Esmeraldo Tarquínio: o prefeito de Santos que a ditadura impediu de governar
Marceneiro aos 9 anos, aprendeu inglês sozinho em uma livraria e chegou até a prefeitura — mas foi cassado antes de entrar no cargo. Quase 50 anos depois, a cidade finalmente reconheceu o que fizeram com ele.
Santos elegeu um prefeito que nunca chegou a governar. Com cerca de 45 mil votos, diplomado e pronto para assumir, Esmeraldo Tarquínio teve o mandato cassado antes mesmo de entrar na prefeitura. A decisão não apenas interrompeu sua trajetória, como também marcou um capítulo pouco lembrado da história da cidade.

O jovem Esmeraldo Tarquínio
Esmeraldo Soares Tarquínio de Campos Filho nasceu na cidade de São Vicente, em 12 de abril de 1927. Seu pai, também Esmeraldo, tinha vindo da Bahia com 14 anos e trabalhava como gráfico no jornal O Progresso.
Com 9 anos, Tarquínio já trabalhava como marceneiro em São Paulo. Com 10, era office-boy em um escritório de advocacia em Santos. Cada emprego era um degrau — e ele os subia sem rede de proteção nenhuma.
Ele foi trabalhar na livraria do senhor João Antônio Mendes em 1938. Vendia livros, fazia entregas, e lia tudo o que podia. Assim, de forma autodidata, aprendeu inglês e também desenvolveu a curiosidade intelectual que mais tarde o levou a se tornar advogado, jornalista e despachante aduaneiro — tudo ao mesmo tempo, como faziam os que precisavam se reinventar sempre.
Da política de bairro à Assembleia Legislativa
Com o fim do Estado Novo e a queda de Getúlio Vargas, novos partidos brotaram pelo Brasil. Tarquínio tinha 18 anos e entrou pela porta do Partido Social Sindicalista, atraído por Álvaro Parente, uma das lideranças do grupo.
Em 1950, aproveitou uma lei que facilitava a formação em contabilidade e prestou vestibular para Direito em Niterói. Depois de formado, voltou toda a energia para a advocacia e para a política.
- 1954 – Trabalhou na campanha de Jânio Quadros para governador de São Paulo pelo PSP.
- 1959 – Eleito vereador em Santos com 689 votos. Vira líder na Câmara Municipal.
- 1962 – Eleito deputado estadual com 7.192 votos. Na reeleição, sobe para 32.520.
Assim, Tarquínio foi crescendo — não pela herança ou pelos contatos, como muitos. Mas sim pelo trabalho e pela força do voto e como deputado, levantou bandeiras que muita gente preferia ignorar.
45 mil votos e uma ditadura no caminho
Em 1968, Esmeraldo Tarquínio foi eleito prefeito de Santos com cerca de 45 mil votos. O primeiro — e até hoje único — homem negro a chegar tão perto de administrar a cidade.
Chegou a ser diplomado. Contudo, em 14 de março de 1969, o Governo Militar cassou seu mandato. Tarquínio nunca entrou na prefeitura. E Santos perdeu, ainda por cima, o direito de eleger seus próprios prefeitos nos anos seguintes — direito que ele próprio, mais tarde, lutaria para recuperar.
Tarquínio tinha uma visão diferenciada para Santos. Acreditava que a cidade era feita de gente pobre — e que o dever do poder público era criar condições para que essas pessoas vivessem com dignidade.
Defendia salário justo, moradia decente e saneamento básico para os bairros esquecidos. Em uma época em que o governo federal pregava “democracia racial”, ele apontava as desigualdades que essa narrativa escondia.

A volta, e o fim antes da linha de chegada
Com os direitos políticos recuperados anos depois, Tarquínio voltou a se candidatar a deputado estadual. Estava com ampla vantagem nas pesquisas. Porém, sofreu um aneurisma cerebral durante a campanha e, após 20 dias internado, falececu em 10 de novembro de 1982.
Quase 50 anos depois, finalmente prefeito
Em 17 de julho de 2017, por meio da lei municipal 3.373/2017, Esmeraldo Tarquínio foi oficialmente reconhecido como Prefeito Municipal de Santos. Uma reparação histórica que veio, mas demorou quase cinco décadas para acontecer.
Portanto, hoje uma escola no Bom Retiro e no bairro Rio Branco, na cidade de São Vicente, e uma sala na prefeitura carregam seu nome. São marcos importantes, porém chega a ser pequeno diante de uma grande história.
Além disso, antes de Tarquínio, Santos já tinha Quintino de Lacerda — o primeiro vereador negro do Brasil, eleito em 1895. Nomes que deveriam estar no ensino básico e aparecendo em destaque nos roteiros turísticos.
Além da politica
A história de Esmeraldo Tarquínio não fala apenas de política. Ela revela oportunidades negadas, resistência e, sobretudo, memória. Santos quase teve um prefeito que nasceu longe dos privilégios e que conhecia, de perto, as dificuldades da maioria da população. No entanto, a ditadura interrompeu esse caminho. Ainda assim, não conseguiu apagar o significado da sua trajetória.
Hoje, resgatar o nome de Tarquínio vai além de uma reparação histórica. Também significa reconhecer que a cidade foi — e continua sendo — construída por pessoas que lutaram por mais igualdade. Além disso, sua trajetória reforça a importância de revisitar o passado para entender o presente.
Por fim, lembrar de Esmeraldo Tarquínio é lembrar que algumas histórias podem até ser interrompidas, mas não deixam de influenciar o futuro. E, quanto mais Santos conhece seus personagens, mais fortalece a própria identidade.