Dia Internacional da Visibilidade Trans: o que Santos ainda precisa enxergar?
Mais do que uma data no calendário, o 31 de março é um convite para Santos olhar honestamente para todos que fazem parte da sua cidade
O Dia Internacional da Visibilidade Trans, que a gente celebra em 31 de março, chega em 2026 com uma agenda pesada para o Brasil — e Santos não fica de fora dessa.

Enquanto o país comemora uma queda de 34% nos assassinatos de pessoas trans entre 2023 e 2025, dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) mostram que isso não representa necessariamente menos violência. Representa, em parte, menos registros. Portanto, visibilidade não é vitória garantida, e sim um ponto de partida menos desigual.
O país que lidera, mas de forma negativa
O Brasil segue na liderança mundial de assassinatos de pessoas trans. Em 2025, foram 80 vidas interrompidas, segundo o Dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). Bruna Benevides, presidente da entidade, foi direta no 3º Seminário Nacional sobre Visibilidade Trans, realizado em janeiro pelo Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania: “O Brasil precisa se envergonhar de continuar liderando esse ranking.”
Contudo, a queda nos números não deve gerar conforto. A própria Bruna alertou que há uma movimentação intensa para institucionalizar a transfobia no país. Assim, menos registros de assassinatos convivem, paradoxalmente, com mais ameaças à existência trans nos campos político e institucional.
Para completar o cenário, dados do Ipea revelam que apenas uma em cada quatro pessoas trans está inserida no mercado de trabalho formal no Brasil.
Cidade de portas abertas para quem?
Santos se orgulha de ser plural. Portuária, cosmopolita, histórica. Mas quando o assunto são direitos LGBTQIA+ — e especialmente direitos trans —, a cidade ainda carrega contradições profundas.
Um empreendedor trans santista relatou, nos comentários de um post do Juicy Santos, o que viveu após tornar pública sua transição:
“Quando falei publicamente sobre minha transição, passei a ter menos clientela no meu negócio significativamente. Fechei as portas e mudei de cidade. Ser uma pessoa trans em Santos é muito difícil.”
Ele não estava falando apenas de mercado de trabalho, mas de algo ainda mais enraizado:
“Não é só sobre oportunidade, é sobre visão de mundo e sobre a transfobia introjetada nas pessoas — inclusive as que se dizem mais desconstruídas.”
Além disso, ele relatou ter sofrido perseguição política pela própria prefeitura em período eleitoral por conta de seu posicionamento:
“O buraco é muito mais profundo. Torço para que quem ainda tem força siga capinando esse mato, concluiu, para que outras pessoas tenham mais espaço e liberdade de existir”
Uma cidade que ainda não se vê no espelho
Santos tem equipamentos, universidades, tem conselhos municipais, tem uma coordenadoria de diversidade. Contudo, ter estrutura não é o mesmo que ter comprometimento real com a população LGBTQIA+.
A cidade carece de espaços seguros de debate e convivência. Faltam políticas afirmativas que cheguem de fato aos territórios periféricos, onde a vulnerabilidade é maior. Falta, sobretudo, uma cultura institucional que trate diversidade como prioridade contínua — não como pauta de datas comemorativas.
O próprio relato do empreendedor que precisou deixar a cidade sintetiza esse vazio: “Falta busca e também oportunidade de espaços que tragam debates. Precisa de muito, precisa de espaços mais seguros para pessoas LGBTQ+ no geral.”
Assim, uma pergunta simples serve de termômetro: onde estão as pessoas trans de Santos? Você as encontra nos lugares que frequenta? Essa reflexão, lançada por quem viveu na pele a exclusão santista, diz mais sobre a cidade do que qualquer indicador oficial.
O mercado de trabalho e o preconceito disfarçado
Na Baixada Santista, os números de empregabilidade trans são alarmantes. O Projeto Muriel identificou que apenas 16,7% das pessoas trans da região tinham vínculo formal de emprego — frente a 55,3% da população geral da Região Metropolitana de São Paulo.
Esse abismo não é acidente. É estrutura. E parte dele se esconde justamente onde deveria ser combatido: nos processos seletivos. Como relatou uma leitora:
“No processo seletivo o preconceito fica escondido na frase ‘obrigado por se candidatar, mas outra pessoa tinha mais o perfil’. Só que na verdade é porque é negro e/ou LGBT+.”
Além disso, quando a contratação acontece, muitas vezes falta o suporte necessário para que essa pessoa permaneça e cresça. Outra leitora apontou um caminho concreto para romper esse ciclo:
“Não basta somente contratar mulheres trans e travestis — e sim fornecer capacitação profissional para que as que estão no submundo da prostituição tenham uma oportunidade no mercado formal.”
Portanto, inclusão de verdade exige mais do que boa vontade pontual. Exige processo, estrutura e continuidade.
Políticas que existem — e as que ainda faltam
Em nível federal, o governo avança com iniciativas concretas. O Programa Acolher+ atendeu 349 pessoas em situação de abrigamento entre julho de 2024 e junho de 2025, a maioria mulheres trans e travestis. Além disso, o Empodera+ acompanhou 310 pessoas LGBTQIA+ em vulnerabilidade social, sendo 112 trans ou travestis.
A secretária do MDHC, Symmy Larrat, resumiu o estágio atual no seminário de janeiro:
“As políticas públicas têm que chegar no território e nas pessoas trans.”
Assim, o desafio não é só criar políticas. É fazer com que elas saiam do papel e cheguem a quem precisa.
Em Santos, o ambulatório transdisciplinar da São Judas Unimonte representa um avanço real. O espaço, inaugurado em parceria com a Prefeitura, oferece atendimento psicológico humanizado com foco em identidade de gênero. São Vicente, por sua vez, mantém o maior ambulatório de assistência trans da Baixada Santista, com acesso a cursos profissionalizantes e retificação de nome social.
A estrutura existe. Mas ela precisa alcançar mais pessoas — e Santos e região precisam entender que equipamentos de saúde e inclusão não são políticas de minoria, mas políticas de cidade.
Visibilidade não é favor, é direito
O 31 de março de 2026 convida Santos a uma pergunta honesta: a cidade que se orgulha de ser plural está construindo condições reais para que pessoas trans existam — ou apenas tolera sua presença quando é conveniente?
Visibilidade de verdade não é post de março. É política pública, processo seletivo justo, nome social respeitado, segurança e emprego com carteira assinada. Santos tem os recursos. Falta a decisão coletiva de usá-los para quem mais precisa.
Como disse uma das pessoas que precisou deixar a cidade:
“Eu não espero que essa seja a lógica para todas as pessoas trans de Santos.”
Que essa frase sirva de alerta — e de compromisso.