Confira tudo o que rolou no 3º Festival CHAI de Vida e Carreira
Evento gratuito no Juicyhub coloca em pauta inteligência artificial, novas habilidades, saúde mental e os caminhos possíveis para construir uma carreira no mercado atual.
A 3ª edição do Festival CHAI de Vida e Carreira começou neste sábado (7 de novembro), no Juicyhub, em Santos, reunindo profissionais, estudantes, empreendedores e lideranças interessados em discutir os caminhos do mercado de trabalho.
Em um cenário de rápidas transformações tecnológicas, avanço da inteligência artificial e novas exigências profissionais, o encontro propõe ampliar a conversa sobre carreira, educação, liderança e qualidade de vida.
A programação deste ano aborda temas como inovação, aprendizado contínuo, novas profissões e saúde mental. Além das palestras, o festival promove networking, mentorias, feira criativa e atividades para crianças.
Na abertura, Rodrigo Vergara, Head de Educação Corporativa do Juicyhub e mestre de cerimônias do evento, convidou o público a aproveitar o encontro para conhecer pessoas e trocar experiências. Ele destacou que o CHAI nasceu justamente para aproximar profissionais, apresentar oportunidades e provocar reflexões sobre vida e carreira.
Em seguida, Ludmilla Rossi, CEO do Juicyhub, celebrou a realização da terceira edição e chamou atenção para a importância de fortalecer as conexões profissionais na região. Durante sua fala, ela também apresentou as lideranças da equipe do hub e destacou que metade delas escolheu a Baixada Santista para morar e empreender.
Foto: Unlock Films
“Estamos construindo aos poucos o futuro de uma cidade diversa, com pessoas de pontos de partida diferentes”, afirmou Ludmilla.
A CEO também compartilhou como uma iniciativa local abriu portas para oportunidades internacionais. Ao trazer o CreativeMornings para Santos, em 2023, ela iniciou uma aproximação com a Adobe que resultou em uma parceria e no convite para cobrir o Adobe Max, em Miami.
A experiência serviu de exemplo para reforçar a importância das conexões.
“Quanto mais isolados ficamos, maior a chance de empobrecimento e falta de prosperidade”, destacou.
Para Ludmilla, encontros como o CHAI precisam ir além do conteúdo apresentado no palco.
“Esses eventos do Juicy não são apenas para vocês assistirem a uma palestra, anotarem no caderninho e guardarem na prateleira. É para conhecerem pessoas”, explicou.
A partir dessa ideia, ela também chamou atenção para os desafios econômicos da Baixada Santista, como o aumento do custo de vida e os salários achatados. Em vez de concentrar a energia nas reclamações, defendeu uma postura mais propositiva:
“Vamos focar em proposições e soluções reais: abrir portas, fazer conexões, mandar e-mails e nos movermos para a frente”.
O CHAI possui patrocínio master da São Judas Unimonte. Apoio da SB7 Som & Luz, Adobe, Cursino & Teodoro, Prefeitura de Santos, Feito em Santos e Alemoa. São parceiros a B2Mamy, Guard Lock, Eletromídia Litoral, Minimal, VMB Eventos, Motorádio, MKT Virtual, Programa JB e Mussicom.
Confira tudo o que rolou no Festival CHAI 2026
Felicidade urgente (soluções inspiradoras para tempos difíceis)
Em tempos de tantas cobranças, encontrar felicidade pode parecer mais uma tarefa na lista de coisas que precisamos resolver. Para o monge budista Gen Kelsang Drime, porém, parte do problema está justamente na maneira como procuramos por ela. Durante a palestra “Felicidade Urgente: soluções inspiradoras para tempos difíceis”, ele defendeu que a felicidade duradoura não depende apenas das circunstâncias externas, mas da qualidade da nossa própria mente.
Professor residente do Centro de Meditação Kadampa Brasil, no Templo pela Paz Mundial, em Cabreúva, Gen Drime tem mais de 20 anos de prática budista. Antes de se dedicar ao monacato, também acumulou uma trajetória de mais de 25 anos como executivo nas áreas de informática, comunicação e gestão. Essa experiência aparece na maneira como apresenta os ensinamentos: sem exigir adesão religiosa, com exemplos cotidianos e aplicações práticas.
“Não é uma aula de religião, mas definitivamente sobre como a filosofia budista associada à meditação pode ajudar qualquer pessoa, religiosa ou não, budista ou não, a ter mais força interior, mais paz e equilíbrio”, explicou.
Para ele, desenvolver essas qualidades se tornou especialmente importante diante de uma rotina marcada por incertezas e desafios.
Gen Drime começou lembrando que a vida nunca foi feita apenas de momentos bons. Imaginar uma trajetória em que tudo acontece como planejado seria ingenuidade. Ao mesmo tempo, concentrar toda a atenção nos problemas também não ajuda a encontrar saídas.
“É muito necessário que a gente entenda o problema. Mas nós, Kadampas, entendemos o problema como uma primeira perspectiva, e investimos a nossa energia justamente na solução”, afirmou.
Segundo ele, reconhecer as dificuldades é importante, mas permanecer preso a elas pode comprometer nossas decisões.
É nesse ponto que entra a qualidade mental. Mesmo quando temos informações, alternativas e conhecimento técnico para resolver uma situação, uma mente agitada ou negativa pode nos levar a escolhas ruins.
“Quando a gente está com uma mente agitada, ruim ou negativa, é certo que nós vamos tomar decisões ruins”, disse.
A proposta de Gen Drime é desenvolver força interior para lidar melhor com aquilo que não podemos controlar. E o primeiro passo envolve rever uma ideia bastante comum: a de que a felicidade está nas conquistas externas.

Foto: Unlock Films
A partir do Novo Manual de Meditação, do mestre Venerável Geshe Kelsang Gyatso Rinpoche, o monge apresentou uma distinção entre aquilo que compreendemos racionalmente e aquilo em que realmente acreditamos. Podemos até saber que dinheiro, carreira, reconhecimento e relacionamentos não garantem felicidade. Ainda assim, muitas vezes agimos como se essas conquistas fossem suficientes para alcançá-la.
“Se a causa substancial da felicidade não está fora, ela só pode estar dentro!”, resumiu.
Para explicar esse raciocínio, ele propôs observar pessoas em diferentes situações. Existem pessoas com dinheiro que são felizes e outras que não são. O mesmo acontece com quem tem companhia, sucesso profissional ou reconhecimento. Nenhuma dessas condições, isoladamente, determina como alguém se sente.
Isso não significa ignorar as necessidades materiais ou deixar de cuidar da carreira, da aparência e dos relacionamentos. Gen Drime fez questão de pontuar que as condições externas importam. A questão é que elas só conseguem produzir bem-estar quando encontram uma mente em paz.
Um exemplo bem-humorado ajudou a ilustrar a ideia. Imagine passar um dia perfeito na praia, aproveitando o sol e o mar, até que um amigo resolve fazer um comentário desagradável sobre seu corpo. De repente, a experiência muda completamente.
“Se a praia e o sol fossem fonte de felicidade, nada mudaria, mas a sua mente mudou e você perdeu a paz interior”, observou.
A situação mostra como a interpretação de um acontecimento pode alterar nossa experiência, mesmo quando o cenário continua exatamente igual.
O palestrante também compartilhou a história de Marrocos, voluntário de um centro budista no Rio de Janeiro. Diagnosticado com um câncer abdominal agressivo em 2010, ele passou seus últimos dias em cuidados paliativos, em Brasília.
Durante uma visita ao hospital, Gen Drime encontrou o amigo muito debilitado fisicamente. Ainda assim, Marrocos sorriu e perguntou quem estava cuidando do centro. Dias depois, ele morreu. Em uma mensagem, sua filha contou que o pai havia mostrado um raio de sol pouco antes de partir.
A frase que encerrou o relato ficou na memória do monge: “Ele foi em paz e em paz eu fiquei”.
Para Gen Drime, a paz interior não beneficia apenas quem a desenvolve. Ela também influencia a maneira como convivemos, trabalhamos e cuidamos das pessoas ao redor. Em equipes e famílias, uma postura equilibrada ajuda a lidar com conflitos e a tomar decisões com mais clareza.
Mas como desenvolver essa habilidade? A resposta apresentada por ele foi a meditação, entendida como um exercício de treinamento mental.
Durante a palestra, o público participou de uma prática breve de meditação respiratória. Com os pés apoiados no chão, a coluna ereta e o corpo relaxado, os participantes foram convidados a direcionar a atenção para o ar entrando e saindo pelas narinas. Quando surgissem pensamentos ou distrações, a orientação era retornar gentilmente à respiração.
A experiência também serviu para desfazer uma ideia que costuma afastar iniciantes. Meditar não exige esvaziar completamente a mente ou alcançar um estado especial de concentração. O exercício consiste em perceber as distrações e trazer a atenção de volta, repetidas vezes.
Gen Drime comparou esse processo à musculação. Ninguém desenvolve força física apenas lendo sobre exercícios ou observando outras pessoas treinarem. É preciso praticar. Com a mente, a lógica seria a mesma.
“A meditação não é uma prática mística; é um treino da mente”, afirmou.
Por isso, ele recomenda que a prática faça parte da rotina, em vez de aparecer apenas nos momentos de crise.
“Não adianta querer usar a meditação respiratória só na hora do desespero no Titanic sem saber nadar”, brincou.
A comparação reforça a importância de desenvolver recursos internos antes que as dificuldades apareçam. Assim, fica mais fácil recorrer a eles quando a vida exigir respostas rápidas.
Para quem deseja começar, a sugestão é simples: três minutos de meditação por dia. O monge também indicou o aplicativo gratuito Kadampa, que reúne meditações, podcasts e livros, e convidou o público a conhecer o Centro Lanrim, em Santos, e o Templo pela Paz Mundial, em Cabreúva.
Ao encerrar, Gen Drime compartilhou um desejo para 2026:
“Que eu me torne um estorvo a menos neste mundo de gente complicada!”.
A frase, recebida com humor, resume uma ideia importante de sua fala: cultivar serenidade também muda a forma como afetamos o mundo ao nosso redor.
Em vez de esperar que todas as circunstâncias se resolvam para encontrar tranquilidade, a proposta é começar pelo que está ao nosso alcance. Afinal, como defendeu o monge, as soluções para tempos difíceis também precisam ser cultivadas dentro de nós.
Não peça licença: ocupar espaços é uma decisão, não um convite.
Você já começou uma fala em uma reunião com “desculpa interromper” ou “talvez eu esteja errada, mas”? Para Thiciana Lins, esse tipo de expressão pode diminuir a força de uma ideia antes mesmo de ela ser apresentada. Vice-reitora da Universidade São Judas Tadeu, a executiva defende que ocupar espaços profissionais exige mais do que competência técnica: também depende de posicionamento, comunicação e confiança.
Na palestra “Não peça licença: ocupar espaços é uma decisão, não um convite”, Thici apresentou o conceito de presença executiva e mostrou como atitudes aparentemente pequenas influenciam a percepção que outras pessoas têm do nosso trabalho. A ideia vale mesmo para quem não ocupa um cargo de liderança ou ainda não pensa em assumir uma gestão.
Afinal, a maneira como alguém se apresenta em uma reunião, compartilha uma ideia ou conduz uma conversa pode transmitir segurança ou insegurança. Quando a pessoa começa se desculpando por falar, por exemplo, acaba colocando a própria contribuição em segundo plano.
“Quando eu começo me desculpando, eu trago um momento ali que não tem a ver com a ideia que eu vou levar, mas sim com a questão de que eu estou diminuindo ou me colocando numa situação muito mais inferior do que eu estou querendo propor”, explicou.
Esse comportamento também pode ter consequências para a carreira. Thici lembrou situações em que alguém apresenta uma ideia, mas outra pessoa repete a mesma proposta com mais firmeza e acaba recebendo os créditos. Para ela, o problema não está apenas no reconhecimento imediato, mas na construção de uma imagem profissional que pode limitar oportunidades futuras.

Foto: Unlock Films
A executiva resumiu essa questão em uma frase que orientou boa parte da palestra: ninguém vai necessariamente convidar alguém a ocupar um espaço que já merece. É preciso demonstrar interesse e capacidade para assumir novas responsabilidades.
“Primeiro ponto: você precisa querer. Segundo ponto: você precisa falar que você quer. Terceiro ponto: você precisa mostrar que você é capaz nessa função.”
Thici conhece esse processo na própria trajetória. Formada em Fisioterapia, ela passou pela docência e pela gestão acadêmica até chegar à vice-reitoria. Ao longo desse caminho, recebeu um feedback que mudou sua maneira de se posicionar: apesar da competência técnica e da formação, nem sempre conseguia transmitir seu conhecimento para outras pessoas.
