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Donzela-real troca o Oceano Pacífico pelas águas de Santos e ameaça equilíbrio marinho

Tem um novo morador nas águas de Santos - e ele não foi convidado

Tempo de leitura: 5 minutos

Quem mergulha no mar de Santos conhece bem a sensação de encontrar vida marinha abundante entre pedras e recifes. Porém, uma visita inesperada tem tirado o sono de quem estuda a biodiversidade local: cardumes de um peixe asiático, pequeno e colorido, estão colonizando ilhas da região. E essa não é uma boa notícia.

Foto: Eric Comin / Arquivo pessoal 

A Neopomacentrus cyanomos, conhecida como donzela-real, é originária do Indo-Pacífico e foi registrada pela primeira vez no Brasil em 2023. Agora, populações da espécie já foram confirmadas na Ilha da Queimada Grande, na Laje de Santos e na Estação Ecológica Tupinambás, em Alcatrazes. Portanto, o alerta é sério: estamos diante de mais um caso de invasão biológica no Atlântico Sul. E as consequências para o ecossistema marinho local ainda são incertas.

Como um peixe asiático chegou até Santos?

A principal suspeita recai sobre plataformas de petróleo e águas de lastro de navios. Aliás, segundo estudos, a donzela-real já estava estabelecida no Caribe desde 2014 e teria usado estruturas offshore como “pontes” para atravessar oceanos. Nesse sentido, Eric Comin, biólogo marinho que registrou imagens da espécie em Santos, explica que o comportamento oportunista do peixe facilita essa dispersão.

“Eles se adaptam muito bem a estruturas artificiais e formam cardumes densos. Quando uma plataforma é rebocada de uma região para outra, os peixes vão junto. É uma carona involuntária que está mudando a composição das nossas águas”, conta Comin, que compartilha registros de mergulhos pela região através do Instagram.

Além disso, o “intruso” tolera amplas variações de temperatura e salinidade, o que significa que pode se espalhar desde áreas estuarinas até recifes mais profundos.

De onde veio e para onde vai?

No seu habitat natural, a donzela-real circula tranquilamente entre o Mar Vermelho, o Golfo Pérsico, a costa leste da África, as Filipinas, o sul do Japão, o norte da Austrália e até Nova Caledônia. Ou seja, uma verdadeira cosmopolita do Indo-Pacífico que, aparentemente, decidiu expandir seus domínios para o Atlântico.

Contudo, a jornada não foi direta: antes de chegar ao Brasil, a espécie já havia se estabelecido no Golfo do México e em Trinidad, no Caribe. Consequentemente, a rápida dispersão pela região acendeu um sinal amarelo entre pesquisadores. Afinal, se conseguiu colonizar águas caribenhas em menos de uma década, o que esperar da costa brasileira?

Por que essa invasão é um problema?

Não se trata apenas de um peixe “diferente” nadando por aí. Na verdade, a donzela-real é territorial, agressiva e forma grupos de até 30 indivíduos que competem por alimento e espaço com espécies nativas — outras donzelas, peixes-borboleta e pequenos habitantes de recife que já enfrentam pressões ambientais.

“O comportamento deles é bastante agressivo, especialmente na defesa de áreas de desova. Eles encaram até peixes bem maiores. Isso pode deslocar espécies locais e alterar completamente a dinâmica dos recifes”, alerta Eric Comin.

Além da competição direta, há o risco de mudanças estruturais no ecossistema. Como são planctívoros vorazes que se alimentam em grandes grupos durante o dia, podem afetar a cadeia alimentar local. Assim, com sua rápida colonização — da Ásia ao Caribe, do Caribe ao Brasil — o cenário é de expansão acelerada.

Hábitos de quem veio para ficar

A donzela-real não é de ficar parada. Durante o dia, os cardumes saem em busca de zooplâncton, sempre em áreas protegidas e abrigadas. Dessa forma, preferem locais onde possam se esconder rapidamente caso sintam ameaça — recifes de coral, pedras, estruturas artificiais. Basicamente, tudo que oferece proteção e comida farta.

“No Golfo do México, onde a invasão já está mais avançada, eles demonstraram uma forte preferência por plataformas de petróleo. Ali, formam grupos de altíssima densidade. É impressionante como conseguem se estabelecer rápido”, comenta o biólogo.

Portanto, essa capacidade de adaptação é tanto uma curiosidade biológica quanto uma dor de cabeça ecológica. Quanto mais confortável a espécie se sente em novos territórios, maior o risco de impacto permanente.

O que está sendo feito?

Estudos no Golfo do México, onde a espécie também invadiu, sugerem que fatores ambientais podem limitar o impacto inicial sobre peixes nativos. Entretanto, isso não elimina o risco de longo prazo. Por isso, a vigilância é essencial.

Comin reforça a importância do registro e monitoramento contínuo:

“Cada observação conta. Precisamos entender a velocidade de dispersão, os locais preferenciais e o real impacto sobre nossas espécies. Só assim poderemos pensar em estratégias de controle ou mitigação.”

Enquanto isso, mergulhadores, pescadores e frequentadores das nossas praias, podem colaborar reportando avistamentos da donzela-real a órgãos ambientais e pesquisadores. Ademais, identificar a espécie é relativamente simples: corpo azulado, tamanho pequeno (cerca de 7 a 9 cm), comportamento em cardume e presença em recifes rasos ou estruturas artificiais.

Informações de Serviço

Para acompanhar registros de mergulho e biodiversidade marinha:
Instagram: @familiamergulho

Avistamentos de espécies exóticas podem ser reportados aqui: 

  • Instituto de Pesca de São Paulo
  • Estação Ecológica Tupinambás (ICMBio)

Vitor Fagundes
Texto por

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