Estúdio Traça: moda upcycling com raízes em Cubatão
Criado pelo estilista Gui Amorim, o estúdio transforma jeans descartado em peças autorais e leva memórias da Baixada Santista para a moda futurista.
Quem cresceu no bairro Fabril, em Cubatão, provavelmente aprendeu cedo que fábrica também faz parte da paisagem.
Para Gui Amorim, ela virou repertório.
Entre o cheiro de papel, o barulho das máquinas e as estruturas industriais que faziam parte da rotina, o estilista foi construindo um olhar que hoje aparece nas roupas que cria. Os metais, os ilhós, o jeans e as silhuetas futuristas carregam um pouco desse cenário.
“Eu cresci lá, um bairro que tinha uma fábrica de papel. Então eu estava em meio a essa realidade o tempo inteiro”, conta.
Anos depois, Gui levou essa memória para São Paulo. À frente do Estúdio Traça, marca de upcycling fundada por ele em 2016, transformou o jeans descartado pela indústria em matéria-prima para criações autorais.

Foto: @mm.faria
Agora, a cidade onde tudo começou também está no centro de Zanzalá, nova coleção do estilista.
Apresentada em São Paulo no dia 15 de setembro, a coleção reuniu 25 looks desenvolvidos a partir de peças do acervo e estoque da Levi’s. A inspiração mistura a memória industrial de Cubatão com uma obra brasileira de ficção científica publicada em 1928.
A arquitetura da fumaça e a resposta do verde
Cubatão carrega uma relação muito particular com a indústria.
Durante décadas, o polo industrial marcou a paisagem da cidade e também a sua imagem para o restante do país. Ao mesmo tempo, a região passou por uma recuperação ambiental que transformou a relação entre indústria e Mata Atlântica.
Essa paisagem ficou na cabeça de Gui.
“As minhas vivências e as paisagens da Baixada Santista são a base de tudo que eu crio”, afirma.
Ele conta que sempre teve carinho pela estética industrial. Nas roupas, essa referência aparece de maneiras menos óbvias.
O jeans é uma delas. Os aviamentos metálicos, como os ilhós, também.
“É como se eu traduzisse tudo que eu vi nas roupas que eu crio”, explica.
No Estúdio Traça, essa tradução ganha novas formas. Peças de denim são desmontadas, recortadas e reconstruídas. Gui altera volumes e silhuetas, criando roupas que pouco lembram o formato original do material.
A inspiração de Zanzalá ainda acrescenta uma camada de ficção científica a essa estética.
Um livro de 1928 imaginou o futuro
Afonso Schmidt começou a publicar Zanzalá em capítulos na Folha de S. Paulo em 1928.
A obra projetava uma sociedade cem anos à frente. A conta é curiosa. Quase um século depois, estamos justamente na década imaginada pelo escritor.
Foi essa coincidência que chamou a atenção de Gui.
“Quando li o livro do Afonso Schmidt e vi que ele previa exatamente o tempo que vivemos hoje, soube que a coleção nascia ali”, conta.
Assim, Cubatão e a ficção científica passaram a dividir o mesmo cabide.
O resultado são 25 looks construídos com jeans disponibilizado pela Levi’s, parceira do Estúdio Traça há dois anos.
Gui assina a desconstrução das peças e cria novos cortes, volumes e silhuetas a partir do material.
A ideia de futuro, portanto, não aparece apenas no desenho das roupas. Ela também está no destino dado ao que já foi descartado.
“Quero que as pessoas sintam esse encontro entre o passado e o futuro, percebendo que aquilo que já foi descartado ainda pode se transformar em algo potente”, explica.
Manualidade contra a velocidade do fast fashion
Tem uma coisa que não aparece imediatamente quando alguém vê uma roupa pronta na passarela: o tempo que levou para ela existir.
No Estúdio Traça, esse tempo faz parte do próprio conceito da marca.
Gui aposta na manualidade para desenvolver as peças. Isso significa desconstruir materiais, testar possibilidades, alterar cortes e construir novamente.
Para ele, esse processo também funciona como posicionamento diante da velocidade das grandes redes de moda.
“A estratégia que eu utilizo são os trabalhos manuais, a manualidade, o tempo que levamos para produzir as peças. Esse é nosso posicionamento contra essas redes que vendem tudo fast”, afirma.
O modelo coloca o trabalho artesanal no centro da conversa sobre moda autoral. Afinal, competir por quantidade com grandes redes não faz muito sentido para quem trabalha com peças desenvolvidas individualmente.

Foto: @mm.faria
O caminho passa por outra lógica: criar identidade e fazer com que o processo também tenha valor.
Essa é uma discussão que interessa especialmente a quem acompanha a cena criativa da Baixada Santista. Por aqui, muita gente constrói carreira em áreas criativas sem necessariamente encontrar uma estrutura pronta para transformar talento em profissão.
Além da moda
Zanzalá também abriu espaço para quem ainda está começando.
Em uma parceria com o Senac, dez estudantes de estilismo participaram de um workshop com Gui e o stylist Marcel Maia.
A experiência foi além de uma conversa sobre moda.
Os alunos trabalharam com a mesma base de jeans utilizada no projeto e acompanharam etapas como pilotagem e prova de roupas. As propostas desenvolvidas por eles também chegaram ao desfile.
O interesse em trabalhar com novos talentos aparece também nos planos para os próximos anos.
E existe uma vontade específica de fazer essa conversa acontecer mais perto de casa.
De São Paulo de volta para o litoral
Gui gostaria de levar o desfile Zanzalá para Cubatão e para outras cidades do litoral.
A ideia tem um significado especial porque a coleção nasceu justamente das referências que ele acumulou vivendo na região.
Mais do que apresentar roupas, o estilista quer mostrar que existe espaço para construir uma carreira criativa por aqui.
“Eu gostaria muito de levar o desfile Zanzalá para Cubatão e para o litoral, para mostrar para as pessoas que é possível empreender com moda e trabalhar e construir um espaço seguro trabalhando com que a gente gosta”, afirma.
Esse movimento também toca em uma questão prática para quem está começando.
Nem todo talento precisa sair da sua cidade para conseguir criar.
Ainda existem desafios de mercado, formação, investimento e acesso. Porém, aproximar profissionais que já estão trabalhando de quem está entrando na área pode abrir caminhos que não aparecem em uma sala de aula.
O próximo capítulo ainda está sendo costurado
Depois de colocar Cubatão na ficção científica de 1928 na mesma coleção, Gui ainda tem alguns planos guardados.
Um deles é trabalhar com figurino para teatro. Outro é participar de um reality de moda.
Também existe a vontade de continuar desenvolvendo projetos com estudantes.
A lista pode parecer variada, mas tem um ponto em comum: seguir criando.
O Estúdio Traça começou trabalhando com materiais descartados pela indústria. Agora, a marca transforma essas sobras em roupas que carregam referências de uma cidade, de uma época e de uma ideia de futuro.
O futuro imaginado por Afonso Schmidt veio de 1928. O futuro que Gui está construindo veio de Cubatão. E, no meio dos dois, tem um monte de jeans que alguém poderia ter considerado sem utilidade.
Gui olhou para tudo isso e encontrou outra possibilidade.
Serviço
Mais informações: site oficial do Estúdio Traça
Instagram: @estudiotraca