A partir dali, começou a estudar presença executiva e a desenvolver a comunicação. Cerca de 12 anos depois, recebeu avaliações positivas sobre essa evolução. A experiência também ajudou a desfazer uma preocupação comum entre profissionais: a de que mostrar o próprio trabalho significa querer aparecer.
Para Thici, existe uma diferença entre buscar atenção e comunicar com clareza o valor que se entrega. Quando alguém não demonstra interesse em crescer, pode acabar transmitindo uma imagem de acomodação, mesmo que tenha competência para assumir outras funções. Ela chama esse fenômeno de visibilidade zero.
A palestra apresentou três pilares da presença executiva, com base nos estudos de Sylvia Ann Hewlett, autora do livro Presença Executiva. Segundo os dados citados por Thici, a credibilidade representa 67% dos fatores considerados pelos líderes na hora de promover alguém. A comunicação corresponde a 28%, enquanto aparência e postura representam 5%.
O primeiro pilar, portanto, é a credibilidade. Ela aparece principalmente na capacidade de tomar decisões em cenários incertos, manter a calma sob pressão, assumir erros e estabelecer limites com clareza.
Thici destacou que liderar não significa ter todas as respostas ou evitar qualquer falha. Uma postura de confiança também envolve reconhecer quando uma decisão não funcionou e assumir a responsabilidade pelo resultado.
“Não basta dizer ‘errei’; é preciso dizer ‘errei e a partir de agora mudamos a rota’”, afirmou.
Essa responsabilidade também muda a relação entre liderança e equipe. Em vez de procurar culpados quando algo dá errado, o líder precisa avaliar se ofereceu treinamento, acompanhamento e condições para que as pessoas realizassem o trabalho. A referência apresentada foi o livro Responsabilidade Extrema, que aborda a responsabilidade dos líderes pelos resultados de seus times.
Outro ponto importante é aprender a dizer não. Thici reconheceu que essa é uma das maiores dificuldades pessoais e contou que colocou um “NÃO” enorme na geladeira para se lembrar de estabelecer limites.
A clareza, segundo ela, evita expectativas que não poderão ser atendidas. Em conversas sobre crescimento profissional, por exemplo, é melhor explicar quando uma promoção não é viável no curto prazo do que alimentar uma expectativa que pode terminar em frustração.
“Um não para o outro pode ser um sim para mim”, resumiu.
O segundo pilar é a comunicação. Nesse aspecto, pequenas mudanças de vocabulário podem alterar a maneira como uma proposta é recebida. Em vez de perguntar “posso dar uma sugestão?”, Thici recomenda apresentar diretamente: “Minha recomendação é…”. Da mesma forma, trocar “acho que talvez” por “eu proponho” ajuda a transmitir mais clareza.
Ela também defendeu o uso do silêncio estratégico e a importância de apresentar primeiro a conclusão, em vez de começar com uma longa explicação. Para a palestrante, falar em todas as oportunidades não significa necessariamente ter presença. O mais importante é aproveitar o tempo de fala com propriedade e substância.
Já o terceiro pilar, aparência e postura, envolve a coerência entre a imagem e a intenção profissional. Thici mencionou o contato visual, os ombros alinhados, a postura corporal e a constância no tom de voz. A escolha das roupas também pode comunicar diferentes intenções, sem que isso signifique abrir mão da própria identidade.
A discussão sobre presença executiva se conectou diretamente à maneira de liderar. Thici comparou o modelo antigo, baseado em controle, autoridade e imposição, com uma liderança que valoriza coerência, escuta e desenvolvimento das pessoas.
Nesse contexto, um líder não deve concentrar todas as decisões nem oferecer respostas prontas para cada dúvida. Quando alguém da equipe pergunta se um projeto está bom, por exemplo, devolver a pergunta pode estimular uma análise mais cuidadosa e ajudar a pessoa a desenvolver autonomia.
Isso não significa abandonar o profissional à própria sorte. O papel da liderança é acompanhar, delegar e oferecer suporte, sem transformar a equipe em um grupo dependente de suas respostas.
Ao citar o livro Procura-se Liderança para os Novos Tempos, de Maria Augusta Orofino, Thici destacou uma frase que resume essa mudança de perspectiva:
“Liderar é cuidar do tempo compartilhado”.
A ideia também aparece em atitudes práticas durante reuniões. No ambiente virtual, abrir a câmera ajuda a demonstrar presença. Nos encontros presenciais, sentar-se à mesa ou nas primeiras fileiras facilita a participação. Quando tiver domínio sobre um assunto, a recomendação é apresentar sua contribuição desde o início.
Para quem lidera, existe ainda uma responsabilidade adicional: reconhecer o trabalho coletivo. Em vez de apresentar uma entrega como resultado individual, é importante nomear a equipe e mostrar como ela participou da construção da solução.
Por fim, Thici abordou as mudanças na liderança feminina. Durante muito tempo, autoridade e poder foram associados a características tradicionalmente masculinas. Com a ampliação da presença das mulheres em cargos de gestão, também surgiu a ideia equivocada de que seria necessário escolher entre a carreira e outras dimensões da vida.
A executiva defendeu que a liderança contemporânea permite construir trajetórias diferentes, sem exigir que todas as mulheres sigam o mesmo modelo.
“A liderança de hoje permite ser líder, mãe, dona de casa ou o que você quiser. Liderar não é ocupar todos os lugares, é dar lugar”.
A mensagem final retoma o título da palestra. Ocupar espaços profissionais depende de reconhecer o próprio valor, comunicar objetivos e desenvolver habilidades para assumir novas responsabilidades. Para Thici, presença executiva não é um dom reservado a algumas pessoas, mas uma construção feita de escolhas e práticas cotidianas.
Como a inteligência artificial transforma rotinas e salários
A inteligência artificial já faz parte da rotina de muita gente, mesmo de quem acredita que ainda não usa essas ferramentas. Ela está nas recomendações do YouTube, nas rotas do Waze e nos aplicativos que ajudam a escolher o que pedir para comer. Para Érica Lopes, professora e coordenadora dos cursos de TI e Computação da Universidade São Judas Tadeu, o próximo passo é aprender a usar essa tecnologia de maneira consciente para transformar também a vida profissional.
Na palestra “Como a inteligência artificial transforma rotinas e salários”, Érica apresentou aplicações práticas para diferentes áreas, de tarefas administrativas à criação de assistentes personalizados. Com mais de 15 anos de experiência em educação e tecnologia, ela defendeu que não é preciso saber programar para aproveitar as possibilidades da IA.
O ponto de partida, segundo a professora, é entender que a ferramenta não substitui o conhecimento de quem a utiliza. Ela executa tarefas, organiza informações e ajuda a resolver problemas, mas depende das orientações humanas para entregar resultados relevantes.
“A inteligência é minha, continua sendo minha. A IA é só meu apoio. Ela só executa tarefas. A inteligência, a criatividade, tudo é de vocês”, explicou.
Um dos exemplos apresentados foi a organização de arquivos no computador. Érica mostrou como utilizou o ChatGPT para reorganizar a área de trabalho de uma colega, demonstrando que a ferramenta pode ir além de responder perguntas e escrever mensagens.

Foto: Unlock Films
Para isso, explicou uma estrutura simples de comando, conhecida como prompt. O primeiro passo é definir a tarefa, ou seja, o que precisa ser feito. Depois, é necessário estabelecer os critérios da execução e, por último, indicar limites e pedir confirmações quando necessário.
No exemplo da organização de arquivos, ela pediu a criação de pastas por projeto, mas também determinou que nenhum documento fosse apagado ou movido sem autorização.
“O critério é a coisa mais importante. Você tem que dizer para a IA o que você não quer que ela faça”, destacou.
A orientação vale para diferentes ferramentas e situações. Quanto mais claras forem as instruções, maiores as chances de receber uma resposta adequada. Érica também recomenda que o usuário peça à IA para fazer perguntas quando não tiver informações suficientes, em vez de executar uma tarefa com dúvidas.
A professora mostrou ainda como aplica esse raciocínio em situações cotidianas. Uma foto dos ingredientes disponíveis na geladeira, por exemplo, pode virar uma sugestão de jantar. Basta informar quantas pessoas vão comer e quanto tempo existe para preparar a refeição.
No trabalho, as possibilidades incluem organizar a agenda, planejar publicações, calcular prazos, preparar orçamentos e elaborar rascunhos de mensagens. Para quem empreende, Érica recomenda observar principalmente as atividades repetitivas.
Se uma empresa recebe pedidos diariamente, por exemplo, parte do processo pode ser automatizada. A IA pode organizar os dados, registrar informações e preparar uma mensagem inicial para o cliente. Assim, o profissional ganha tempo para cuidar de outras etapas do negócio.
É justamente aí que a palestrante enxerga uma das maiores oportunidades. Automatizar tarefas operacionais não significa eliminar o trabalho humano, mas abrir espaço para atividades que exigem atenção, sensibilidade e relacionamento.
“Qual o diferencial hoje no mercado? Quem manda mensagem de verdade. Quem para na frente do computador e responde uma mensagem, aquele cara faz a diferença”, afirmou.
Na visão de Érica, o tempo economizado com a tecnologia deve ser direcionado ao atendimento, à escuta e à construção de relações. Em vez de deixar a IA responder tudo, o profissional pode usar a ferramenta para resolver tarefas burocráticas e dedicar mais atenção às necessidades específicas de cada cliente ou integrante da equipe.
A mesma lógica aparece no aprendizado. Durante o trajeto de São Paulo a Santos, a professora contou que aproveitou os momentos com conexão à internet para praticar inglês com o ChatGPT. Ela criou um assistente com orientações específicas e passou a treinar o idioma por cerca de 20 minutos diariamente.
A ferramenta, nesse caso, complementa o aprendizado, sem necessariamente substituir aulas ou professores. O usuário pode retomar conteúdos estudados, aprofundar assuntos e praticar com mais frequência.
Érica também apresentou dados sobre o crescimento do uso da IA e comentou como as pessoas passaram a explorar diferentes funções dessas ferramentas. Se, no início, a tecnologia era muito associada à geração de ideias, hoje ganha espaço em atividades de aprendizado, organização e execução.
Para ela, a criatividade continua sendo uma capacidade humana. A IA pode oferecer caminhos e produzir materiais, mas o resultado depende do repertório e da capacidade de avaliação de quem faz o pedido.
Essa combinação também pode influenciar a remuneração. Durante a palestra, Érica citou uma pesquisa que aponta aumento de até 62% nos salários de profissionais que dominam o uso estratégico da inteligência artificial. O diferencial, segundo ela, não está apenas em conhecer ferramentas, mas em saber tomar decisões e resolver problemas.
Entre as habilidades que ganham importância, a professora destacou IA e análise de dados, redes e cibersegurança e alfabetização tecnológica. Nenhuma delas exige necessariamente que todo profissional se torne programador. No entanto, todas dependem de conhecimento para interpretar informações e avaliar resultados.
“A IA não vai roubar o emprego de ninguém. A única coisa é que ela vai selecionar quem sabe e quem não sabe”, disse.
A frase resume uma preocupação importante da palestra: saber utilizar a ferramenta não significa transferir para ela toda a responsabilidade pelo trabalho. Se alguém não conhece o próprio negócio ou não entende o problema que precisa resolver, dificilmente conseguirá orientar a tecnologia de maneira eficiente.
Érica também alertou para os cuidados com informações pessoais. Ela contou que já viu pessoas compartilhando documentos como RG e carteira de motorista em ferramentas de IA. Por isso, recomenda atenção ao tipo de dado enviado e às permissões concedidas.
Outro recurso apresentado foi a criação de agentes personalizados, que funcionam como assistentes treinados para tarefas específicas. Em vez de explicar o mesmo contexto a cada conversa, o usuário pode configurar instruções, fornecer modelos e definir as responsabilidades de cada ferramenta.
Érica mostrou alguns dos seus próprios assistentes, que receberam nomes e funções diferentes. Carol cuida das atas de reuniões acadêmicas; Aurora trabalha com estratégia de marca; Maia, com produtos e monetização; Atlas, com métricas e decisões; e Luna, com identidade visual. Também há assistentes voltados à produção de conteúdo sobre tecnologia e à consulta de regulamentações do Ministério da Educação.
A apresentação que o público acompanhava também contou com a participação de um desses funcionários virtuais. Segundo Érica, Ted ajudou a preparar e ajustar o material. Ela ainda explicou que utiliza a Aurora como uma espécie de coordenadora dos outros agentes, direcionando cada tarefa para o assistente mais adequado.
Para quem deseja criar um primeiro funcionário virtual, a professora compartilhou um modelo de comando que organiza o processo em três etapas. Primeiro, é preciso definir os atributos e as características desejadas. Depois, estabelecer as atribuições e as tarefas. Só então o assistente começa a trabalhar.
