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Demolição dos quiosques no Itararé: entre o progresso urbano e a memória afetiva

Mudanças expõe tensão entre progresso urbano e memória afetiva

Tempo de leitura: 5 minutos

São Vicente carrega um peso que nenhuma placa de “cidade mais antiga do Brasil” consegue aliviar: o estigma de ser a “irmã problemática” de Santos. Durante décadas, a cidade viu sua orla ser sinônimo de abandono, enquanto a vizinha brilhava Agora, quando a atual gestão municipal decide virar o jogo com projetos como o Parque da Juventude, a conta chega para quem nunca pediu essa revolução: os quiosqueiros do Itararé que, neste início de fevereiro, receberam notificações para desocupar seus pontos em 45 dias.

Foto: Prefeitura de São Vicente 

A questão transcende a “simples” demolição de quiosques. Estamos diante de um embate que toda cidade litorânea em transformação enfrenta: como modernizar sem apagar histórias? Como atrair investimentos sem expulsar quem construiu a memória afetiva do lugar? Os comerciantes relatam que trabalham ali há 10, 20, até 30 anos.

O lado de quem fica: mais que comércio, identidade

Para os quiosqueiros, a notificação representa mais que perda econômica. Significa desmontar relações construídas tijolo a tijolo. A fidelização de clientes que a Prefeitura classifica como “desorganização” é, para eles, sinônimo de pertencimento. Aliás, muitos desses comerciantes passaram anos lutando para se regularizar, pagando taxas elevadas e enfrentando burocracias que, segundo relatam, nem sempre vinham acompanhadas de contrapartidas estruturais da administração municipal.

A realocação proposta para o Parque da Juventude soa, aos ouvidos de quem vive da orla, como um eufemismo para “comece do zero”. Afinal, clientela não se transfere por decreto — ela se constrói com presença, consistência e aquele tempero invisível que só o tempo adiciona. 

O lado de quem governa: escapar do passado para construir futuro

Contudo, seria desonesto ignorar o contexto maior. São Vicente vem tentando, há anos, sair da sombra de Santos e provar que também pode ser destino turístico de qualidade. O Código de Posturas existe justamente para criar padrões — e padrões, por natureza, excluem o que não se encaixa. A Prefeitura argumenta que o Itararé atual não atende aos critérios estruturais da gestão, e que a reorganização visa criar uma área mais atrativa, concentrando fluxo em pontos estratégicos.

Em nota oficial, a Prefeitura de São Vicente esclarece que:

“A medida integra um plano de reorganização do Itararé, que, atualmente, não se encontra nos padrões estruturais estabelecidos pela atual gestão. A Administração Municipal pretende reorganizar a logística dos quiosques com base no Código de Posturas vigente do Município.

Diante disso, a iniciativa prevê a realocação de quatro estabelecimentos para a região do Parque da Juventude e do Teleférico, área estratégica que concentra grande fluxo de vicentinos e turistas. Todos os comércios com permissão para uso de equipamentos em área pública terão assegurado o direito de realizar suas atividades na nova área.

A proposta é avançar com o projeto de reurbanização da Divisa, dando sequência ao pacote de investimentos estruturais no Itararé, iniciado com a implantação do Parque da Juventude e da Academia do Itararé, além da revitalização em andamento da Praça 21 Irmãos, da construção da base de segurança da PM e da GCM e futura construção do Parque Pet.

Por fim, como case de sucesso, o Município destaca os resultados da Nova Orla do Gonzaguinha, que foi completamente revitalizada. O local ganhou vida com novos atrativos turísticos e paisagismo, tornando-se um polo de desenvolvimento, valorização imobiliária, lazer e convívio familiar. O objetivo é aplicar essa mesma transformação na região do Itararé.”

Além disso, o pacote de investimentos no bairro é inegável: Academia do Itararé, revitalização da Praça 21 Irmãos, base da PM e GCM e um futuro Parque Pet. São obras que, se bem executadas, podem transformar uma região historicamente negligenciada em polo de lazer e segurança. Assim, a lógica municipal aponta para um projeto de cidade que, teoricamente, beneficiaria a todos, inclusive os comerciantes, que teriam acesso a uma infraestrutura melhor.

O que falta nessa equação?

O problema não está necessariamente na intenção de modernizar, mas no método. Quarenta e cinco dias é tempo de férias escolares, não de reestruturação. Qualquer projeto urbano sério – e que se pretenda inclusivo – precisa considerar que pessoas não são peças de xadrez.

São Vicente merece deixar de ser a cidade dos problemas estruturais crônicos. Mas merece também que essa transformação seja feita com as pessoas, não apesar delas.

A memória afetiva de uma orla não mora nos quiosques — mora nos rostos de quem os frequenta e de quem os mantém abertos mesmo quando o movimento fraqueja.

Revitalizar é verbo transitivo

A verdadeira medida de uma gestão pública não está nos parques inaugurados, mas em quantas histórias conseguiu preservar durante o processo. Assim, cabe perguntar:

São Vicente quer ser uma cidade moderna com alma, ou apenas moderna? A diferença está em como tratará, nos próximos dias, quem fez do Itararé, sua casa. 

Vitor Fagundes
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