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Duas décadas protegendo o meio ambiente no maior porto da América Latina

Ana Paula Schettino Moreira foi a primeira profissional de meio ambiente a entrar no terminal que hoje é a DP World

Tempo de leitura: 5 minutos

Em 2005, quando Ana Paula Schettino Moreira pisou pela primeira vez no terreno que seria o futuro terminal da Embraport — hoje DP World —, não havia nada. Nenhuma obra, nenhum funcionário, nenhum contêiner. Só ela, seu diploma de biologia, e uma missão que a maioria das empresas portuárias da época nem considerava urgente: entender o que existia ali antes de começar a construir.

Ela era a primeira mulher do terminal. E a primeira profissional de meio ambiente. Vinte anos depois, Santos é o maior porto da América Latina. E Ana Paula ainda está lá.

Antes das obras

Fazer um estudo de impacto ambiental antes de as máquinas entrarem em campo não é obrigação nova no Brasil — mas raramente vira prática real. Em muitos portos, o licenciamento ambiental é tratado como burocracia a ser cumprida, não como ferramenta de planejamento.

Ana Paula fez diferente. Seu trabalho inicial foi mapear o que existia na região: qualidade da água, biodiversidade local, nível de ruído, dinâmica dos sedimentos. Essa linha de base — técnica, detalhada, anterior a qualquer impacto — se tornaria, ao longo de duas décadas, o parâmetro que permite dizer com dados se o terminal melhorou, manteve ou piorou o ambiente ao redor.

É o tipo de dado que você só tem se começa antes. E que faz toda a diferença quando a empresa precisa provar — para órgãos ambientais, para comunidades, para ela mesma — que cresceu sem destruir.O porto que cresce e o oceano que paga a conta

Santos não é um caso isolado. O Brasil tem um problema sério com poluição marítima: cada cidadão brasileiro pode ser responsável por até 16 quilogramas de plástico nos oceanos por ano. Com 600 grandes “portas de entrada” para esse lixo, e considerando que 80% do resíduo oceânico tem origem no continente, a pressão sobre cidades portuárias como Santos é enorme.

Os manguezais do estuário santista acumulam lixo. A pesca artesanal convive com água contaminada. Populações que vivem em palafitas, muitas delas chefiadas por mulheres, são as primeiras a sentir quando o estuário adoece — e as últimas a ser incluídas nas soluções.

É aqui que o trabalho de Ana Paula deixa de ser técnico e vira político. Não no sentido partidário, mas no sentido real da palavra: quem tem poder de decisão, quem carrega o ônus, quem colhe os benefícios.

Educação ambiental num ambiente que prioriza eficiência

Fazer gestão ambiental em porto não é o mesmo que fazer gestão ambiental em ONG. O ritmo é operacional. A linguagem é de toneladas, janelas de atracação e escala de turno. Falar sobre manguezal nesse contexto exige uma tradução que vai além do técnico.

Ao longo de duas décadas, Ana Paula liderou programas de educação ambiental no terminal e nas comunidades ao redor — conectando o tema não só à preservação, mas a benefícios concretos: saúde dos trabalhadores, qualidade da água que chega nas torneiras, oportunidades de renda em economias circulares.

É uma abordagem que outras profissionais do setor portuário santista também adotaram: conectar a pauta ambiental à vida real de quem está na linha de frente — e perceber que essa conexão mobiliza muito mais do que qualquer protocolo técnico conseguiria sozinho.

Empresas com visão de longo prazo têm escolha?

Existe uma narrativa desgastada no mundo corporativo: a de que sustentabilidade é custo, e lucro é o que importa. Ana Paula passou vinte anos desmontando esse argumento — não com discurso, mas com dados.

A lógica é direta: degradação ambiental cria custos futuros inevitáveis. Saúde pública comprometida gera afastamento de trabalhadores. Ecossistemas costeiros destruídos reduzem a produtividade pesqueira e elevam tensões sociais. Acesso à água doce reduzido ameaça operações industriais inteiras.

Empresas como a DP World, com horizonte de investimento de décadas, têm interesse genuíno em sustentabilidade — não por altruísmo, mas por viabilidade comercial futura. O terminal que Ana Paula ajudou a construir não existe apesar da gestão ambiental. Existe, em parte, por causa dela.

Uma mulher sozinha num setor de homens 

Ser a primeira profissional de meio ambiente num terminal é uma coisa. Ser a primeira mulher nesse terminal é outra. As duas condições juntas, em 2005, significavam navegar num ambiente onde sua presença não estava no script.

Essa não é uma história incomum no setor portuário. Mulheres em posições técnicas e de liderança em portos brasileiros ainda são minoria — e as que chegam carregam o peso de provar duas vezes o que um homem provaria uma.

Mas há uma dimensão que vai além da carreira individual: populações femininas de baixa renda em cidades portuárias são as que mais sofrem com as externalidades ambientais negativas — poluição, contaminação de água, exposição a resíduos. Ter mulheres em posições de decisão ambiental não é cota. É garantia de que quem decide conhece o impacto do que está decidindo.

O episódio com Ana Paula Schettino Moreira é o sétimo da terceira temporada do Lendárias e Portuárias, série em podcast e vídeo que coloca em foco mulheres que constroem o setor portuário de dentro — e mudam o que encontram pelo caminho.

Lendárias e Portuárias é um projeto incentivado pela DP World através da Lei Municipal de Apoio à Cultura Alcides Mesquita (Promicult), com apoio da ABTRA. 

Vitor Fagundes
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