A recomendação é evitar pedidos muito amplos de uma só vez. Dividir o processo em etapas ajuda a reduzir confusões e permite ajustar as orientações conforme a necessidade.
Apesar das possibilidades, Érica reforçou que a inteligência artificial pode apresentar informações incorretas ou inventar respostas. Por isso, o resultado precisa passar por uma avaliação humana antes de ser utilizado.
“A IA faz, nós revisamos. A IA é como se fosse um estagiário: ela alucina, de vez em quando ela mente”, alertou.
A comparação ajuda a entender o papel de quem utiliza a tecnologia: delegar tarefas não significa abrir mão da responsabilidade sobre a entrega. É preciso conferir dados, revisar textos e avaliar se o resultado realmente atende ao objetivo.
Ao longo da palestra, Érica mostrou que a inteligência artificial pode apoiar profissionais em diferentes momentos da carreira, desde a organização de tarefas até a criação de novos serviços e oportunidades. O caminho começa com experimentação, mas exige conhecimento, clareza nas instruções e senso crítico.
No fim, a tecnologia pode até assumir parte do trabalho operacional. O desafio é usar o tempo liberado para fazer melhor aquilo que continua dependendo das pessoas: pensar, decidir, criar e construir relações.
O que acontece nas reuniões que decidem as carreiras?
E se uma carreira bem-sucedida não significasse necessariamente chegar à diretoria de uma grande empresa? Durante muito tempo, o mercado de trabalho apresentou uma espécie de roteiro: entrar como estagiário, conquistar promoções, assumir cargos de liderança e permanecer na mesma organização até a aposentadoria. Hoje, essa ideia já não dá conta dos diferentes caminhos que as pessoas desejam seguir.
Essa mudança esteve no centro do painel conduzido por Rodrigo Vergara, head de educação corporativa do Juicyhub, com Camila Bombonato Vitório, gerente de estratégia de inclusão para a América Latina na Netflix, e Thales Paiva, gerente regional de Recursos Humanos para a América Latina na Samsung Electronics.
Psicólogos de formação, os dois trouxeram experiências de suas trajetórias profissionais para discutir o que está em jogo na construção de uma carreira. A conversa passou pelas transformações do mercado, pelo avanço da inteligência artificial e por questões que nem sempre aparecem nos manuais de gestão, como medo, realização pessoal e a importância de construir relações de confiança.
Camila começou questionando a ideia de que uma trajetória profissional precisa seguir uma linha reta. Na sua experiência, cada vez mais pessoas entendem o trabalho como uma parte de um projeto de vida que pode mudar ao longo dos anos. Uma pessoa pode aceitar uma oportunidade hoje, aprender com ela e, mais adiante, escolher outro caminho.
“O plano B, que na verdade passou a ser uma sequência e não mais um plano de socorro, é uma sequência do que eu quero continuar construindo, para onde quero direcionar o que aprendi e o que quero realizar.”
Thales concordou e lembrou que, há alguns anos, dizer que não queria subir na hierarquia de uma empresa poderia soar como falta de ambição. Hoje, profissionais também planejam deixar o ambiente corporativo para empreender, vender produtos, prestar serviços ou encontrar uma rotina mais saudável.

Foto: Unlock Films
Essa mudança amplia as possibilidades, mas também exige que cada pessoa entenda o que realmente deseja construir. Afinal, seguir uma trajetória considerada bem-sucedida pelos outros não significa necessariamente encontrar satisfação nela.
A discussão ganhou outro contorno quando Rodrigo trouxe a inteligência artificial para a conversa. Com ferramentas que facilitam o acesso à informação e executam tarefas técnicas, o conhecimento especializado está cada vez mais disponível. Nesse cenário, o que diferencia um profissional?
Para Thales, as habilidades comportamentais ganham importância justamente porque trabalhar envolve, de alguma forma, lidar com pessoas. Comunicação, relacionamento interpessoal e capacidade de colaboração passaram a ter um peso maior na maneira como as empresas avaliam talentos.
“É muito mais fácil desenvolver uma habilidade técnica em alguém do que desenvolver um comportamento bem desenvolvido.”
Camila acrescentou que a inteligência artificial já faz parte do presente. Por isso, negar sua influência não ajuda a preparar ninguém para as mudanças. Ao mesmo tempo, a tecnologia não reproduz a experiência particular de cada indivíduo, formada por sua história, seus lugares de origem e suas vivências.
Na visão dela, quanto mais as máquinas avançam, mais importante se torna desenvolver aquilo que depende do pensamento humano, como pensamento crítico, interpretação e capacidade de considerar perspectivas diferentes.
“O fator humano agora é o diferencial no sentido de excelência.”
A ideia de excelência, aliás, levou a uma discussão sobre comparação. Camila explicou que fazer o melhor possível não significa alcançar um destino definitivo ou reproduzir a trajetória de alguém que parece ter mais sucesso. Cada pessoa tem experiências, recursos e objetivos próprios.
Ela chamou atenção para o risco de olhar para as conquistas dos outros e transformar essas referências em uma medida para avaliar a própria vida. Em vez disso, a excelência depende de reconhecer o próprio percurso e continuar aprendendo.
Thales complementou que também é preciso desenvolver a capacidade de adaptação. Em um mercado que muda rapidamente, ser excelente envolve identificar ferramentas e conhecimentos disponíveis e entender como utilizá-los de acordo com cada necessidade.
Mas como saber qual caminho faz sentido? Para os convidados, essa resposta passa pelo autoconhecimento. Thales contou que, em conversas com profissionais que desejam uma promoção ou uma mudança de área, é comum encontrar pessoas que se sentem despreparadas. Muitas vezes, porém, a dificuldade não está na capacidade técnica.
O medo de não ser suficiente, de sofrer rejeição ou de prejudicar relações profissionais pode impedir alguém de dar o próximo passo. Por isso, ele defendeu que olhar para essas inseguranças também faz parte do desenvolvimento profissional.
“Vai fazer terapia! É isso que vai te ajudar a se olhar, se entender, perceber o que está dentro de você, lidar com isso e trazer algo melhor para fora.”
Camila relacionou esse processo à própria experiência. Depois de morar no Panamá e retornar recentemente a Santos, percebeu que sair da zona de conforto também mudou a maneira como se enxergava. Durante as decisões de mudar de país, aceitar um novo trabalho e voltar, contou com pessoas próximas que a ajudaram a reconhecer suas capacidades.
A experiência reforçou uma ideia que ela costuma associar ao autoconhecimento: “Quando você se conhece, o mundo não te confunde”, frase da empreendedora Dani Junco. Para Camila, conhecer a si mesmo não é um exercício isolado. Comunidade, rede de apoio e relações pessoais também ajudam a atravessar momentos de dúvida.
Essa conexão entre escolhas profissionais e vida pessoal apareceu novamente quando Rodrigo perguntou sobre felicidade no trabalho. Thales observou que muitas pessoas passam anos perseguindo uma promessa de sucesso que, em alguns casos, termina em esgotamento. O cargo desejado pode chegar acompanhado de um cotidiano que já não faz sentido ou de uma rotina da qual a pessoa sente dificuldade de sair.
Ele recomendou observar se os valores pessoais combinam com o que a organização pratica no dia a dia. Isso inclui prestar atenção às regras não ditas e às diferenças entre o discurso institucional e o ambiente que os profissionais realmente encontram.
Camila trouxe uma perspectiva importante para essa discussão: falar de felicidade também exige reconhecer as condições materiais necessárias para viver bem. Ter moradia, alimentação, descanso e condições mínimas de consumo faz parte dessa realidade.
Ela lembrou da própria trajetória, incluindo a conquista de um emprego de segunda a sexta depois de trabalhar em um call center na escala 6×1. Poder descansar aos finais de semana, estudar e cuidar de si representou uma mudança significativa. Ter um salário que permitisse pagar as contas, fazer um curso e organizar a vida financeira também foi motivo de realização.
“O que é felicidade para mim é que tudo o que estou fazendo, em algum momento, principalmente no trabalho, esteja conectado com o meu propósito.”
A conversa também chegou às relações que ajudam a abrir caminhos profissionais. Camila contou que demorou a entender o networking porque associava essa prática à obrigação de procurar pessoas quando tinha algo interessante para apresentar. A mudança veio quando percebeu que não precisava chegar a cada conversa com uma oportunidade ou um assunto pronto.
“Para eu ser interessante, eu tinha que ser interessada.”
A partir daí, passou a procurar pessoas para conhecer suas experiências, entender diferentes áreas e ampliar seu repertório. Essas relações também contribuíram para sua trajetória: oportunidades surgiram porque outras pessoas conheciam seu trabalho, sabiam de seus interesses e lembravam dela quando apareciam projetos ligados à inclusão e à diversidade.
Ela também destacou a importância de pedir feedback e identificar referências profissionais. Ter pessoas de diferentes áreas com quem trocar experiências ajuda a enxergar possibilidades e entender o que pode ser aprimorado.
Thales concordou que networking não precisa significar aproximação por interesse ou busca por pessoas com cargos mais altos. A construção de vínculos pode começar em conversas cotidianas, com curiosidade genuína pela história de alguém.
Essa postura exige, ainda, disposição para reconhecer que ninguém sabe tudo. Para Camila, admitir que não tem uma resposta fortaleceu suas relações profissionais, porque as pessoas passaram a confiar na transparência de suas respostas.
Thales observou que essa abertura também transforma a maneira como as lideranças se relacionam com as equipes. Durante muito tempo, gestores foram colocados no papel de pessoas que precisam ter todas as respostas. Quando um líder admite uma dúvida e se dispõe a descobrir junto com alguém, deixa de ocupar esse pedestal e abre espaço para colaboração.
No encerramento, Thales compartilhou uma escolha pessoal que resume parte da discussão: não esperar uma crise ou uma situação extrema para começar a viver a vida que deseja. Morando em Santos pela segunda vez, ele vê na possibilidade de trabalhar em grandes empresas e viver perto da praia um exemplo de que diferentes realizações podem coexistir.
A carreira, nessa perspectiva, precisa fazer parte de uma vida que vale a pena ser vivida. E construir esse caminho envolve reconhecer os próprios desejos, aprender a lidar com as mudanças e cultivar relações que permitam crescer sem perder de vista o que importa.
“Não dá para ter carreira e se sacrificar e ser infeliz. Ao mesmo tempo, ninguém quer ser bem-sucedido e estar sozinho. Então é como a gente aproveita essa jornada mesmo e se diverte no meio do caminho?”
Saúde Social: a arte de cultivar boas relações
A gente costuma pensar em saúde a partir da alimentação, dos exercícios físicos e das horas de sono. Mas existe um aspecto que influencia todos esses hábitos e nem sempre recebe a mesma atenção: a qualidade das nossas relações.
Na palestra “Saúde Social: a arte de cultivar boas relações”, Dan Pinheiro apresentou dados científicos e situações do cotidiano para mostrar como a conexão com outras pessoas interfere no bem-estar. A discussão passou pela solidão, pelo pertencimento e também pelo papel do trabalho na construção de vínculos.
Logo no início, Dan perguntou à plateia sobre a origem de seus nomes. Depois de ouvir histórias de participantes, contou que o próprio nome surgiu de uma situação curiosa. Sua mãe estava grávida e ainda não havia decidido como chamaria o filho. Até que ouviu uma mulher repreendendo um menino na rua: “Daniel!”. Gostou do nome e decidiu adotá-lo.
A brincadeira serviu para introduzir uma ideia central da palestra: dependemos de outras pessoas até para construir nossa identidade. Afinal, ninguém nasce sabendo o próprio nome ou como se reconhecer no mundo. É por meio das relações que aprendemos a nos desenvolver e a compreender quem somos.
“Nós dependemos dos outros. Até para saber o meu próprio nome, a minha identidade, para me reconhecer no mundo, eu precisei que alguém definisse que nome é esse”, explicou.
Dan apresentou, então, os seis pilares da Medicina do Estilo de Vida, abordagem voltada à prevenção e à construção de hábitos saudáveis. São eles: manejo do estresse, atividade física, conexão social, sono reparador, alimentação equilibrada e prevenção do uso de substâncias nocivas.
Embora todos sejam importantes, o palestrante destacou a conexão social como um elemento que também sustenta os demais. A convivência pode ajudar alguém a manter uma rotina de exercícios, melhorar a alimentação e enfrentar situações estressantes. Por outro lado, relações conflituosas também podem prejudicar esses hábitos.
A importância desse tema aparece nos números apresentados durante a palestra. Segundo os dados citados por Dan, uma em cada seis pessoas no mundo vive em situação de solidão. Além disso, cerca de 871 mil mortes anuais estão associadas ao isolamento social.
A falta de conexões também está relacionada a um risco 29% maior de doenças cardíacas. Entre jovens adultos, 19% relatam não ter ninguém com quem contar. O impacto da ausência de vínculos sociais na saúde chega a ser comparável ao risco associado ao consumo de 15 cigarros por dia.
