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Conheça a santista que transformou o bairro do Marapé em livro

Em 10 meses de pesquisa, a artista e pesquisadora santista costurou samba, poesia e memória oral num livro que é, acima de tudo, um ato de resistência

Tempo de leitura: 6 minutos

Todo bairro tem uma camada invisível. Aquela que não aparece no Google Maps, não está na fachada dos prédios novos e não consta nos folders de imobiliária. É a camada das histórias, dos sambas cantados na calçada, dos circos que um dia montaram lona onde hoje tem asfalto. Fernanda Iannuzzi passou 10 meses escavando essa camada no Marapé – e o que ela encontrou merece muito mais do que ficar guardado em arquivos de pesquisa.

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Foto: Arquivo pessoal/Divulgação

No dia 28 de março, ela lança “Mar…a…pé – do morro ao mar: histórias, memórias, samba e poesia”, seu primeiro livro. Filha do bairro, artista da dança, educadora e pesquisadora, Fernanda escolheu a palavra escrita pela primeira vez para falar de um lugar que ela conhece desde sempre — mas que só passou a entender de verdade quando resolveu ouvir com atenção.

Quando a dançarina parou para escrever

Fernanda sempre se comunicou pelo movimento. Investigar o corpo como linguagem, partir de memórias individuais e saberes coletivos — essa é a assinatura do seu trabalho como artista. Portanto, escrever um livro não foi um desvio de rota. Foi uma ampliação do vocabulário.

“Resolvi me comunicar com o público através da palavra, voltando o olhar para o meu território de origem.”

Além disso, foi uma escolha política. O Marapé carrega uma identidade cultural robusta e frequentemente ignorada pelos holofotes da cidade. Fernanda quis mudar isso. E usou as duas ferramentas que o próprio bairro ofereceu como guia: o samba e a poesia.

“Acredito que o Marapé ainda é um bairro poético, com forte identidade cultural e lembranças afetivas.”

Assim, a poesia aparece no livro como condutora de narrativa — um tom mais artístico para suavizar (e aprofundar) o que os documentos históricos sozinhos não conseguiriam contar.

Memórias de família e o cotidiano

A pesquisa durou 10 meses. Fernanda partiu de uma organização histórica e temática, e então saiu em campo: documentos, bibliografias, relatos orais, observações diárias e memórias de infância foram costurados camada por camada.

Conversou com moradores da própria família, com Mestre Simonal — uma das referências vivas do samba local — e com tantos outros que constroem o bairro no silêncio do cotidiano. As memórias da comunidade iam se entrelaçando aos documentos históricos, e a narrativa se formava por conta própria.

“Foi uma grande imersão, tendo o Marapé como um testemunho ainda vivo.”

Contudo, não foi apenas nostalgia. Foi escavação. E algumas das descobertas surpreenderam até a própria autora.

Circos, serestas e os embriões do samba

Entre as histórias que mais empolgaram Fernanda durante a pesquisa, uma se destaca: o Marapé já abrigou circos nas suas áreas de várzea e casas de seresta espalhadas pelo bairro. Esses espaços funcionavam, sem saber, como incubadoras informais de músicos.

“Pequenos embriões de músicos que mais tarde viriam a se tornar sambistas referências para o bairro.”

O samba do Marapé, portanto, não nasceu do nada. Ele foi cultivado em palcos improvisados, entre lonas de circo e noites de seresta, por pessoas comuns que tinham em comum o amor pelo encontro e pela música.

Dessa forma, o livro revela algo mais profundo: quando uma comunidade recebe espaço e voz para suas próprias manifestações, ela constrói cultura de verdade. Cultura que dura, que atravessa gerações e que resiste ao tempo — e às especuladoras imobiliárias.

Do morro ao mar: o trajeto que deu nome ao livro

O título não é apenas poético. Ele descreve um percurso real — geográfico, histórico e social. O nome “Marapé” carrega em si a chave para entender o bairro: uma comunidade formada numa área de várzea entre o morro e o mar, habitada pela classe trabalhadora que valorizava o encontro, o coletivo e as trocas orgânicas com a rua.

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Em tempos de chalés e muros baixos, essa convivência acontecia de forma natural. A rua era extensão da casa. O bairro era extensão da família. Contudo, a cidade foi mudando — e o Marapé sente isso.

“Com a verticalização da cidade, a relação com o bairro, com a rua, com o lado de fora, tende a enfraquecer.”

Fernanda observa que o Marapé ainda passa por uma verticalização mais lenta que outros bairros de Santos. Ainda assim, as torres já despontam no horizonte. E com elas, um risco concreto: o condomínio vira o novo bairro, as relações com o território se enfraquecem, e a identidade cultural começa a se dissolver.

“É preciso cuidar, para que o processo de gentrificação não esmague o Marapé, expulsando aquele marapense raiz do seu bairro do coração.”

50 livros para escolas e bibliotecas

O projeto foi viabilizado pela Política Nacional Aldir Blanc (PNAB). Para Fernanda, esse tipo de política pública é o caminho para que projetos sem apelo midiático ganhem vida — e para que o acesso às ações culturais seja, de fato, democrático.

A prova está nos números: 50 exemplares serão distribuídos gratuitamente em escolas e bibliotecas públicas de Santos. Ou seja, o livro não ficará restrito às prateleiras de quem pode comprá-lo. Ele chegará à sala de aula de quem mais precisa conhecer sua própria história.

“Documentar a história de um território é eternizar histórias e saberes de pessoas reais. É compartilhar o que passou com quem ainda está chegando.”

Recado para o leitor

A autora não escreve para nostálgicos. Ela escreve para quem ainda vai construir o futuro do bairro. Além disso, escreve para quem talvez nunca tenha parado para perguntar de onde veio o bairro onde cresceu.

“Eu espero que os leitores, principalmente os marapenses, percebam quem somos, de onde viemos e onde queremos — ou não — chegar.”

Saber a história de um lugar, conclui ela, ajuda a exigir um futuro com mais equilíbrio e lucidez. E talvez seja exatamente isso que Santos precisa agora: mais gente que conheça o próprio chão antes de ceder espaço para quem não o valoriza.

Serviço

Lançamento do livro “Mar…a…pé – do morro ao mar: histórias, memórias, samba e poesia”
Data: 28 de março de 2025
Horário: 16h
Local: Quintal Tangará — Marapé, Santos/SP
Entrada: Aberta ao público

Vitor Fagundes
Texto por

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