Conheça a santista que transformou o bairro do Marapé em livro
Em 10 meses de pesquisa, a artista e pesquisadora santista costurou samba, poesia e memória oral num livro que é, acima de tudo, um ato de resistência
Todo bairro tem uma camada invisível. Aquela que não aparece no Google Maps, não está na fachada dos prédios novos e não consta nos folders de imobiliária. É a camada das histórias, dos sambas cantados na calçada, dos circos que um dia montaram lona onde hoje tem asfalto. Fernanda Iannuzzi passou 10 meses escavando essa camada no Marapé – e o que ela encontrou merece muito mais do que ficar guardado em arquivos de pesquisa.

Foto: Arquivo pessoal/Divulgação
No dia 28 de março, ela lança “Mar…a…pé – do morro ao mar: histórias, memórias, samba e poesia”, seu primeiro livro. Filha do bairro, artista da dança, educadora e pesquisadora, Fernanda escolheu a palavra escrita pela primeira vez para falar de um lugar que ela conhece desde sempre — mas que só passou a entender de verdade quando resolveu ouvir com atenção.
Quando a dançarina parou para escrever
Fernanda sempre se comunicou pelo movimento. Investigar o corpo como linguagem, partir de memórias individuais e saberes coletivos — essa é a assinatura do seu trabalho como artista. Portanto, escrever um livro não foi um desvio de rota. Foi uma ampliação do vocabulário.
“Resolvi me comunicar com o público através da palavra, voltando o olhar para o meu território de origem.”
Além disso, foi uma escolha política. O Marapé carrega uma identidade cultural robusta e frequentemente ignorada pelos holofotes da cidade. Fernanda quis mudar isso. E usou as duas ferramentas que o próprio bairro ofereceu como guia: o samba e a poesia.
“Acredito que o Marapé ainda é um bairro poético, com forte identidade cultural e lembranças afetivas.”
Assim, a poesia aparece no livro como condutora de narrativa — um tom mais artístico para suavizar (e aprofundar) o que os documentos históricos sozinhos não conseguiriam contar.
Memórias de família e o cotidiano
A pesquisa durou 10 meses. Fernanda partiu de uma organização histórica e temática, e então saiu em campo: documentos, bibliografias, relatos orais, observações diárias e memórias de infância foram costurados camada por camada.
Conversou com moradores da própria família, com Mestre Simonal — uma das referências vivas do samba local — e com tantos outros que constroem o bairro no silêncio do cotidiano. As memórias da comunidade iam se entrelaçando aos documentos históricos, e a narrativa se formava por conta própria.
“Foi uma grande imersão, tendo o Marapé como um testemunho ainda vivo.”
Contudo, não foi apenas nostalgia. Foi escavação. E algumas das descobertas surpreenderam até a própria autora.
Circos, serestas e os embriões do samba
Entre as histórias que mais empolgaram Fernanda durante a pesquisa, uma se destaca: o Marapé já abrigou circos nas suas áreas de várzea e casas de seresta espalhadas pelo bairro. Esses espaços funcionavam, sem saber, como incubadoras informais de músicos.
“Pequenos embriões de músicos que mais tarde viriam a se tornar sambistas referências para o bairro.”
O samba do Marapé, portanto, não nasceu do nada. Ele foi cultivado em palcos improvisados, entre lonas de circo e noites de seresta, por pessoas comuns que tinham em comum o amor pelo encontro e pela música.
Dessa forma, o livro revela algo mais profundo: quando uma comunidade recebe espaço e voz para suas próprias manifestações, ela constrói cultura de verdade. Cultura que dura, que atravessa gerações e que resiste ao tempo — e às especuladoras imobiliárias.
Do morro ao mar: o trajeto que deu nome ao livro
O título não é apenas poético. Ele descreve um percurso real — geográfico, histórico e social. O nome “Marapé” carrega em si a chave para entender o bairro: uma comunidade formada numa área de várzea entre o morro e o mar, habitada pela classe trabalhadora que valorizava o encontro, o coletivo e as trocas orgânicas com a rua.

Em tempos de chalés e muros baixos, essa convivência acontecia de forma natural. A rua era extensão da casa. O bairro era extensão da família. Contudo, a cidade foi mudando — e o Marapé sente isso.
“Com a verticalização da cidade, a relação com o bairro, com a rua, com o lado de fora, tende a enfraquecer.”
Fernanda observa que o Marapé ainda passa por uma verticalização mais lenta que outros bairros de Santos. Ainda assim, as torres já despontam no horizonte. E com elas, um risco concreto: o condomínio vira o novo bairro, as relações com o território se enfraquecem, e a identidade cultural começa a se dissolver.
“É preciso cuidar, para que o processo de gentrificação não esmague o Marapé, expulsando aquele marapense raiz do seu bairro do coração.”
50 livros para escolas e bibliotecas
O projeto foi viabilizado pela Política Nacional Aldir Blanc (PNAB). Para Fernanda, esse tipo de política pública é o caminho para que projetos sem apelo midiático ganhem vida — e para que o acesso às ações culturais seja, de fato, democrático.
A prova está nos números: 50 exemplares serão distribuídos gratuitamente em escolas e bibliotecas públicas de Santos. Ou seja, o livro não ficará restrito às prateleiras de quem pode comprá-lo. Ele chegará à sala de aula de quem mais precisa conhecer sua própria história.
“Documentar a história de um território é eternizar histórias e saberes de pessoas reais. É compartilhar o que passou com quem ainda está chegando.”
Recado para o leitor
A autora não escreve para nostálgicos. Ela escreve para quem ainda vai construir o futuro do bairro. Além disso, escreve para quem talvez nunca tenha parado para perguntar de onde veio o bairro onde cresceu.
“Eu espero que os leitores, principalmente os marapenses, percebam quem somos, de onde viemos e onde queremos — ou não — chegar.”
Saber a história de um lugar, conclui ela, ajuda a exigir um futuro com mais equilíbrio e lucidez. E talvez seja exatamente isso que Santos precisa agora: mais gente que conheça o próprio chão antes de ceder espaço para quem não o valoriza.
Serviço
Lançamento do livro “Mar…a…pé – do morro ao mar: histórias, memórias, samba e poesia”
Data: 28 de março de 2025
Horário: 16h
Local: Quintal Tangará — Marapé, Santos/SP
Entrada: Aberta ao público