Para Dan, é importante diferenciar solidão de estar sozinho. Aproveitar um momento individual, como contemplar o mar ou descansar, pode ser uma experiência positiva. A solidão abordada na palestra é aquela sensação dolorosa de não ter com quem contar ou para quem ligar quando necessário.
“Solidão é não ter com quem contar, não ter para quem ligar”, resumiu.
A possibilidade de cultivar relações também depende das condições de vida de cada pessoa. Dan usou um exemplo da Baixada Santista para mostrar como o tempo disponível interfere na saúde social. Quem mora no Quarentenário, na área continental de São Vicente, e trabalha na Ponta da Praia, em Santos, pode passar horas no transporte público todos os dias.
Essa rotina reduz o tempo para encontrar amigos, participar de atividades coletivas ou simplesmente conversar com alguém sem pressa. Por isso, não faz sentido tratar a construção de vínculos como uma responsabilidade individual isolada do contexto social e econômico.
“A gente não tem as mesmas 24 horas. E isso vai afetar a maneira como a gente constrói saúde social”, afirmou.
A partir desse ponto, Dan propôs três critérios para avaliar a qualidade das relações. O primeiro é a autenticidade, ou seja, poder ser você mesmo sem precisar sustentar máscaras. O segundo é o pertencimento, que envolve sentir-se parte de um grupo. O terceiro é a reciprocidade, quando existe equilíbrio entre o que cada pessoa oferece e recebe.
Esses critérios também ajudam a olhar para as relações profissionais. É comum ouvir que alguém foi trabalhar, não fazer amigos. No entanto, o ambiente de trabalho ocupa uma parte significativa da rotina e pode se tornar um espaço importante de convivência e apoio.
Durante a palestra, uma participante chamada Edna contou que voltou a trabalhar na Petrobras três anos depois de se aposentar. Ela havia passado por um período difícil, com depressão, e encontrou na volta ao ambiente profissional uma oportunidade de fazer amizades.
A experiência mudou a maneira como ela enxergava o retorno ao trabalho. Edna explicou que não queria necessariamente voltar às atividades profissionais, mas recuperar o contato com outras pessoas.
Dan aproveitou o relato para lembrar que muitos vínculos importantes surgem justamente nos momentos difíceis da rotina profissional. Projetos complicados, prazos apertados e desafios compartilhados podem aproximar colegas e construir confiança.
“Os grandes amigos que eu tenho na vida eu fiz no perrengue do trabalho. […] É no perrengue também que a gente constrói confiança, que a gente constrói intimidade”, contou.
A saúde social, porém, não depende apenas das relações dentro das empresas. A cidade também precisa oferecer condições para que as pessoas se encontrem. Dan lembrou de hábitos que eram mais comuns no passado, como brincar na rua ou colocar cadeiras na calçada para conversar com os vizinhos.
Hoje, questões como segurança e medo da violência dificultam parte dessas interações. Por isso, ele defendeu que organizações públicas e privadas também assumam o compromisso de criar ambientes que favoreçam a convivência.
A discussão ganhou outro ponto de vista quando um participante destacou a importância do autoconhecimento. Estar sozinho também pode ser uma oportunidade de compreender os próprios desejos e limites, antes de entrar em novos grupos.
Dan concordou que as duas experiências podem caminhar juntas. Conhecer a si mesmo ajuda a construir relações sem perder a própria identidade ou reproduzir vontades que não são suas.
Na parte final, o palestrante apresentou cinco estratégias práticas para fortalecer os vínculos. A primeira recebeu o nome de “Vai um bolinho?”. A proposta é reservar tempo para atividades simples que permitam conversar com calma, como preparar um bolo, tomar café, almoçar ou caminhar com alguém.
A segunda, “Chega de migalhas”, trata da reciprocidade. Dan recomendou observar quais pessoas também demonstram interesse em manter a relação e estabelecer limites quando existe uma dedicação muito desigual. Segundo ele, doar-se constantemente sem receber atenção em troca pode gerar sensação de injustiça e estresse.
A estratégia nasceu também de uma experiência pessoal. Em um período no qual se sentia sozinho, Dan organizou um encontro em casa com amigos para conversar sobre relacionamentos. O momento de troca e vulnerabilidade ajudou a fortalecer suas conexões.
A terceira sugestão é “60 segundos e um áudio”. A ideia é retomar contato com alguém importante sem esperar uma ocasião especial. Uma mensagem curta e sincera, dizendo que sente saudade e gostaria de marcar um encontro, já pode fazer diferença.
Ele também propôs criar “ilhas de sanidade”: espaços de convivência nos quais seja possível falar sobre dificuldades sem precisar fingir que está tudo bem. São relações em que as pessoas podem compartilhar cansaço, inseguranças e frustrações com acolhimento.
Por fim, Dan recomendou encontrar uma comunidade com interesses em comum. Pode ser um curso, um grupo esportivo, uma atividade voluntária ou qualquer coletivo que favoreça encontros frequentes.
Como exemplo, contou sobre o Treina BFF, movimento que criou com um amigo. A iniciativa combina treinos funcionais ou aulas de dança em duplas com rodas de conversa. A proposta é usar uma atividade compartilhada como ponto de partida para novas amizades.
Ao encerrar, Dan deixou um desejo simples para quem acompanhou a palestra: que ninguém precise enfrentar a vida sem uma rede de apoio. Cultivar relações exige tempo, disponibilidade e atenção, mas também pode começar com gestos pequenos, como mandar uma mensagem ou aceitar um convite.
“Eu torço genuinamente que nunca te falte alguém para contar. Que cada pessoa aqui possa ter alguém para contar e que a gente não ande sozinho no mundo”, concluiu.
Tríade do caos: exaustão, conexão e utopia
Acordar antes das 6 horas, pegar dois ônibus, trabalhar, fazer um bico para complementar a renda, estudar à noite e chegar em casa perto da meia-noite. Essa é a rotina de Júlia, uma personagem fictícia apresentada durante o painel “A Tríade do Caos: Exaustão, Hiperconexão e Utopia”. Mas a história poderia representar a realidade de milhares de estudantes brasileiros.
No meio dessa jornada, Júlia ainda tenta conseguir uma vaga de estágio. Depois de se candidatar a 14 oportunidades, recebe uma mensagem automática de rejeição às 3h17 da madrugada. O motivo? Não ter o perfil procurado pela empresa.
A situação apresentada por Liz Soares, gerente dos câmpus Unimonte e Cubatão da Universidade São Judas, resume parte dos desafios discutidos no encontro. Em um cenário de processos seletivos cada vez mais automatizados, estudantes enfrentam jornadas exaustivas e critérios que nem sempre reconhecem suas experiências e capacidades.
O painel reuniu Liz e Fernanda Coelho Peixoto, coordenadora da Fatec Baixada Santista Rubens Lara, do Centro Paula Souza. A mediação ficou por conta de Thiciane Lins, vice-reitora da Universidade São Judas Tadeu. As participantes discutiram o papel das instituições de ensino na formação de profissionais e a responsabilidade das empresas e do poder público nessa relação.
A conversa começou com as trajetórias das próprias convidadas. Aos 51 anos, Fernanda contou que iniciou a carreira no mercado financeiro, mas decidiu migrar para a educação há mais de duas décadas. Passou pela docência, coordenação de cursos e gestão pedagógica até assumir, em 2026, a coordenação da Fatec Rubens Lara. Ela também destacou um marco da instituição: é a primeira mulher a ocupar o cargo em 40 anos de história.
Sua experiência reforça uma das ideias que atravessaram o painel: a formação não termina com a conclusão de uma graduação. Para Fernanda, aprender é um processo permanente, que acompanha diferentes fases da vida e mudanças profissionais.
“A única certeza que eu tenho é que a educação é contínua. A educação é permanente”, afirmou.
Liz também falou sobre mudanças na própria trajetória. Aos 55 anos, depois de anos trabalhando em diferentes cidades e estados, ela contou que se sente especialmente realizada por viver em Santos, cidade que escolheu para estar com a família e seguir trabalhando na área da educação.
A gerente também compartilhou a importância de encontrar um ambiente profissional em que pudesse se apresentar por inteiro. Casada com outra mulher, contou que, durante muito tempo, manteve parte de sua vida pessoal escondida no trabalho. Na São Judas, sentiu que poderia falar abertamente sobre sua família e sua identidade desde o processo de contratação.
“Eu me senti abraçada, eu me senti inclusa. […] Eu pude ser quem eu sou”, contou.
A experiência trouxe outra dimensão à discussão sobre carreira. O acesso a oportunidades não depende apenas de formação e desempenho. Ambientes inclusivos também precisam permitir que profissionais construam suas trajetórias sem esconder quem são.
Ao retomar o exemplo de Júlia, Liz chamou atenção para a distância entre a hiperconexão digital e o acesso real às oportunidades. Os candidatos estão conectados, acompanham vagas e enviam currículos pela internet, mas nem sempre conseguem chegar a uma conversa com alguém responsável pela seleção.
Os algoritmos podem excluir pessoas por critérios rígidos, como a exigência de inglês ou de intercâmbio. Na prática, esses filtros podem ignorar experiências importantes, como a capacidade de conciliar trabalho, estudo e responsabilidades financeiras.
Fernanda concordou que a tecnologia tem seu lugar, mas não pode substituir completamente a avaliação humana. Uma estudante que enfrenta uma rotina tão exigente também demonstra habilidades e potencial, mesmo que não tenha tido acesso às mesmas oportunidades de outros candidatos.
“Ela não tem potencial porque ela não fez intercâmbio? Aí entra o humano”, questionou Fernanda.
Para ela, a educação precisa formar pessoas com autonomia, capacidade de escolha e condições de transformar suas realidades. Isso exige mais do que preparar estudantes para preencher vagas disponíveis no mercado.
As instituições também precisam olhar para as condições concretas de permanência. Liz citou, por exemplo, o caso de mães que deixam de estudar porque não têm com quem deixar os filhos. Na São Judas, um espaço para acolher crianças durante a jornada de aulas começou a oferecer uma alternativa para essas estudantes.
A gerente também defendeu currículos que considerem a realidade de quem chega à sala de aula cansado, além de experiências que aproximem os alunos da comunidade e do mercado. Professores, trabalhos em grupo e projetos de extensão podem criar relações importantes para o desenvolvimento profissional.
Nesse processo, as empresas também precisam participar. Liz destacou que o estágio só cumpre sua função quando oferece supervisão e orientação. O estudante está em formação e não deve ser tratado como mão de obra barata.
A discussão sobre a passagem da sala de aula para o mercado de trabalho também questionou a ideia de que existe uma ruptura definitiva entre esses dois ambientes. Fernanda lembrou que carreira e educação não seguem uma linha reta. Uma pessoa pode mudar de profissão, voltar a estudar ou buscar experiências fora do ensino tradicional.
Ela citou o conceito de lifelong learning, ou aprendizagem ao longo da vida, para defender que a formação acompanha diferentes momentos da trajetória. A universidade pode ser uma etapa, mas não precisa representar o fim do aprendizado.
Fernanda também questionou a cobrança para que todos sejam protagonistas o tempo inteiro. Para ela, reconhecer o próprio papel dentro de um grupo e entender como as diferentes pessoas contribuem para um resultado coletivo ajuda a reduzir a pressão individual.
A mesma preocupação apareceu quando Thiciane trouxe a discussão sobre propósito. A busca por uma carreira com significado costuma aparecer nas orientações dadas aos estudantes, mas essa conversa precisa considerar a realidade econômica do país.
Fernanda foi direta ao lembrar que, em um cenário de desigualdade social, não basta pedir que as pessoas encontrem sua vocação. É preciso mostrar caminhos para transformar interesses e habilidades em oportunidades concretas de sustento.
“Fica muito difícil para um público que está em vulnerabilidade econômica e social pensar só no propósito, porque o propósito não paga a conta de luz”, afirmou.
A educação pode ajudar nessa transformação. Fernanda contou o exemplo de uma mulher formada em artes plásticas que gostava de desenhar e, depois de algumas experiências profissionais, criou uma empresa de estampas para a indústria da moda. O conhecimento e o interesse pessoal se tornaram uma atividade econômica viável.
A coordenadora também defendeu uma aproximação maior entre instituições de ensino, empresas e poder público. As empresas precisam explicar quais profissionais procuram e participar da construção de caminhos de formação. Já as instituições têm processos regulatórios e currículos que não podem ser alterados de um dia para o outro.
Para ela, desenvolvimento econômico não depende de um único agente. É necessário construir soluções em conjunto, considerando as necessidades de quem estuda, ensina, contrata e formula políticas públicas.
