distante ou pertencente apenas ao passado.

Foto: Divulgação
Na prática, a realidade é outra. A Tekoa Paranapuã está viva. Tem lideranças, jovens, crianças, artistas, educadores e uma produção cultural que continua se transformando.
Por isso, o festival foi pensado como um espaço permanente de aproximação.
“Desde o início, nosso objetivo nunca foi realizar apenas um evento de um dia ou um evento voltado exclusivamente para São Vicente. Sempre pensamos em construir um espaço permanente de diálogo, respeito e valorização da cultura indígena, fortalecendo a relação entre a comunidade, as instituições e a sociedade”, explica Elias.
Agora, em sua terceira edição, o projeto reúne lideranças indígenas, universidades, pesquisadores, organizações sociais, representantes do poder público e moradores da região em torno desse mesmo propósito.
Quando a história ganha voz própria
Existe um detalhe que torna esta edição especialmente simbólica. Pela primeira vez, o festival terá uma mostra audiovisual própria.
Batizado de CINE FISV, o espaço transformará o Salão Nobre da Casa do Barão em uma sala de cinema durante todo o dia 8 de agosto.
A iniciativa surgiu de um desejo antigo da organização que é registrar a história da Comunidade Tekoa Paranapuã.
Mas com uma condição: que essa narrativa fosse construída pelos próprios indígenas. Sendo assim, nasceu a parceria com a MANI, produtora audiovisual responsável pelo documentário que será exibido durante o Festival.
O material apresenta aspectos da cultura, da espiritualidade, da relação com o território e dos desafios enfrentados pela comunidade. Para Elias, esse talvez seja um dos maiores legados da edição de 2026.
“O documentário mostra como a comunidade foi construída, fala da cultura, da espiritualidade, dos desafios, da relação com o território e do dia a dia deles.”
A escolha pelo audiovisual não aconteceu por acaso. São histórias que um relatório não consegue contar.
Existem experiências que uma palestra não consegue transmitir, o cinema ocupa justamente esse espaço.
“O audiovisual tem essa força. Ele aproxima, emociona e desperta curiosidade para conhecer mais”, afirma.
Além disso, o documentário cria um registro permanente da memória da comunidade.
Algo valioso em um país onde tantas histórias indígenas ainda enfrentam dificuldades para serem preservadas e compartilhadas.
O que a escola não ensinou sobre os povos originários
Quem passou pelo ensino básico provavelmente estudou essas populações. Mas existe uma diferença enorme entre aprender sobre indígenas e ouvir indígenas.
O evento aposta exatamente nessa experiência. Assim, durante a programação, cerca de 30 representantes dos três núcleos da Comunidade Tekoa Paranapuã estarão diretamente envolvidos nas atividades.
Eles participarão de apresentações culturais, rodas de conversa, painéis temáticos, contação de histórias, exposições e momentos de integração com o público.
Na prática, isso significa trocar o olhar distante pela convivência, além de permitir que a cultura indígena seja apresentada por quem a vive diariamente.
Cultura não sobrevive sozinha
Preservar uma cultura exige muito mais do que reconhecimento simbólico. São espaços de escuta, políticas públicas, apoio institucional, participação da sociedade.
Por isso, a programação também inclui debates sobre representatividade, direitos e territórios. Além disso, lideranças indígenas e instituições parceiras construíram coletivamente a segunda Carta de Intenções do evento.
O documento busca transformar discussões em compromissos concretos. A iniciativa reforça que a valorização dos povos originários não depende apenas de homenagens ocasionais.
“Espero que quem participe saia com um novo olhar. Que compreenda que falar sobre a cultura indígena não é falar apenas dos povos originários, mas também da nossa própria história, da nossa identidade e das raízes do Brasil. Esse é o impacto que queremos deixar: preservar a memória, contribuir para a valorização da Comunidade Indígena Tekoa Paranapuã e fortalecer cada vez mais a defesa dos direitos dos povos indígenas”
Ela depende de ações permanentes. E essa construção só acontece quando diferentes setores da sociedade decidem sentar à mesma mesa. Ao longo dos últimos anos, a Baixada Santista tem ampliado debates sobre identidade, memória e pertencimento.
O crescimento do Festival mostra que existe espaço para aprofundar essas conversas. E talvez esse seja o maior mérito da iniciativa. Lembrar que os povos indígenas não fazem parte apenas da história do Brasil. Eles fazem parte da história que continua sendo escrita todos os dias.
Programação completa do III Festival Indígena de São Vicente
7 de agosto (sexta-feira)
Atividade restrita a convidados credenciados
Local: Comunidade Indígena Tekoa Paranapuã
13h30 – Visita Técnica à Comunidade Indígena Tekoa Paranapuã (núcleos)
14h00 – Chegada das doações à Comunidade Indígena Tekoa Paranapuã
15h00 – Escuta ativa com lideranças da Comunidade Indígena Tekoa Paranapuã para construção da 2ª Carta de Intenções
8 de agosto (sábado)
Programação aberta ao público
Local: Casa do Barão – Rua Frei Gaspar, 280, Centro, São Vicente
09h00 – Abertura dos portões e início dos atendimentos da Unidade Móvel do PROCON-SP
10h30 – Solenidade Oficial de Abertura do III Festival Indígena de São Vicente e apresentação do Coral “Os Mensageiros – Nhãderu Rêmbyguãi”
12h00 – Painel 01 – Identidade, Cultura e Ancestralidade
13h30 – Contação da história da Comunidade Tekoa Paranapuã e apresentação do Coral “Os Mensageiros – Nhãderu Rêmbyguãi”
14h30 – Painel 02 – Direitos, Território e Representatividade
16h00 – Bênção Indígena à Cidade de São Vicente e apresentação do Coral “Os Mensageiros – Nhãderu Rêmbyguãi”
16h30 – Painel 03 – Cultura na Prática: Desafios e Caminhos para Realizar o Festival Indígena
17h00 – Assinatura da 2ª Carta de Intenções
17h30 –Solenidade de Encerramento
Durante todo o evento
- CINE FISV (sessões durante todo o dia)
- Exposição e venda de artesanato indígena
- Pintura corporal
- Rodas de conversa
- Brincadeiras e atividades para crianças
- Esportes e atividades culturais
- Serviços públicos
- Saúde e bem-estar
- Atendimento da Unidade Móvel do PROCON-SP
- Bate-papos e atividades de integração com a comunidade indígena
Atendimento do PROCON-SP
A Unidade Móvel do PROCON-SP estará presente durante todo o Festival oferecendo gratuitamente:
- Registro de reclamações contra empresas;
- Orientação sobre o Código de Defesa do Consumidor (CDC);
- Esclarecimento de dúvidas;
- Consulta de processos;
- Atendimento ao consumidor superendividado.
Serviço
III Festival Indígena de São Vicente
Tema: Ancestralidade Viva: fortalecendo raízes, construindo o futuro
Data: 8 de agosto de 2026
Horário: das 9h às 18h
Local: Casa do Barão
Rua Frei Gaspar, 280, Centro, São Vicente
Entrada gratuita
As inscrições podem ser feitas antecipadamente pelo Sympla.