Documentário conta história de reassentamento de famílias no Varandas, em Cubatão
Filme retrata uma realidade comum a muitas cidades do país, mas que aconteceu aqui na região, em Cubatão.
Cubatão vai aparecer nas telas de cinema em uma produção que explora a memória, a resistência e o direito à moradia. Varandas é um documentário que narra o reassentamento de sete famílias da antiga comunidade de mesmo nome, um pedaço da história da cidade que, agora, está registrado em um material inédito.
A produção da Deusdará Filmes, sob direção de Leonardo Brant, traz depoimentos de moradores que experimentaram décadas de transformação, desafios e, por fim, uma nova casa para recomeçar suas vidas. A ideia central é jogar luz sobre discussões urbanas que, muitas vezes, ficam restritas aos bairros afastados das grandes cidades. No entanto, em Cubatão, elas ganham o centro do palco.

A urgência do direito à moradia no Brasil
A realidade das famílias de Varandas ecoa um problema bem mais amplo. Segundo levantamento da Fundação João Pinheiro, o déficit habitacional brasileiro chegou a cerca de 6 milhões de domicílios em 2022, o que representa 8,3% das moradias ocupadas no país. Esse déficit abrange desde casas em situação precária (construídas de forma improvisada ou rústica) até situações de coabitação forçada e altos custos com aluguel, que comprometem a renda dos moradores.
Especialistas em urbanismo explicam que comunidades como a Varandas reproduzem o padrão de ocupações históricas comuns no Brasil, marcadas por adaptações diante de trajetórias industriais e logísticas.
Cubatão, por sua posição estratégica e pela forte atividade industrial, sempre foi um exemplo desse processo, abrigando trabalhadores da ferrovia e, ao longo do tempo, ficando no limite das discussões sobre moradia digna vs. riscos ambientais.
Memórias da Vila Varandas: antes, durante e depois
O ponto de partida do documentário é a comunidade Varandas, que surgiu no início do século XX justamente para abrigar os funcionários da ferrovia e suas famílias.
Eram 70 casas com a mesma característica: varandas na fachada, o que acabou dando nome ao lugar. Por décadas, elas foram sinônimo de vida comunitária, laços familiares e acolhimento entre os trilhos e a mata atlântica.
Com o passar dos anos, o cenário mudou. A vila ficou espremida entre ferrovias, rodovias, indústrias e a natureza exuberante da Serra do Mar. Algumas casas acabaram abandonadas, outras resistiram. Porém, a precariedade tomou conta. Riscos de enchentes, presença de animais peçonhentos, acidentes e o desgaste estrutural transformaram o velho abrigo em um local inseguro para as famílias. Diante dessa realidade, a solução encontrada foi o reassentamento, realizado em diálogo com os residentes.
No filme, depoimentos de Anézia Marques Batista e Aline Miguel da Silva, entre outros, apresentam uma narrativa sensível sobre o passado e o futuro dessas famílias. São fragmentos de esperança, medo, nostalgia e reconstrução – temas que compõem o debate sobre acesso à cidade e cidadania.

Para gerar debate
Uma das grandes apostas de Varandas é ir além da tela do cinema. Junto com o filme, serão disponibilizados gratuitamente conteúdos didáticos e atividades para apoiar educadores e líderes comunitários. A ideia é que iniciem conversas sobre moradia, urbanização e memória local. O material suplementar está disponível para escolas e outras instituições, ampliando o potencial de reflexão da obra.
Depois da janela de pré-lançamentos, inclusive na Baixada Santista, o documentário estará gratuito para todo o país na plataforma Doc.tv.Org. Na própria plataforma, qualquer usuário pode solicitar sessões educativas e comunitárias, levando o debate sobre o direito à moradia para diferentes contextos.
A trajetória das famílias da Varandas resume, em escala reduzida, discussões presentes por toda a Baixada Santista. Ao revisitar uma história local, o documentário amplia o diálogo sobre direito à moradia, memória urbana e pertencimento. O enfoque nos moradores de Cubatão serve como convite à reflexão. Quantos ainda enfrentam desafios parecidos? E como a cidade pode reinventar seus espaços com dignidade e participação social?