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Crise climática e poluição mudam rotina de quem surfa em Santos

Pesquisa nacional mostra que 9 em cada 10 surfistas percebem os impactos das mudanças climáticas.

Tempo de leitura: 7 minutos

Toda chuva forte em Santos costuma repetir o mesmo roteiro. A água transborda pelos canais, arrasta resíduos urbanos e desemboca no oceano. Horas depois, parte desse material reaparece na faixa de areia ou boiando perto da arrebentação.

Entre uma série e outra, surfistas da Baixada Santista encontram cotonetes, bitucas de cigarro, embalagens plásticas e até lixo ligado à atividade portuária. Em alguns dias, os dejetos aparecem em tanta quantidade que viram parte do treino. 

Foto: Sea Shepherd Brasil

Esses exemplos estão longe de ser casos isolados na cidade.

Uma pesquisa recente do Instituto Ecosurf revelou que quase 94% dos surfistas brasileiros encontram resíduos plásticos com frequência nas praias. Além disso, mais de 90% afirmam perceber os impactos das mudanças climáticas no Oceano Atlântico.

Para quem surfa em Santos, porém, esses números não chegam a ser nenhuma notícia inédita.

Enquanto a cidade debate o futuro da orla, acompanha obras contra a erosão e tenta equilibrar desenvolvimento, turismo e qualidade de vida, existe um grupo que observa essas mudanças de dentro d’água. E o diagnóstico deles merece atenção.

O mar está devolvendo a conta

Daniel Frank Tomaz, idealizador do Surf Limpeza, acompanha essa realidade há anos. Segundo ele, alguns dos resíduos mais encontrados nas ações realizadas pelo projeto ajudam a entender de onde vem parte do problema.

“Observando estes últimos anos, frequentemente encontramos muitos resíduos de origem do sistema de saneamento básico. Como hastes flexíveis, os cotonetes, muitas bitucas de cigarro, diversos plásticos já em decomposição e também resíduos recém-despejados neste ambiente.”

Além disso, ele chama atenção para materiais que revelam outra característica da região.

“Muitos resíduos da área portuária também são encontrados, como os pallets plásticos.”

O lixo encontrado na praia nem sempre foi descartado ali. Muitas vezes, ele percorre canais, rios, sistemas de drenagem e áreas industriais antes de chegar ao mar. Quando aparece na areia, o problema já percorreu um longo caminho.

Os surfistas viraram testemunhas da mudança

O levantamento do Ecosurf ouviu mais de 500 surfistas em 18 estados brasileiros e parte de uma premissa simples: quem frequenta o oceano regularmente consegue perceber mudanças antes que elas apareçam em relatórios técnicos.

E os sinais estão por toda parte.

A pesquisa aponta que os praticantes observam erosão costeira, ressacas mais intensas, alterações nas ondas, aquecimento da água e mudanças na paisagem das praias.

Para quem mora em Santos, essa descrição não parece distante.

Nos últimos anos, ressacas intensas atingiram trechos da orla, debates sobre erosão ganharam espaço e a própria relação da cidade com a faixa de areia passou a ocupar discussões públicas.

Daniel acredita que a comunidade surfista sempre percebeu essas mudanças.

“A comunidade do surf sempre sentiu o avanço da poluição no mar e normalmente se incomodam com a presença de diversos materiais no ambiente marinho. Vem numa crescente a preocupação com a poluição no ambiente da prática do surf.”

Nem todos os praticantes transformam essa preocupação em mobilização. Porém, existe uma diferença importante entre ouvir falar sobre degradação ambiental e remar diariamente em meio a ela.

Quem está na água percebe quando a praia muda e o oceano começa a dar sinais de desgaste.

O problema não para na areia

Quando um plástico desaparece da superfície, isso não significa que ele deixou de existir.

Na verdade, muitas vezes é justamente aí que os impactos mais difíceis de enxergar começam.

Segundo Juliana Vallim, coordenadora técnica do Projeto Albatroz, a poluição por resíduos plásticos está entre as principais ameaças para diversas espécies marinhas.

