De Bad Bunny a Santos: por que defender o local virou movimento global
O bairrismo deixou de ser algo pejorativo e se tornou tendência. E Santos, com sua identidade portuária e plural, está no centro desse movimento que transforma autenticidade em potência cultural e econômica
Santos sempre teve fama de cidade orgulhosa. Basta alguém falar mal da praia, do porto ou do Gonzaga para surgir um defensor apaixonado. No entanto, o que parece apenas “bairrismo” pode ser parte de algo maior: um movimento global que valoriza identidades locais. E, curiosamente, essa onda tem sotaque latino.
Foto de capa do álbum, “DEBÍ TIRAR MÁS FOTOS” – Bad Bunny / Divulgação
O assunto ganhou força após Bad Bunny fazer história em uma única semana. Primeiro, no Grammy 2026, ao se tornar o primeiro artista a ganhar Álbum do Ano com um disco inteiramente em espanhol. Depois, no intervalo do Super Bowl, ao lado de Ricky Martin e Lady Gaga, com referências latinas em um dos eventos mais assistidos do planeta.
Renascimento latino
Especialistas chamam o momento atual de “renascimento latino”. A América Latina deixou de ocupar posição periférica e passou a moldar estética, ritmos e narrativas globais. Além disso, os dados confirmam essa virada.
Segundo a WGSN, 72% dos brasileiros consideram importante defender o país quando ele é criticado. Já 84% da Geração Z latina afirma sentir orgulho da própria origem. Assim, o local virou global.
Artistas como Karol G, Peso Pluma, Shakira e J Balvin lideram esse movimento. Ao mesmo tempo, nomes brasileiros como Caetano Veloso, Maria Bethânia, Liniker e João Gomes mostram que autenticidade gera potência. Não se trata de imitar os Estados Unidos ou Europa, pelo contrário, o sucesso nasce das raízes.
E Santos nisso tudo?
Santos é porto. E porto é mistura. Historicamente conectada ao mundo, a cidade recebeu imigrantes de diferentes países. Portanto, carrega diversidade no DNA.
Esse traço aparece na gastronomia, na música, nos bairros e nos sotaques. Quem circula pela cidade percebe essa pluralidade viva. Inclusive, já mostramos como essa identidade molda nossos espaços em matérias como o roteiro pelo Centro Histórico e os postos culturais da orla.
Segundo o Projeto Draft, o futuro é territorial. Ou seja, cidades médias com identidade forte ganham relevância. Santos se encaixa nesse cenário, ao ter história, cultura, praia e economia pulsante.
A professora Bianca Leite Dramali, da ESPM, afirma que “a força do que é local rompeu fronteiras”. Além disso, ela destaca que consumidores buscam referências autênticas.
Consumo também é identidade
Bianca aponta que “consumo é um construtor de identidade”. Quando alguém escolhe um restaurante local ou frequenta um evento independente, reforça pertencimento.
Portanto, apoiar negócios da cidade não é só romantismo. É estratégia econômica! Pequenos empreendedores, artistas periféricos e coletivos culturais dependem desse ciclo.
Além disso, a The Economist destacou que as indústrias criativas latino-americanas tornaram-se centrais entre 2025 e 2026. Plataformas de streaming investem bilhões na região. A música latina está entre os mercados que mais crescem no mundo.
O cinema brasileiro também vive momento histórico, com um Oscar recente e nova indicação consecutiva. Esses dados reforçam que identidade gera valor global.
Orgulho genuíno ou marketing vazio?
Porém, há um alerta. O orgulho local precisa ser verdadeiro. O público percebe quando marcas usam o discurso apenas como tendência.
Em Santos, o desafio é olhar para o presente. Quais artistas estão surgindo agora? Quais negócios estão inovando nos bairros, do Centro à Zona Noroeste, quem são as novas vozes da cidade?
A força de um território está no capital simbólico e humano. Está nas narrativas de resistência e autenticidade. E Santos reúne esses elementos.
Talvez a pergunta não seja quem é mais bairrista. Talvez seja: estamos transformando orgulho em desenvolvimento real?
Porque defender a cidade vai além de discutir praia. Significa investir tempo e dinheiro aqui, fortalecer quem produz cultura local e construir prosperidade coletiva.