No encerramento, Liz retomou essa ideia ao propor uma responsabilidade compartilhada entre quatro partes: instituições de ensino, poder público, empresas e estudantes. Cada uma tem uma função na construção de trajetórias profissionais mais sustentáveis.
As instituições precisam oferecer acolhimento e formação adequada. O poder público deve garantir políticas e condições de acesso. As empresas precisam criar oportunidades reais de desenvolvimento, enquanto estudantes e trabalhadores também participam das escolhas e dos caminhos que constroem.
A proposta é abandonar a lógica de procurar um único responsável pela exaustão e pela falta de oportunidades. O desafio envolve rever estruturas que colocam sobre os indivíduos a obrigação de se adaptar continuamente, sem considerar as condições em que vivem.
Fernanda encerrou reforçando que a educação precisa preparar as pessoas para participar da construção do futuro, em vez de apenas exigir adaptação às mudanças do mercado.
“Eu não quero naturalizar a exaustão. Eu não quero exigir que esse estudante seja permanentemente adaptável. Eu que tenho que me adaptar ou as coisas que têm que se adaptar para a gente”, concluiu.
Para ela, a educação continua sendo um dos principais instrumentos de transformação social e profissional. E esse processo precisa permitir que as pessoas tenham condições de viver, não apenas de sobreviver.
Além do discurso: juventude, vida pública e carreira na política
A política costuma aparecer no imaginário de muita gente como um ambiente distante, marcado por corrupção, disputas de poder e promessas que não saem do papel. Esse cenário ajuda a explicar por que tantas pessoas qualificadas evitam a vida pública. Durante o painel “Além do discurso: juventude, vida pública e carreira na política”, em Santos, a educadora e ativista Sheylli Caleffi e o deputado estadual Caio França discutiram como mudar essa percepção e ampliar a participação da sociedade nas decisões coletivas.
Mediada por Ludmilla Rossi, CEO do Juicyhub, a conversa passou pelas trajetórias dos convidados, pelos desafios de quem atua na política e no ativismo e pela relação entre setor público e iniciativa privada. Um dos pontos de partida foi justamente a necessidade de abrir espaço para mais mulheres nesses ambientes. Antes de começar as perguntas, Ludmilla propôs um pacto com a plateia: apenas mulheres poderiam participar da rodada de questionamentos.
A iniciativa buscava enfrentar uma situação conhecida em espaços de debate. Mesmo quando estão presentes, muitas mulheres ainda hesitam em ocupar o microfone e apresentar suas opiniões. A proposta foi aceita pelo público e ajudou a colocar a participação feminina no centro da discussão.
As trajetórias de Caio e Sheylli mostram caminhos diferentes até a vida pública. Caio França entrou na política ainda jovem, aos 19 anos, enquanto cursava Direito na Universidade Católica de Santos. Em 2008, disputou sua primeira eleição para vereador em São Vicente. A convivência com o pai, Márcio França, e a participação em movimentos acadêmicos contribuíram para aproximá-lo desse universo.
Na época, ele ainda tinha dúvidas sobre seguir carreira política e se considerava tímido para a exposição pública. A decisão de disputar a eleição aconteceu depois de conversas com amigos e familiares. Desde então, acumulou diferentes campanhas e chegou ao quarto mandato consecutivo como deputado estadual.
“Foi uma decisão em 2008 que talvez não tenha sido muito pensada, mas eu não tenho dúvida que, olhando para trás, foi a melhor decisão que eu tomei. Me sinto vocacionado e preparado para ocupar esse espaço”, afirmou Caio.
Sheylli chegou à política por outro caminho. Educadora, professora de oratória e ativista há mais de 12 anos, ela construiu sua atuação no combate à violência sexual e aos crimes digitais. Seu trabalho voluntário nas redes sociais também a levou a Brasília para contribuir com o debate sobre o ECA Digital, legislação voltada à proteção de crianças e adolescentes no ambiente online.
A mobilização ganhou ainda mais urgência quando ela passou a receber ameaças de morte de grupos criminosos que denunciava. As ameaças também atingiram pessoas de sua família. Sem equipe ou estrutura de segurança para continuar o trabalho, Sheylli precisou repensar sua atuação.
A candidatura surgiu como uma possibilidade de permanecer na defesa da causa com apoio institucional. Ela contou que chegou a interromper suas publicações por não ter condições de proteger a si mesma e seus familiares.
“Eu pensei: ou eu paro ou eu morro. Poxa, será que tem uma outra alternativa? Eu posso entrar para a política e ter um apoio de um partido, onde o parlamentar pelo menos tem segurança”, relatou.
A experiência também revelou o peso de conciliar diferentes jornadas. Além da atividade como professora e do trabalho voluntário como ativista, Sheylli passou a enfrentar a rotina de uma campanha eleitoral. A estrutura pequena e o tempo limitado tornaram o processo especialmente desgastante.
“Ativista no Brasil tem três destinos: ou você morre, ou você cria uma ONG, um instituto, ou você vai para a política. Não tem muito para onde correr”, disse.
A conversa avançou para uma questão que atravessa a relação dos brasileiros com as instituições: a ideia de que todo político é corrupto e de que a política seria um ambiente naturalmente inadequado para quem deseja fazer um trabalho sério. Para Sheylli, esse discurso afasta pessoas interessadas em contribuir com a sociedade e acaba favorecendo a permanência de quem já ocupa esses espaços.
Ela também criticou a insistência em pautas que pouco interferem na vida cotidiana, enquanto problemas concretos ficam em segundo plano. Na avaliação da ativista, a população se distancia quando o debate público parece restrito a disputas ideológicas e discussões que não respondem às necessidades das pessoas.
Caio concordou que a generalização prejudica a percepção sobre a política. Ele citou a representação recorrente de prefeitos e outros agentes públicos como personagens corruptos em novelas e produções de entretenimento. Embora reconheça a existência de irregularidades, o deputado argumentou que esse retrato não representa a totalidade de quem trabalha no setor.
Sheylli também chamou atenção para a forma como instituições como os Conselhos Tutelares aparecem na ficção e nas redes sociais. Segundo ela, representações caricatas podem reforçar a desconfiança da população e dificultar o reconhecimento do trabalho realizado por profissionais comprometidos com a proteção da infância.
Ludmilla trouxe outro ponto para o debate: a comparação entre a iniciativa privada e o poder público. Existe uma percepção de que empresas são naturalmente mais eficientes, enquanto órgãos públicos seriam sinônimo de lentidão e acomodação. A experiência de quem trabalha com projetos que dependem de parcerias institucionais, no entanto, mostra uma realidade mais complexa.
Ela lembrou que há profissionais dedicados no serviço público, inclusive em prefeituras, que trabalham até tarde para viabilizar projetos e melhorar a vida nas cidades. Também apontou que grandes empresas não estão livres de problemas de gestão, assédio e comportamentos prejudiciais.
“Não vamos cair no discurso burro. Em Santos tem um monte de gente na prefeitura que trabalha demais!”, afirmou Ludmilla.
Outro tema importante foi a diferença entre lobby e advocacy. A articulação de interesses no Congresso pode atender a setores econômicos específicos, mas também pode ser uma ferramenta para que a sociedade civil conquiste avanços. Caio citou sua atuação em defesa da cannabis medicinal e a aprovação da lei estadual que garante o fornecimento gratuito do tratamento pelo SUS em São Paulo.
Sheylli, por sua vez, mencionou a mobilização de coletivos de mulheres em torno da ampliação da licença-paternidade. O grupo COPai reuniu pesquisas científicas e levou argumentos aos parlamentares para defender a importância da presença dos pais nos primeiros dias de vida dos bebês. Para os participantes, esse tipo de articulação mostra como cidadãos organizados podem influenciar políticas públicas.
O contraponto aparece na pressão de grandes empresas de tecnologia contra a regulamentação da internet e medidas de proteção de crianças e adolescentes. Sheylli destacou que o lobby das Big Techs teve influência nas dificuldades para avançar com o ECA Digital, mesmo antes de o tema ganhar maior visibilidade pública.
A espetacularização da política nas redes sociais também entrou na conversa. Ludmilla criticou a busca por visualizações por meio de vídeos de dancinhas e situações encenadas por representantes eleitos. Caio relacionou esse comportamento ao modelo eleitoral proporcional, que pode favorecer candidatos com grande capacidade de atrair votos e ajudar a eleger outros nomes do mesmo partido.
Para ele, mudanças nas regras eleitorais poderiam contribuir para reduzir esse incentivo à exposição pela exposição. Sheylli, por outro lado, apresentou propostas mais imediatas para melhorar o funcionamento das instituições. Uma delas seria proibir o uso de celulares por parlamentares durante discursos e debates no plenário, evitando que a atenção se volte à gravação de vídeos para as redes sociais.
Outra proposta seria estabelecer limites para o uso de recursos públicos de campanha em anúncios de plataformas estrangeiras, como a Meta. Na avaliação da ativista, direcionar uma parcela maior desses investimentos para gráficas, rádios, profissionais de comunicação e lideranças comunitárias ajudaria a movimentar a economia local.
Caio também citou uma ferramenta do Governo Federal que permite às prefeituras contratar microempreendedores individuais para pequenos serviços, com valores de até R$ 12 mil a R$ 15 mil, sem passar pelos mesmos processos burocráticos de uma licitação tradicional. Para ele, a adesão dos municípios a iniciativas desse tipo pode fortalecer os pequenos negócios e facilitar a execução de serviços.
Ao falar sobre o que cada pessoa pode fazer, os convidados reforçaram que a participação política não depende necessariamente de disputar uma eleição. A sociedade pode acompanhar o trabalho das câmaras municipais, conhecer os Conselhos Tutelares, cobrar representantes e apresentar propostas por meio de parlamentares eleitos.
Sheylli lembrou que a atuação coletiva também pode acontecer dentro dos partidos, em organizações e em movimentos sociais. O importante é não deixar que a descrença nas instituições se transforme em afastamento completo das decisões públicas.
“Se a gente acha que a política não é para a gente, alguém vai estar lá tomando as decisões por nós”, concluiu Sheylli.
Com as eleições municipais de 2028 e as nacionais de 2030 no horizonte, o painel deixou um convite à participação. A cobrança por resultados, a fiscalização dos representantes e a entrada de novos talentos na vida pública são caminhos para aproximar a política dos problemas reais da população.
Tudo virou digital ou tudo virou marketing?
Nunca foi tão fácil produzir conteúdo. Com ferramentas de inteligência artificial e redes sociais, qualquer empresa consegue criar uma publicação em poucos minutos e alcançar milhares de pessoas. O desafio, agora, é fazer com que essa comunicação tenha sentido, represente a marca e gere resultados para o negócio.
Esse foi o ponto de partida do painel “Tudo virou digital ou tudo virou marketing?”, que reuniu Aline Freire, gerente de Marketing da rede Krill Supermercados, e Patricia D’Alessandro, executiva de marketing e comunicação do Grupo Trasmontano. Com mediação de Rose Barbosa, diretora de estratégia do Grupo Mkt Virtual, a conversa abordou as mudanças na profissão, o impacto da inteligência artificial e o que diferencia uma estratégia de marketing da simples produção de conteúdo.
Para Patricia, a impressão de que tudo virou marketing esconde um problema: muitas marcas estão presentes em diferentes canais, mas não conseguem transmitir aquilo que realmente representam. A comunicação perde força quando se distancia dos valores e da essência da empresa.
Aline concordou e destacou que produzir uma publicação ou acompanhar uma tendência não significa, necessariamente, fazer marketing. O trabalho exige metodologia, posicionamento e clareza sobre os objetivos de cada ação. Uma campanha pode viralizar e ainda assim não contribuir para o resultado que a empresa precisa alcançar.
“O marketing vai muito além de você só colocar uma informação num post. A gente faz uma estratégia, tem toda uma metodologia de imagem, de comunicação, de quantidade de conteúdo que você coloca e como comunica”, explicou Aline.
A discussão também passou pela escolha dos canais. Na avaliação de Patricia, as marcas não precisam estar em todas as plataformas. Precisam entender onde está seu público e quais ambientes permitem comunicar seus valores com credibilidade.
As redes sociais facilitaram o acesso à mídia e ampliaram as possibilidades de segmentação. No entanto, essa facilidade exige ainda mais planejamento. Sem intenção estratégica, a presença digital pode apenas aumentar o volume de mensagens sem construir relacionamento com o consumidor.
Aline trouxe a experiência do varejo alimentar para mostrar como essa conexão aparece na prática. Em um mercado com produtos semelhantes e concorrentes próximos, a experiência dentro da loja pode influenciar diretamente a escolha do consumidor.
Um dos exemplos citados foi a criação de carrinhos pet nos supermercados Krill. A iniciativa permite que clientes façam compras acompanhados de seus cães de pequeno e médio porte, sem precisar deixá-los do lado de fora da loja.