Albatrozes, petréis e outras aves oceânicas podem ingerir esses materiais ao confundi-los com alimento. E o resultado, como já sabemos, é devastador na maioria das vezes. 

A ingestão de plástico pode causar obstruções no sistema digestivo, reduzir a absorção de nutrientes e comprometer a sobrevivência dos animais. Além disso, resíduos presos ao corpo podem provocar ferimentos graves, perda de mobilidade e até amputações.

Existe ainda uma ameaça menos visível. Mas já conhecida por muitos, os microplásticos.

Essas partículas minúsculas entram na cadeia alimentar através de pequenos organismos marinhos. Depois, passam para peixes, aves e outros predadores.

Com elas, chegam também contaminantes e toxinas.

Embora não tenham sido registrados casos recentes de albatrozes ou petréis mortos por ingestão de plástico na Baixada Santista, os dados do Sistema de Informação de Monitoramento da Biota Aquática (SIMBA) apontam ocorrências envolvendo aves marinhas que ingeriram ou ficaram presas em linhas de pesca nos últimos anos.

Entre as espécies registradas estão albatrozes-de-sobrancelha-negra, albatrozes-de-nariz-amarelo, pardelas-sombrias e gaivotões.

É um lembrete de que o impacto humano no oceano nem sempre aparece de forma direta. Muitas vezes ele surge em detalhes que passam despercebidos para quem observa apenas da areia.

O oceano está mudando. E isso afeta muito mais do que o surf

Quando o assunto é crise climática, a imagem mais comum costuma ser a do aumento das temperaturas.

Mas o oceano funciona como um sistema complexo. Alterar uma peça afeta todas as outras.

Juliana explica que o aquecimento das águas favorece a proliferação de doenças e modifica a dinâmica de diversas espécies marinhas.

“É difícil prever com clareza como serão os impactos das mudanças climáticas no ecossistema marinho e costeiro, dada a complexidade desses sistemas, mas de modo geral, o destaque é o desequilíbrio na distribuição dos recursos no mar, mediados pelas condições oceanográficas que vêm mostrando alterações significativas, e na proliferação de doenças. A crise climática e a poluição dos oceanos atuam de forma sinérgica, amplificando os impactos sobre as aves marinhas e os ecossistemas costeiros como o da Baixada Santista.”

Além disso, mudanças nas correntes oceânicas podem alterar a distribuição de alimento no mar. Na prática, isso significa que aves marinhas precisam percorrer distâncias maiores para encontrar recursos que antes estavam disponíveis em áreas conhecidas.

O resultado é mais gasto energético, maior exposição a ameaças e aumento dos riscos para a sobrevivência dessas populações.

Ao mesmo tempo, ressacas mais intensas e a elevação do nível do mar podem comprometer áreas utilizadas para descanso, alimentação e reprodução de diversas espécies.

Os impactos também chegam às cidades

Morar em Santos é praticamente um estilo de vida. A maioria dos santistas adora falar sobre o privilégio de estar perto da praia e poder pegar onda de manhã cedo antes de ir pro trabalho. E como não amar? Olhar de longe, ver aquela imensidão azul, quase sem fim. A brisa, os pássaros, o sol. 

Mas quem entra de fato no mar todos os dias está vendo outra paisagem. 

Quando uma praia perde faixa de areia, não é apenas uma mudança visual. As atividades econômicas, os espaços de lazer, a dinâmica do turismo. Esses problemas alteram toda a relação da população com o território, como reforça a pesquisa da Ecosurf.

O que o mar devolve a cidades costeiras como a nossa é um recado. 

Construímos nossa identidade olhando para o oceano e, agora, nosso futuro depende dele mais do que nunca. 

Serviço

Surf Limpeza
Instagram: @surflimpeza

Projeto Albatroz
Site oficial: Projeto Albatroz

Pesquisa Raio-X Ecosurf 2024-2025
Observatório Ecosurf: Instituto Ecosurf

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Vitor Fagundes
Texto por

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