Do concreto ao imaginário, mureta da Ponta da Praia pode ser tombada em breve
Audiência pública discutiu estudos históricos e abriu espaço para contribuições da população sobre um dos símbolos mais reconhecidos da cidade
Se alguém te desse uma caneta e um papel e você tivesse que representar a cidade de Santos com um desenho, o que você faria?
Existe um símbolo que está nas fotos da Ponta da Praia, nos canais, em camisetas, tatuagens e lembranças. Aos poucos, o quadrado com um círculo no meio virou uma espécie de assinatura visual santista.
Foto: Antônio Filho
Agora, a estrutura que deu origem a esse desenho pode ganhar reconhecimento oficial como patrimônio.
No dia 13 de agosto, o Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Santos (Condepasa) realizou uma audiência pública sobre o tombamento da Mureta da Ponta da Praia. O encontro aconteceu na Associação Comercial de Santos e apresentou os estudos que sustentam a proposta.
Além disso, a audiência abriu espaço para manifestações e sugestões da sociedade. Segundo o presidente do Condepasa, Glaucus Farinello, não houve oposição ao projeto.
Uma história que começa em 1941, no meio de uma guerra
As muretas nasceram em um dos períodos mais turbulentos do século XX. O mundo vivia a Segunda Guerra Mundial. Santos, com seu porto estratégico, também acompanhava o avanço do conflito e temia retaliações de submarinos alemães após a declaração de guerra do Brasil, assinada por Getúlio Vargas em 1942.
Enquanto isso, a cidade precisava continuar olhando para o futuro. Com o declínio do café, Santos apostava no turismo como uma nova frente econômica. Portanto, a Prefeitura investiu em urbanismo, jardins e espaços públicos.
A Ponta da Praia tinha um papel importante nesse projeto. O bairro concentrava grandes clubes de regatas e o ferry boat para o Guarujá. Por isso, ganhou uma nova avenida à beira-mar.

Foto: novo milênio
Foi para esse projeto que o engenheiro Carlos Lang, então chefe da Diretoria de Obras do Município, apresentou em 1941 o primeiro desenho da chamada “balaustrada da Avenida Saldanha da Gama”.
A inspiração vinha do movimento artístico Art Déco, marcado pela geometria, simetria e repetição de formas. Essa mesma referência deixou outras marcas conhecidas na paisagem brasileira, como o Cristo Redentor (1931) e a estação Central do Brasil, no Rio de Janeiro.
As muretas também tinham uma função prática. Além de valorizar a paisagem, protegiam pedestres e organizavam rampas de acesso ao mar para entidades náuticas e a polícia marítima.
As obras foram concluídas entre 1943 e 1945. Assim, a estrutura modular ganhou as aberturas circulares que hoje fazem parte da memória visual de Santos.
Uma estrutura pensada para a Ponta da Praia
Quando a obra começou a sair do papel, a Ponta da Praia já tinha uma relação antiga com o mar. Pesca, esportes náuticos e a chegada de embarcações faziam parte da rotina do bairro.
A nova urbanização organizou essa relação de outra forma. A mureta foi incorporada à avenida e passou a cumprir funções práticas, além de ajudar a construir a paisagem que hoje é tão reconhecível.
O projeto de Carlos Lang trouxe a linguagem art déco para a orla. A geometria formada pelo quadrado e pelo círculo criava um desenho simples, mas marcante.
Depois da inauguração, em 2 de julho de 1945, a estrutura ganhou outros significados.
“A mureta representa a relação do santista com o mar. Esporte, turismo, cultura, pesca e até o simples caminhar pela praia passam por ali”, segundo o estudo elaborado pela Sepasa (Seção de Patrimônio Histórico e Cultural de Santos).
Com o tempo, portanto, a mureta deixou de ser apenas parte da obra de urbanização. Ela passou a acompanhar diferentes formas de viver a Ponta da Praia.
O desenho saiu da Ponta da Praia
Esse é um dos pontos mais curiosos do processo. Fisicamente, a mureta continua associada à orla. Entretanto, seu desenho ganhou outros endereços e passou a aparecer em diferentes contextos.
Ele está nas pontes dos canais, nos morros e na Área Continental. Além disso, virou referência em produtos, trabalhos artísticos, joias e tatuagens.
Por isso, o estudo técnico não olha apenas para o concreto. A proposta também considera o valor imaterial da mureta. Nesse caso, entram a memória coletiva e a forma como o desenho passou a representar Santos mesmo quando aparece longe da estrutura original.
Durante a audiência, essa questão ganhou espaço:
“Eles estão estampados em camisetas, tatuagens e no imaginário das pessoas”, explicou Farinello.
Segundo ele, esse processo pode resultar no primeiro registro de bem imaterial do Condepasa.