A solução atende a uma necessidade cotidiana e cria uma relação positiva com a marca. Para Aline, não basta divulgar a novidade com uma imagem bonita de um cachorro no carrinho. A empresa precisa entregar a experiência prometida e garantir que o cliente perceba o diferencial durante a visita.
Patricia relacionou essa lógica ao setor de saúde. Em mercados nos quais os serviços se tornaram mais semelhantes, a experiência ganha peso na decisão de permanecer ou trocar de fornecedor.
A executiva observou que a tecnologia médica avança rapidamente, com novos equipamentos, diagnósticos e técnicas de tratamento. Esse desenvolvimento é fundamental, mas não elimina a importância do atendimento humano. Pelo contrário: quanto mais a tecnologia padroniza procedimentos, maior pode ser o valor da relação entre profissionais e pacientes.
Ela contou que, ao conversar com clientes, percebeu que a qualidade assistencial nem sempre está associada aos equipamentos mais modernos. Para muitas pessoas, o que realmente faz diferença é conseguir marcar uma consulta no tempo necessário e receber atenção durante o atendimento.
“Quando você pergunta para alguns deles o que é de fato importante, a resposta que a gente tem é que ele não está preocupado com a tecnologia médica. Porque qualidade assistencial, para ele, é tempo”, afirmou Patricia.
A inteligência artificial apareceu no painel como uma ferramenta capaz de ampliar a produtividade, desde que acompanhada de direção estratégica. Aline afirmou que a tecnologia facilita a produção de materiais, especialmente no varejo, onde as demandas são frequentes e o volume de peças costuma ser alto.
Ainda assim, a ferramenta não substitui o conhecimento sobre a identidade da empresa. É preciso estabelecer padrões e orientar a comunicação para que a velocidade não comprometa a consistência da marca.
Patricia também utiliza inteligência artificial no cotidiano profissional, mas principalmente na gestão. A tecnologia ajuda a acompanhar a operação, organizar indicadores e avaliar o desempenho da equipe. Com dashboards, consegue identificar o que funciona, o que precisa ser ajustado e quais ações merecem continuidade.
“Eu olho muito para a inteligência artificial como um device de produtividade. Quando a gente olha para ela como uma ferramenta de apoio, de desenvolvimento, o céu é o limite”, disse Patricia.
Aline apresentou outro exemplo, desta vez relacionado ao uso de dados no relacionamento com clientes. A rede conta com um CRM que reúne mais de 220 mil pessoas ativas e permite identificar hábitos de consumo para direcionar ofertas.
Se uma negociação com fornecedor garante um preço especial em determinada cerveja, por exemplo, a ferramenta ajuda a identificar quais consumidores costumam comprar aquele produto. Assim, a empresa consegue direcionar a oferta com mais precisão e agilidade.
O ganho não está apenas na velocidade de produção, mas na capacidade de compreender o comportamento do público e tomar decisões comerciais mais adequadas. A tecnologia facilita o trabalho, mas a estratégia continua dependendo da interpretação dos dados.
Rose chamou atenção para um efeito colateral dessa busca por produtividade: em vez de liberar tempo para pensar, muitas equipes passaram a produzir cada vez mais. A facilidade de criar sites, campanhas e materiais pode gerar entregas em grande quantidade, mas também aumenta o risco de conteúdos repetitivos e soluções pouco consistentes.
Aline observou que a proximidade entre ferramentas e referências faz com que muitas marcas acabem seguindo os mesmos caminhos. Quando todos acompanham as mesmas tendências e reproduzem formatos semelhantes, a comunicação perde personalidade.
Patricia relacionou esse comportamento à cultura de urgência que atravessa o ambiente profissional. A expectativa de respostas imediatas e entregas constantes pressiona equipes e reduz o espaço para análise.
“O profissional deixa de pensar e olha só para a ferramenta. Aí vem o que você falou, Aline: todo mundo igual e a gente no automático. Acho que está faltando um equilíbrio de como usar isso da melhor maneira possível”, avaliou.
A executiva também lembrou duas transformações importantes na história recente do marketing. A internet ampliou o acesso à informação e mudou a maneira como as pessoas verificam e interpretam mensagens. Depois, as redes sociais estabeleceram uma relação de mão dupla entre marcas e consumidores.
Antes, as empresas concentravam o discurso e o público recebia a comunicação. Agora, o consumidor responde, questiona e compartilha sua experiência. A percepção sobre uma marca não depende apenas do posicionamento que ela declara, mas também daquilo que as pessoas vivenciam.
Essa mudança torna a coerência entre discurso e operação ainda mais importante. Aline lembrou que não adianta uma empresa se apresentar como sustentável se não adota práticas que sustentem essa afirmação. O público identifica contradições e pode cobrar explicações rapidamente.
No varejo, esse cuidado envolve compreender a frequência de compra, os diferentes perfis de consumidores e as variações de comportamento ao longo do mês. Aline explicou que cada categoria de produto exige uma estratégia própria, considerando fatores como estoque, recorrência, datas comemorativas e poder de compra.
No setor de saúde, Patricia enfrenta outro tipo de desafio. O mercado de saúde suplementar tem crescimento limitado, e as empresas disputam consumidores que podem trocar de operadora. Por isso, a manutenção do relacionamento depende da qualidade do serviço entregue continuamente.
A executiva explicou que os números precisam ser interpretados de acordo com a realidade de cada negócio. Um mercado que cresce pouco ainda pode oferecer oportunidades para empresas que conquistam participação de concorrentes ou passam a atuar em segmentos nos quais ainda não estavam presentes.
Para as duas profissionais, compreender o negócio como um todo é uma das características mais importantes para quem deseja construir uma carreira em marketing. Aline destacou a necessidade de trabalhar em equipe e desenvolver sensibilidade para entender pessoas e consumidores.
Patricia acrescentou que o mercado tem formado profissionais cada vez mais especializados, mas nem sempre preparados para enxergar o funcionamento da empresa de maneira ampla. Ela não defende um profissional que tente fazer tudo, mas alguém capaz de compreender como sua especialidade contribui para os objetivos do negócio.
Essa visão também ajuda a enfrentar pedidos de clientes que chegam com soluções prontas, como a solicitação de dez publicações para redes sociais. Antes de produzir, é preciso entender o motivo daquela demanda, o público que se pretende alcançar e o resultado esperado.
Rose reforçou que o profissional de marketing precisa ter repertório e coragem para questionar decisões. Em vez de apenas executar pedidos, deve apresentar argumentos e apontar quando determinada escolha não faz sentido para a estratégia.
Aline reconheceu que essa postura pode tornar o profissional o “chato do rolê”, mas considera o questionamento parte essencial do trabalho. Ela contou que já recebeu uma arte com elementos decorativos incluídos apenas porque o layout parecia vazio. Para a gerente, até uma nuvem precisa ter uma razão para estar ali, pois cada elemento comunica alguma coisa ao consumidor.
“Tudo precisa ter um porquê e coerência debaixo do braço. Às vezes, o que o cliente quer ou acha bonito não é o que efetivamente dá resultado”, afirmou Aline.
Ao final, o painel apontou que o avanço tecnológico não diminui a importância do marketing estratégico. Pelo contrário, quando ferramentas e plataformas ficam mais acessíveis, a capacidade de interpretar cenários, compreender pessoas e tomar decisões coerentes se torna ainda mais relevante.
A inteligência artificial pode acelerar processos, organizar informações e ampliar possibilidades de criação. Mas são as pessoas que precisam definir o que merece ser comunicado, para quem e com qual objetivo. É essa combinação entre tecnologia, conhecimento do negócio e sensibilidade humana que sustenta marcas relevantes em um mercado cada vez mais disputado.
Fenômeno da Impostora: quando competência não basta para sustentar confiança
Mulheres podem acumular experiência, formação e resultados expressivos e, ainda assim, duvidar da própria capacidade. Para Joyce Romanelli, esse sentimento não nasce apenas de questões individuais. Ele também é alimentado por estruturas culturais e ambientes corporativos que colocam em dúvida a autoridade feminina.
Sócia-diretora e cofundadora da Fluxus Educação, Joyce levou essa discussão ao Festival Chai de Vida e Carreira, em Santos. Na palestra “Fenômeno da impostora: quando a competência não basta para sustentar a confiança”, ela apresentou pesquisas, situações vividas ao longo de mais de 20 anos no mundo corporativo e caminhos para reconhecer e enfrentar essas barreiras.
Nutricionista de formação, Joyce começou a carreira no atendimento clínico e passou por diferentes funções até assumir uma direção executiva hospitalar. Nesse percurso, percebeu uma mudança importante nas expectativas sobre seu trabalho. As primeiras promoções reconheciam sua capacidade técnica. Nas posições de liderança, porém, o desafio passou a ser alcançar resultados por meio de outras pessoas.
A experiência a levou a estudar gestão e desenvolvimento de lideranças. Também ampliou seu olhar sobre as regras explícitas e os comportamentos naturalizados que influenciam quem consegue avançar profissionalmente.
Um dos pontos apresentados por Joyce foi a distância entre a escolaridade das mulheres e sua presença nos cargos mais altos das empresas. Segundo os dados do Global Gender Gap Report citados na palestra, a paridade de gênero no mundo ainda levaria 123 anos para ser alcançada. Em 2019, antes da pandemia, a estimativa era de 99 anos.
A pandemia agravou desigualdades que já existiam. Mulheres assumiram grande parte das tarefas de cuidado, acompanharam a alfabetização dos filhos em casa e ficaram mais expostas à violência doméstica. Esses fatores também afetaram sua participação no mercado de trabalho.
No cenário global, as mulheres ocupam aproximadamente 31% dos cargos de liderança sênior. O Brasil aparece na 72ª posição entre 146 países avaliados pelo relatório.
O Panorama Mulheres, do Insper, também mostra como a presença feminina diminui conforme a hierarquia corporativa avança. Em 2025, mulheres ocupavam cerca de 30% das diretorias, 20% das vice-presidências e 17% das presidências e dos conselhos. O percentual nas vice-presidências havia sido de 34% em 2023.
A disparidade chama atenção porque a educação já apresenta um cenário muito diferente. A paridade nesse indicador chegou a 96%, e as mulheres são maioria em diferentes etapas da formação acadêmica no Brasil.
Se a qualificação não falta, por que elas continuam tão distantes dos principais cargos de decisão? Para Joyce, a resposta passa pela chamada normose organizacional.
O conceito descreve comportamentos e estruturas tão naturalizados que deixam de causar estranhamento. É o caso de reuniões de alta liderança formadas quase exclusivamente por homens brancos, por exemplo. Quando essa composição parece normal, a ausência de mulheres deixa de ser percebida como um problema.
“Quando a presença das mulheres na liderança é exceção, o problema não é talento, é normose organizacional.”
Joyce também chamou atenção para a distribuição desigual de responsabilidades e áreas de atuação. Mesmo quando chegam à diretoria, mulheres costumam ocupar posições associadas ao cuidado e à gestão de pessoas. Enquanto isso, cargos ligados a finanças, tecnologia e outras áreas estratégicas continuam frequentemente concentrados nas mãos dos homens.
Essa desigualdade também aparece na remuneração e no reconhecimento da autoridade feminina. Joyce contou que viveu essa situação ao assumir a direção executiva de uma rede hospitalar religiosa, depois de 13 anos na organização.
Ao receber o convite para substituir um diretor que não havia alcançado os resultados esperados, ela apresentou uma expectativa salarial baseada na remuneração de seu antecessor. A proposta inicial foi recebida com resistência. A empresa dobrou seu salário, mas o valor ainda correspondia a 40% menos do que o homem recebia.
Nos três anos seguintes, Joyce ampliou a operação de um hospital para cinco serviços de saúde. No mesmo período, o faturamento passou de R$ 5 milhões para R$ 40 milhões. Apesar dos resultados, ela nunca alcançou a remuneração do antigo diretor.
Além disso, precisava levar um homem às reuniões estratégicas com os representantes da instituição religiosa. Mesmo sendo responsável pelos números e pela gestão, sua presença parecia insuficiente para conduzir sozinha aquelas conversas.
Joyce chamou essa situação de autoridade fracionada. Na prática, a profissional ocupa formalmente um cargo de liderança, mas não recebe a mesma autonomia e confiança concedidas aos homens que desempenham funções equivalentes.
“A entrega fala por si só” não é uma verdade no mundo corporativo, destacou Joyce ao questionar a ideia de que bons resultados garantem reconhecimento automaticamente.
A experiência ajuda a entender por que ela prefere falar em fenômeno da impostora, em vez de síndrome da impostora. O termo síndrome pode transformar uma questão social e cultural em um problema exclusivamente individual, como se a mulher precisasse corrigir uma falha pessoal para se sentir competente.
O fenômeno foi identificado por duas psicólogas na década de 1970, em pesquisas com mulheres de alto desempenho acadêmico e profissional. Mesmo com evidências concretas de suas capacidades, elas relatavam medo persistente de serem descobertas como fraudes.
