Em quem a Baixada Santista vai votar para presidente em 2026?
Lula lidera as intenções de voto na região, mas o eleitorado se declara majoritariamente de direita. O escândalo do Dark Horse ainda não estava no radar quando os dados foram coletados.
Você se considera mais de direita, de esquerda ou é como o Manoel Gomes, “mais na sua”?
Vai ter disputa em campo na Copa, mas também nas eleições, que chegam logo mais. E já tem pesquisa mostrando como a Baixada Santista está se posicionando.

O Instituto Badra ouviu 10.022 eleitores nas nove cidades da região entre 27 de maio e 2 de junho de 2026. A pesquisa, registrada no TSE sob o número SP-03392/2026 com margem de erro de três pontos percentuais, trouxe um resultado que contraria o que boa parte das pessoas esperaria: Lula lidera as intenções de voto presidencial com 35,5%. Flávio Bolsonaro aparece em segundo, com 28,8%. Os demais candidatos somados não chegam perto dos dois primeiros.
Além disso, o mesmo instituto realizou um segundo levantamento, com 9.540 entrevistas presenciais nas nove cidades, medindo o perfil ideológico da região. O resultado: 34% dos eleitores se identificam com a direita, mais que o dobro dos 19,4% que se declaram de esquerda. Em tese, a liderança de Lula e esse perfil conservador não deveriam conviver. Mas a prática mostra outra coisa.
Santos lidera nos dois extremos
Santos é o exemplo mais evidente dessa tensão. Por um lado, é a cidade com o maior índice de identificação com a direita da Baixada: 40%. Por outro, também tem o maior percentual de eleitores que se declaram de esquerda: 22,8%. Em 2022, a cidade votou 56% em Bolsonaro no segundo turno.
O que mudou não foi necessariamente a visão de mundo do eleitor, mas o nome na urna. Jair Bolsonaro tinha uma base consolidada. Flávio Bolsonaro, por sua vez, é o herdeiro de um movimento, e herança política não é automática.
Vale dizer que houve um grande impacto da revelação das conexões de Flávio Bolsonaro com o Banco Master. A percepção das pessoas, de acordo com os dados, é de que o episódio compromete sua candidatura.
Mas já vamos falar disso mais adiante…
A virada em relação a 2022
Os dados do Tribunal Superior Eleitoral mostram que, no primeiro turno de 2022, Jair Bolsonaro somou 48,41% dos votos válidos na Baixada Santista (508.712 votos) contra 40,64% de Lula (427.091). Apenas Cubatão foi para o lado petista, com 49,03%.
Agora, segundo a pesquisa Badra, Lula aparece com 7 pontos de vantagem sobre Flávio. Além disso, o índice de consistência do voto é alto nos dois lados: 83,2% dos declarantes de Lula dizem que a decisão é definitiva, contra 78,4% dos de Flávio. Contudo, 29,9% dos entrevistados disseram que não votarão em ninguém, e 40,8% ainda não decidiram na pesquisa espontânea. Esse bloco indeciso é maior do que qualquer candidatura na região e, portanto, vai definir o resultado.
Tarcísio segura a direita para governador
Para o governo do Estado, o cenário é diferente. O Instituto Badra realizou entre 27 de abril e 2 de maio um levantamento com 10.020 eleitores da Baixada, com a mesma margem de erro de três pontos percentuais e o mesmo registro no TSE. O resultado coloca Tarcísio de Freitas (Republicanos) com 41,4% das intenções de voto. Fernando Haddad aparece em segundo com 22,7%, e, em votos válidos, Tarcísio chegaria a 53%.
Mesmo com os problemas com a privatização da Sabesp e episódios de violência policial, ele segue sólido na região.
A rejeição ao PT segue alta na região: 34,8% dos entrevistados disseram que não votam em Haddad de jeito nenhum, contra 20,8% de rejeição ao governador. Assim, parte do eleitorado conservador da Baixada parece separar bem os dois pleitos: apoia Tarcísio para o Estado, mas ainda não está consolidada em torno de Flávio para a presidência.
O escândalo do “pangaré preto”
Em maio de 2026, o The Intercept Brasil revelou áudios nos quais Flávio Bolsonaro pedia recursos ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, preso pela Polícia Federal no âmbito da Operação Compliance Zero, para financiar o filme Dark Horse sobre a trajetória de Jair Bolsonaro.
A relação entre a dupla virou um fator de desgaste político, porque as revelações sobre conversas com Daniel Vorcaro passaram a ser lidas por parte do eleitorado como sinal de proximidade com um caso de suspeita financeira. Isso o enfraqueceu como candidato – especialmente por seu discurso “anticorrupção” e contaminou o discurso moral da direita.
O impacto nas pesquisas nacionais foi imediato.
Na pesquisa nacional AtlasIntel/Bloomberg, divulgada em 19 de maio de 2026, a queda de intenção de voto para Flávio foi bastante perceptível. No 1º turno Flávio Bolsonaro caiu de 39,7% a 34,3%, ou seja, menos 5,4 pontos. Lula quase não mudou, passando de 46,6% a 47,0%. Se os dois fossem para o segundo turno, em maio Lula abriu vantagem e chegou a 48,9%, enquanto Flávio despencou para 41,8%, deixando Lula 7,1 pontos à frente.
Na Genial/Quaest, Flávio caiu para 38% nas intenções de voto. Lula, por sua vez, chegou a 44% num cenário de segundo turno, vantagem de 6 pontos sendo que havia um empate técnico. Datafolha e Nexus registraram movimento semelhante no mesmo período, o que indica que a queda não é ruído estatístico.
Além disso, o levantamento mediu a percepção pública sobre o escândalo: 65% dos entrevistados consideraram que Flávio errou ao pedir o financiamento a Vorcaro, e 60% disseram ver indícios de irregularidade nas conversas reveladas. Importante registrar que o PL questionou a metodologia de um levantamento anterior da AtlasIntel junto ao TSE, alegando que perguntas sobre o Banco Master foram feitas antes das questões sobre intenção de voto. O TSE suspendeu temporariamente aquela pesquisa específica. No entanto, a tendência de queda se confirmou de forma independente por outros institutos.
Os 28,8% de Flávio na Baixada Santista, portanto, refletem tudo isso.
O eleitor que ainda não tem dono
A pesquisa ideológica do Instituto Badra traz ainda outro dado relevante: mais de um quarto dos entrevistados da Baixada afirmou não ter posicionamento político predominante. Em Itanhaém e Mongaguá, esse grupo supera um terço do eleitorado.
Santos tem o maior percentual de eleitores acima de 70 anos da Baixada Santista. Trata-se de uma geração que viveu a ditadura, organizou greves portuárias e construiu movimentos sindicais que definiram a história política da cidade. A pesquisa AtlasIntel de novembro de 2025 apontou que os Baby Boomers brasileiros se identificam com esquerda ou centro-esquerda em 57% dos casos. Mesmo assim, em 2022, parte expressiva desse eleitorado ficou em casa: a abstenção em Santos foi de 22,49%.
O eleitorado da Baixada vai chegar a outubro de 2026 mais velho, com Flávio enfraquecido nas pesquisas nacionais e com um terço ainda sem candidato definido. As pesquisas do Badra mostram a fotografia de maio, mas ainda tem muito chão pela frente até outubro.