Para isso, o conselho pretende criar um “Livro de Registro” específico para esse tipo de patrimônio. Atualmente, o município utiliza o Livro de Tombo para bens materiais. Dessa forma, a proposta tenta reconhecer duas dimensões do mesmo símbolo: a estrutura física e o significado que ela ganhou para os santistas.
E o tombamento vai congelar a Ponta da Praia?
Esse foi um dos pontos que Glaucus Farinello fez questão de esclarecer durante a audiência.
Ainda existe a ideia de que um tombamento impede mudanças e transforma o espaço em uma espécie de peça de museu. Segundo o presidente do Condepasa, a proposta segue outro caminho.
“O tombamento não é o congelamento. É o reconhecimento de que algo tem valor e que esse reconhecimento também evolui com a sociedade e com a cidade”, explicou.
Na prática, portanto, reformas, adequações e melhorias continuam possíveis. Caso seja necessário fazer um píer, ampliar um equipamento ou realizar uma reforma, a intervenção poderá acontecer após análise do Condepasa.
“Queremos deixar claro que, uma vez feito o tombamento, a cidade continua evoluindo e pode precisar de intervenções”, afirmou.
Ao mesmo tempo, essas mudanças precisarão respeitar as características protegidas. O próprio estudo técnico considera o desgaste provocado pelo ambiente marítimo e permite a substituição de peças deterioradas, desde que a matriz histórica seja preservada.
“Intervenções são permitidas, desde que haja respeito ao bem”, resumiu o presidente do Condepasa.
Assim, a proposta tenta equilibrar duas coisas que caminham juntas em uma cidade como Santos: preservar aquilo que construiu sua identidade e permitir que a Ponta da Praia continue funcionando e mudando com o tempo.
A proposta não vale para todas as muretas
Outro ponto importante apareceu na audiência. O tombamento material discutido no processo se concentra no trecho original da Ponta da Praia. Segundo Glaucus, a área fica entre a Rua Carlos de Campos e a Praça Almirante Gago Coutinho.
As muretas existentes nos canais, por outro lado, já estão protegidas pelo tombamento dos próprios canais.
“Os canais já são tombados, portanto as muretas previstas neles também já estão acauteladas e asseguradas”, explicou.
O estudo técnico também prevê uma área de proteção de 50 metros mar afora. Nesse caso, a intenção é evitar que novas construções permanentes prejudiquem a relação visual entre a mureta e o canal. Portanto, a proposta não pretende impedir a navegação.
O documento ainda estabelece elementos que devem ser preservados, como desenho, alinhamento, proporções, rampas, amurada de pedras e cor branca. Além disso, o conjunto analisado inclui o Monumento ao Atleta Náutico e o Padrão de Dom Henrique.
A audiência teve espaço para discordância
Todo processo de tombamento precisa passar por uma etapa de participação pública. Por isso, a audiência não serviu apenas para apresentar um estudo já pronto. Houve contribuições, embora nenhuma contestação ao tombamento.
Entre as sugestões, apareceu a inclusão de outras releituras da mureta. Foram citadas, por exemplo, versões em aço inox que existiram no emissário e estruturas presentes nas passarelas da praia. Farinello também relacionou esse debate à polêmica recente envolvendo os canais de Santos.

Foto: Prefeitura de Santos/Nathalia Filipe
Segundo ele, ainda existe uma visão de que o patrimônio pode atrapalhar mudanças.
“Tivemos recentemente a polêmica do destombamento dos canais, proposta por um vereador da Câmara”, afirmou.
Por outro lado, o presidente do Condepasa defende que o patrimônio acompanhe a transformação da cidade.
“Esse reconhecimento, seja material ou imaterial, evolui junto com a sociedade e com a cidade”, disse.
Assim, a discussão das muretas também acaba servindo para explicar como Santos pretende lidar com seus símbolos enquanto novos usos surgem.
Agora, o processo segue para o Condepasa
A audiência foi mais uma etapa. A partir de agora, as contribuições apresentadas serão analisadas pelo conselho.
Depois disso, o Condepasa deverá deliberar sobre o prosseguimento do pedido de tombamento e da abertura do estudo para registro como patrimônio cultural imaterial.
Existe a possibilidade de o tema chegar à reunião do conselho marcada para 27 de agosto, durante a 2ª Semana do Patrimônio na sessão solene em homenagem aos 35 anos de criação da lei do Condepasa.
Se o processo avançar, Santos terá uma situação curiosa. Uma estrutura criada para organizar a frente marítima em 1945 poderá ser oficialmente reconhecida também pelo que aconteceu depois dela.
Afinal, o desenho ganhou outros lugares, outras formas e outros significados. Para Farinello, uma cidade precisa reconhecer seus símbolos para fortalecer sua identidade.
Nesse sentido, as muretas já ocupam um espaço especial na memória santista. Agora, o debate é saber se esse reconhecimento também vai entrar oficialmente nos registros de patrimônio da cidade.