Joyce apresentou duas dinâmicas familiares observadas nesses estudos. Na primeira, a menina cresce ouvindo que é sensível, cuidadosa e boa com as pessoas, enquanto alguém próximo recebe o reconhecimento de ser inteligente. Mesmo depois de conquistar títulos e resultados, ela pode continuar duvidando da própria capacidade intelectual.
Na segunda, a criança recebe elogios constantes por ser excepcional em tudo. Quando chega ao mercado de trabalho e encontra dificuldades comuns, interpreta os obstáculos como prova de que nunca foi tão competente quanto imaginava.
As experiências são diferentes, mas podem produzir uma sensação semelhante de inadequação. Para Joyce, entender essas origens não significa ignorar questões individuais ou a importância da terapia. Significa reconhecer que a insegurança também pode ser construída pelo ambiente em que uma pessoa cresce e trabalha.
A palestrante citou ainda um levantamento do LinkedIn, baseado em bilhões de interações, segundo o qual homens costumam se candidatar a vagas quando atendem a cerca de 60% dos requisitos. Mulheres, por outro lado, tendem a se inscrever apenas quando cumprem todas as exigências.
A diferença ajuda a explicar como a cobrança por perfeição limita oportunidades. Mesmo quando têm experiência e qualificação suficientes, muitas mulheres esperam ter certeza absoluta antes de se colocarem à disposição para uma nova posição.
Essa postura também se relaciona ao aprendizado social sobre agradar e evitar conflitos. Para ilustrar a questão, Joyce apresentou o experimento da limonada salgada. Nele, crianças recebem uma bebida preparada com sal. Os meninos costumam reclamar imediatamente do gosto ruim. Já as meninas frequentemente sorriem e dizem que gostaram, mesmo quando não querem beber novamente.
A explicação dada por elas é que não queriam magoar a pessoa que ofereceu a limonada. Para Joyce, a situação mostra como meninas aprendem desde cedo a esconder o próprio desconforto para não desagradar os outros.
“A gente aprende a tomar limonada salgada desde muito cedo e não reclamar.”
No ambiente profissional, esse comportamento pode aparecer quando mulheres aceitam situações injustas, evitam negociar salários ou permanecem em espaços que não reconhecem seu trabalho. A dificuldade de se posicionar acaba reforçando relações desiguais.
Para lidar com esse cenário, Joyce apresentou três movimentos. O primeiro é fazer uma leitura de contexto, separando fatos objetivos das interpretações pessoais. Uma profissional pode acreditar que não está preparada para uma promoção, mas precisa observar também quais oportunidades recebe, como seu trabalho é reconhecido e se existe igualdade de condições.
A palestrante usou a própria trajetória como exemplo. Ganhar menos que o antecessor e precisar de um homem ao lado em reuniões estratégicas eram fatos concretos. Interpretar essas situações como falta de capacidade seria assumir individualmente uma responsabilidade que também pertencia à organização.
“Você não duvida de si à toa. Você aprende a duvidar em certos contextos.”
O segundo movimento é fazer escolhas conscientes e construir alternativas. Joyce ressaltou que nem toda permanência representa crescimento ou resiliência. Isso não significa pedir demissão diante de qualquer insatisfação, mas avaliar os custos de continuar em determinado ambiente e preparar possibilidades de mudança.
Ela relacionou essa ideia ao conceito de ambidestria, apresentado pelo autor Nassim Taleb no livro Antifrágil. A proposta é conseguir manter as condições atuais de trabalho enquanto se prepara para um próximo passo, seja uma mudança de área, uma nova formação ou o empreendedorismo.
O terceiro movimento é avançar sem abrir mão da própria identidade. Para Joyce, construir uma carreira exige considerar as necessidades materiais e as condições reais de cada pessoa, mas também reconhecer quais valores e limites não podem ser negociados.
A própria palestrante tomou essa decisão ao deixar a carreira executiva e empreender. Depois de acumular experiência e formação, percebeu que não queria continuar em um ambiente no qual sua autoridade era constantemente questionada e sua remuneração permanecia desigual.
“Caber no contexto não pode custar quem você é.”
Ao encerrar, Joyce reforçou que nem toda insegurança profissional tem a mesma origem. Algumas questões exigem cuidado individual, enquanto outras precisam ser enfrentadas pelas organizações e pela sociedade. Reconhecer essa diferença permite que mulheres compreendam melhor suas trajetórias e identifiquem quais movimentos podem fazer dentro de suas realidades.
A mudança também depende de empresas dispostas a rever práticas naturalizadas, distribuir oportunidades e reconhecer a competência feminina com autonomia e condições equivalentes. Afinal, quando uma profissional entrega resultados, mas continua sem receber confiança e reconhecimento, a questão não está apenas na maneira como ela enxerga a si mesma.
Como uma volta de bicicleta pela América Latina virou meu trabalho?
Beto Ambrosio pedalou por 25 mil quilômetros, atravessou países, enfrentou desertos e tempestades de neve e voltou para casa com centenas de histórias registradas em diários. Anos depois, encontrou uma maneira pouco convencional de transformar essa experiência em trabalho: passou a vender o próprio livro para passageiros enquanto dirige por aplicativo em São Paulo.
A trajetória do fotógrafo documental, escritor e cicloviajante foi tema da palestra “Como uma volta de bicicleta pela América Latina virou meu trabalho?”, no Festival Chai de Vida e Carreira, em Santos. Beto contou como uma viagem iniciada aos 25 anos se transformou em livro, negócio independente e novas oportunidades profissionais.
A vontade de viajar vinha de casa. Seu pai, Roberto Ambrosio, conhecido pelo apelido de Terror, foi paraquedista, caminhoneiro na Transamazônica e também cicloturista. Beto cresceu ouvindo histórias sobre as viagens e os imprevistos enfrentados pelo pai nas estradas brasileiras.
Aos 25 anos, recém-formado em Administração de Empresas, decidiu seguir esse impulso. Não tinha dinheiro para bancar uma expedição daquele tamanho, mas queria passar um período sozinho, conhecer outras culturas e entender melhor a própria mente.
A viagem também tinha uma motivação ligada ao autoconhecimento. Beto queria encarar o silêncio, observar seus pensamentos e compreender melhor as relações humanas. Para isso, escolheu a bicicleta como companheira de uma jornada que começaria no interior paulista e seguiria até o México.
A oportunidade de viabilizar o projeto apareceu de maneira inesperada. Enquanto fazia bicos em um café no centro de Araraquara e vendia brigadeiros para complementar a renda, Beto levou para o trabalho um livro de Rafael Lima Verde, outro viajante que havia cruzado a América Latina de bicicleta.
O empresário Tadeu, dono de uma marca esportiva da cidade, entrou no estabelecimento, viu a publicação sobre o balcão e começou a conversar com Beto. Ao conhecer o sonho do rapaz, propôs patrocinar a expedição.
Uma semana depois, os dois organizaram o que seria necessário para a viagem. Seis meses mais tarde, em 2 de dezembro de 2012, no dia em que completava 25 anos, Beto deixou Araraquara rumo à América Latina.
Foram dois anos e oito meses de estrada, com aproximadamente 25 mil quilômetros pedalados. O percurso passou pelo Sul do Brasil, Uruguai, Argentina, Chile, Bolívia, Peru, Equador e Colômbia. Depois, seguiu pela América Central até o México, incluiu Cuba e terminou com o retorno ao Brasil por Roraima. Beto chegou em casa em 15 de agosto de 2015.
Ao longo do caminho, encontrou situações que mudaram sua maneira de enxergar o mundo. Uma das histórias mais marcantes aconteceu no deserto do Atacama, no Chile, quando foi recebido por dona Delícia e seu neto, Benjamin, de 8 anos.
A família vivia em uma casa muito simples, sem banheiro ou geladeira. Quando chegou da escola e encontrou o viajante, Benjamin colocou sobre a mesa o pequeno bolinho que havia recebido naquele dia. Com o cabo de uma colher, dividiu o lanche ao meio e ofereceu uma parte a Beto.
O gesto ficou marcado porque o menino compartilhou o que tinha, mesmo tendo tão pouco. Beto contou que saiu daquela casa no dia seguinte emocionado, misturando gratidão e culpa ao perceber o quanto havia aprendido com uma criança que acabara de conhecer.
A hospitalidade apareceu de outras formas durante a expedição. Em diferentes cidades, moradores abriram suas casas e ofereceram comida e abrigo. Bombeiros também o receberam em quartéis, assim como igrejas e pessoas que encontrava pelo caminho. Em algumas noites, dormiu em postos de gasolina, praças, praias e até dentro de uma ambulância.
Na cordilheira dos Andes, chegou a acampar durante uma tempestade de neve. Em outro trecho, atravessou cerca de 450 quilômetros do deserto do Atacama sem encontrar postos de gasolina ou restaurantes. Foram quatro dias pedalando, organizando o abastecimento de água e comida e enfrentando o vento intenso.
A experiência exigiu planejamento, mas também confiança nas pessoas. Em uma ocasião, dois chilenos que passavam de carro o encontraram e ofereceram alimentos. Ao saberem que Beto pretendia acampar durante a neve, ficaram surpresos, ajudaram a preparar uma refeição e ainda o convidaram para passar a noite seguinte na casa deles.
“Se eu não tivesse essa crença, eu nem ia. Eu tenho que acreditar: eu vou, vai dar certo, eu vou conseguir sair vivo daqui”, contou.
As histórias de solidariedade deram origem ao livro Fé Latina, escrito a partir dos diários que Beto manteve durante a viagem. O título não tem relação com religião. A proposta é celebrar a fé na humanidade e a confiança de que ainda existem muitas pessoas dispostas a ajudar.
O livro começou a ganhar forma depois do retorno, quando Beto reuniu os registros e trabalhou no texto, nas fotografias e na diagramação. Como queria manter a independência do projeto, decidiu não depender de uma editora tradicional.
Para financiar a primeira edição, organizou uma campanha de financiamento coletivo. Mais de 600 pessoas participaram da pré-venda e ajudaram a viabilizar a impressão. A primeira tiragem chegou à casa do autor, que preparou pessoalmente as dedicatórias e os envios para leitores de diferentes partes do país.
Desde então, Fé Latina chegou à décima reimpressão e se aproximou de 30 mil exemplares vendidos. O resultado, porém, não veio apenas da história da viagem ou do interesse dos leitores. Foi preciso encontrar maneiras de fazer o livro circular e sustentar o negócio.
Beto explicou que, embora a expedição tenha exigido coragem e resistência, vender o livro e manter uma atividade independente se mostrou um desafio ainda maior. Na estrada, muitas pessoas estavam dispostas a recebê-lo e ajudá-lo. No mercado, era necessário conquistar espaço, encontrar clientes e pagar as contas.
A solução surgiu em São Paulo, quando ele precisava aumentar a renda para sustentar a vida com a esposa, Nicole, e a filha, Flor. Até então, vendia os livros em feiras e pontos de circulação cultural, usando uma Kombi laranja como loja ambulante. A atividade, no entanto, não cobria os custos da cidade.
Foi quando decidiu trabalhar como motorista de aplicativo e transformar o carro em uma livraria. A ideia era simples: oferecer o livro aos passageiros durante as corridas. Há quatro anos, começou a experiência e, segundo ele, o primeiro passageiro comprou um exemplar. A passageira seguinte também.
Desde então, a iniciativa se tornou parte da rotina. Beto estima que mais de 6 mil pessoas já passaram pelo carro e que vendeu cerca de 3 mil livros diretamente aos passageiros.
A abordagem começa com uma pergunta: “Você gosta de ler?”. A partir da resposta, ele apresenta o livro e conta brevemente a história da viagem. O encontro pode terminar com uma venda, mas também pode abrir portas para outros trabalhos.
“É uma livraria ambulante e é o meu escritorinho ali também. Meu network acontece dentro do meu carro, no trânsito de São Paulo”, explicou.
As conversas já renderam convites para palestras e conexões profissionais. Assim, o carro passou a funcionar como ponto de venda, espaço de divulgação e lugar de encontro com novos leitores.
Durante a palestra, o apresentador Rodrigo Vergara também destacou que a confiança nas pessoas continua presente nas viagens mais recentes de Beto. Em alguns percursos, seguidores acompanham seus deslocamentos e oferecem hospedagem, alimentação e apoio nas cidades seguintes.
A experiência mostra como a rede construída ao longo do caminho pode continuar gerando oportunidades muito depois do fim de uma viagem. Beto já publicou outros livros e realizou novas expedições, incluindo viagens pela Patagônia, Ásia e Estrada Real.
Ao compartilhar sua trajetória, o escritor destacou que a atitude de transformar o próprio trabalho em uma atividade sustentável é uma das realizações de que mais se orgulha. A bicicleta deu início à história, mas foi a disposição de encontrar caminhos para vender o livro que permitiu dar continuidade ao projeto.
Aos passageiros que entram no carro, Beto oferece uma leitura. Para quem acompanha suas viagens, deixa também uma mensagem sobre coragem, iniciativa e confiança nas pessoas que aparecem pelo caminho.
Incompatível com o LinkedIn
Em uma carreira que começou antes das redes sociais e passou por blogs, podcasts e transmissões ao vivo, Maurício Cid construiu um caminho pouco convencional. Criador do Não Salvo, ele transformou ideias absurdas em fenômenos da cultura digital brasileira. Algumas delas chegaram ao noticiário internacional, mobilizaram milhares de pessoas e até enganaram veículos de imprensa.
Durante o painel mediado por Ludmilla Rossi, CEO do Juicyhub, no Festival Chai de Vida e Carreira, o santista revisitou histórias que marcaram sua trajetória. Entre os episódios, contou como ajudou a levar um jogador desconhecido ao prêmio da FIFA, convenceu estrangeiros a salvar uma ave fictícia chamada Galvão e fez o mundo acreditar que a Coreia do Norte havia vencido a Copa do Mundo.
A conversa também teve um significado especial para Cid. Apesar de ter palestrado em diferentes estados brasileiros e no exterior, ele nunca havia sido convidado para falar profissionalmente em sua cidade natal.
“Hoje é um dia de reparação histórica. Eu já fui para o Brasil inteiro, já fiz palestra em tudo que é lugar, mas Santos nunca me chamou para nada.”
Antes de se tornar um dos nomes conhecidos da internet brasileira, Cid teve empregos bastante diferentes. Ainda jovem, fazia cartões de visita para vender e trabalhou como estagiário na Santa Casa de Santos, imprimindo etiquetas de identificação colocadas nos pés dos pacientes mortos. Mais tarde, já em São Paulo, trabalhou na Sky e enfrentava uma rotina de deslocamento que começava às 5 horas da manhã e terminava perto das 23 horas.
A internet ainda não era uma possibilidade profissional concreta. O que existia era o hábito de escrever e experimentar com humor. Em 2009, esse interesse ganhou forma no Não Salvo, que começou como um blog despretensioso e acabou alcançando mais de 1 bilhão de acessos.
A familiaridade com comunidades virtuais, no entanto, veio antes. No Orkut, Cid chegou a criar 1.024 comunidades e acumular mais de 6 milhões de seguidores. Os títulos seguiam uma lógica de humor nonsense, como “Eu adoro comer bonsai”, acompanhada por uma imagem de sushi. A brincadeira consistia em provocar quem entrava para explicar que aquilo não era um bonsai.
“Já tinha rage bait nessa época. As pessoas entravam na comunidade para me avisar que aquilo não era um sushi, era um bonsai. E eu achava isso incrível.”
O sucesso trouxe também uma percepção importante sobre a relação entre criadores e plataformas. Apesar de administrar centenas de comunidades e reunir milhões de seguidores, Cid não era dono daquele espaço. Quando o Orkut excluiu seu perfil, ele entendeu que todo o público poderia desaparecer por uma decisão da empresa.
Foi assim que surgiu a ideia de construir um canal próprio. O Não Salvo permitia publicar o que quisesse sem depender das regras de uma rede social. Ao longo de dez anos, o blog reuniu quase 18 mil publicações e chegou a receber cerca de 2 mil sugestões de vídeos por dia. Em alguns momentos, alcançou 1 milhão de visitas diárias e figurou entre os dez sites mais acessados do Brasil.
A página também funcionou como uma vitrine para talentos que ainda não tinham encontrado seu público. Cid lembrou que o primeiro vídeo de Felipe Neto foi publicado no blog, depois de uma troca de mensagens pelo MSN. Cauê Moura e Castanhari também passaram pelo Não Salvo. O espaço ajudou a espalhar fenômenos como “Para Nossa Alegria”, “Sou Foda” e Carreta Furacão.
No caso de “Para Nossa Alegria”, o vídeo chegou até Cid por indicação de um vizinho dos irmãos que apareciam cantando. Naquele momento, tinha apenas oito visualizações. O blogueiro demorou alguns dias para publicar porque não achou o conteúdo tão engraçado quanto outros materiais que recebia. Depois da publicação, o vídeo se espalhou pelo país e ultrapassou dezenas de milhões de visualizações.
Esses episódios mostravam uma característica central do Não Salvo: a capacidade de transformar conteúdos aparentemente pequenos em acontecimentos coletivos. A comunidade não apenas consumia as publicações. Também enviava sugestões, participava de campanhas e ajudava a construir as brincadeiras.
Foi essa mobilização que tornou possíveis algumas das trollagens mais conhecidas da internet brasileira. Em 2010, durante a Copa do Mundo da África do Sul, Cid criou a campanha #CalaBocaGalvao. A ideia começou como uma brincadeira com os comentários do narrador Galvão Bueno, mas ganhou uma dimensão internacional.
A equipe produziu um vídeo em inglês, com narração em tom institucional, apresentando uma suposta campanha para salvar uma espécie fictícia de pássaro chamada Galvão. Segundo a história, cada publicação com a hashtag ajudaria a arrecadar 25 centavos para proteger a ave no Brasil.
O material misturava imagens do Rio de Janeiro, referências ao carnaval e uma narrativa ambiental convincente para quem não conhecia a origem da expressão. A estratégia era incentivar estrangeiros a compartilhar a hashtag sem explicar a piada. O resultado foi uma campanha que permaneceu 14 dias consecutivos no primeiro lugar dos Trending Topics mundiais do Twitter e ganhou repercussão no The New York Times.
Cid contou que a brincadeira chegou a aparecer em faixas nos estádios e obrigou a própria Globo a lidar com o assunto durante as transmissões. Anos depois, quando encontrou Galvão Bueno em um programa de televisão, o narrador não acreditou que ele fosse o responsável pela campanha.
“Quando cortou a câmera e foi para o intervalo, o Galvão olhou para mim e falou: ‘Mas não é você, né?’. Eu fiquei com medo de ele me agredir e falei: ‘Isso, isso mesmo’.”
Outra mobilização que começou como brincadeira acabou mudando a trajetória de um jogador. Em 2015, Cid e outros criadores ajudaram a organizar uma campanha para que Wendel Lira, atleta de um clube pequeno do futebol goiano, ganhasse o Prêmio Puskás da FIFA.
O gol de voleio do brasileiro havia entrado na seleção dos cem mais bonitos da temporada. Naquele ano, a entidade permitiu pela primeira vez uma votação popular pela internet. Cid percebeu a oportunidade e convocou a comunidade para votar.
Wendel avançou pelas etapas da premiação até disputar o resultado com nomes como Lionel Messi. A mobilização deu certo: o brasileiro venceu o prêmio de gol mais bonito do ano e viajou à Suíça para receber o troféu.
A equipe do Não Salvo chegou a organizar uma vaquinha para comprar roupas para o jogador e sua esposa, que não tinham condições de arcar com os custos da viagem. Cid lembrou que Wendel ficou tão emocionado com a experiência que, depois da cerimônia, contou que havia conhecido Kaká, um de seus grandes ídolos.
A história ainda teve um desdobramento inesperado. Durante a viagem, Wendel participou de uma partida de videogame e venceu por 6 a 1 um adversário que depois descobriu ser campeão mundial de FIFA. Ao voltar ao Brasil, decidiu encerrar a carreira no futebol de campo e se dedicar profissionalmente aos jogos eletrônicos. Mais tarde, também se tornou comentarista esportivo.
“Às vezes uma coisa mínima que você faz, um movimento, as pessoas votando em alguma coisa, muda a vida de um cara para sempre.”
A campanha para levar Anitta ao Acre também entrou no repertório. Na época, a produção da cantora havia anunciado que o estado com a hashtag mais popular receberia o primeiro show de uma turnê. O Rio de Janeiro liderava a votação com ampla vantagem, até Cid convocar a comunidade para impulsionar a hashtag #BangAcre.
Em menos de duas horas, o estado ultrapassou o Rio e terminou com o dobro dos votos. A produção, porém, não cumpriu a promessa e realizou o show na capital fluminense. Cid comparou o episódio a uma campanha semelhante nos Estados Unidos, quando o rapper Pitbull cumpriu o compromisso de se apresentar no Alasca após o estado vencer uma votação.
Entre todas as histórias, uma das mais elaboradas aconteceu durante a Copa do Mundo de 2014. Cid e sua equipe criaram um canal no YouTube dedicado a notícias da Coreia do Norte. Durante seis meses, publicaram vídeos curtos com títulos e legendas em coreano, simulando um veículo especializado em informações sobre o país.
A preparação foi importante para dar credibilidade à história que viria depois. Quando começou o Mundial, o canal publicou um vídeo com uma apresentadora de telejornal anunciando que a Coreia do Norte participava da competição e vencia adversários como Japão e Estados Unidos. A produção utilizou imagens editadas e uma locutora sul-coreana para reproduzir o formato de um noticiário norte-coreano.
Como o canal já reunia meses de publicações, quem procurasse verificar sua origem encontrava um histórico aparentemente consistente. A equipe então mobilizou perfis conhecidos para espalhar o vídeo. Em menos de 24 horas, o conteúdo alcançou 8 milhões de visualizações e começou a circular fora da bolha do Não Salvo.
Veículos como The New York Times, BBC, Al Jazeera e Deutsche Welle repercutiram a história como se fosse verdadeira. Cid contou que a brincadeira também gerou quase cem acessos provenientes de endereços de IP da própria Coreia do Norte, um número incomum diante das restrições de acesso à internet no país.
Três dias depois, ele publicou um vídeo explicando como a farsa havia sido construída. A repercussão também levou a uma mensagem de uma representação diplomática norte-coreana, que questionava a notícia e criticava a imprensa ocidental.
Ao comentar o episódio, Cid fez uma distinção entre as brincadeiras daquela época e o cenário atual de desinformação. Para ele, a motivação era provocar humor e surpresa, sem o objetivo político ou comercial que pode orientar campanhas de notícias falsas hoje.
“Hoje a fake news tem CNPJ. É outra coisa. Ela tem um porquê, tem um caminho. Naquela época, era um momento de o brasileiro querer se divertir na internet.”
A mudança no funcionamento da própria internet também influenciou suas decisões profissionais. Em 2019, depois de atingir 1 bilhão de visitas, Cid encerrou o Não Salvo. Ele percebeu que o público já não procurava sites diretamente com a mesma frequência. As plataformas passaram a concentrar a distribuição de conteúdo, fazendo com que as pessoas consumissem tudo dentro das redes sociais.
O encerramento do blog não significou uma saída da criação de conteúdo. Depois de lançar o podcast Não Ouvo, Cid encontrou outro caminho durante uma viagem ao Japão, em 2017. No metrô, observou um homem transmitindo ao vivo enquanto caminhava pela cidade, acompanhado por uma audiência que interagia em tempo real.
A experiência despertou seu interesse pelas transmissões IRL, sigla para In Real Life. Cid adaptou os equipamentos e começou a fazer lives na rua, inicialmente no Brasil e depois em viagens internacionais. Desde então, passou por quase 50 países, mostrando cidades, museus, experiências culturais e situações cotidianas para quem acompanha suas transmissões na Twitch.
A audiência é menor do que a que acompanhava o Não Salvo, mas a relação com o público ganhou outra dinâmica. Em vez de produzir conteúdos para milhões de pessoas, ele passou a compartilhar experiências ao vivo com uma comunidade que participa da viagem.
Essa relação também se conecta à principal mensagem que deixou para quem trabalha com comunicação, criação e negócios. Para Cid, o valor de uma presença digital não está apenas no número de seguidores ou no alcance de uma publicação. O que permanece é a relação construída entre as pessoas.
“A única coisa que importa na internet é comunidade. Você que tem uma empresa, você que tem uma marca, precisa entender as pessoas que gostam do seu produto e criar um clubinho privado daquilo.”
Depois de 25 anos na internet, Cid continua apostando na curiosidade e em formatos que ainda não estão completamente definidos. Ele acredita que muitas pessoas estão se preparando para profissões que talvez nem tenham nome hoje, diante da velocidade das mudanças tecnológicas e da inteligência artificial.
Sua trajetória começou com um blog que ninguém imaginava transformar em profissão. Passou por campanhas que mobilizaram comunidades em diferentes países e chegou às transmissões ao vivo, em que o público participa da experiência em tempo real. Em todos esses momentos, a capacidade de reunir pessoas em torno de uma ideia continuou sendo o fio condutor.
Feira CHAI

Foto: Unlock Films
Enquanto rolavam as palestras e painéis, o público também teve a oportunidade de apoiar empreendedores na Feira CHAI.