Clique aqui e confira também nosso tema da semana

Como será Santos daqui a 20 anos?

Estamos construindo uma cidade futurista para todos ou apenas modernizando a "vitrine" para a classe média e turistas?

Tempo de leitura: 6 minutos

A nossa aniversariante da semana não é qualquer uma. Santos chega aos 480 anos em 2026 vivendo, talvez, o momento de transformação mais intenso de sua história recente.

Se você olhou para o horizonte da orla ou passou pela Zona Noroeste ultimamente, deve ter percebido: a cidade virou um canteiro de obras. E não é impressão. De acordo com dados da Prefeitura, há hoje 68 grandes empreendimentos públicos e privados acontecendo no território.

Estamos falando de uma injeção de R$ 18,49 bilhões na economia local. É dinheiro suficiente para mudar a cara de Santos nos próximos 20 anos. Mas, afinal, que cidade está nascendo desse investimento todo?

Foto: Alexandre Andreazzi

O Túnel Santos-Guarujá lidera as transformações

No topo da lista de desejos dessa transformação está o Túnel Santos-Guarujá, projeto de R$ 6,8 bilhões que vai deixar a travessia — que hoje depende do humor da maré e das balsas — muito mais rápida e fácil. Já pensou fazer esse caminho em apenas 5 minutos? 

Outra mudança que mexe com o coração (e o turismo) é a ida do terminal de cruzeiros para o Valongo (R$ 1,2 bilhão), integrando os transatlânticos ao nosso Centro Histórico revitalizado. 

Nova Vila Belmiro e modernização viária

Para os apaixonados por futebol, a nova Vila Belmiro surge como uma arena multiúso de R$ 700 milhões, dobrando a capacidade para 30 mil pessoas. Assim, o estádio se tornará referência não apenas para jogos, mas para eventos diversos.

Já a infraestrutura viária também recebe atenção especial, com mais de R$ 200 milhões destinados ao recapeamento e modernização das avenidas da orla, Ana Costa e Canal 2.

Desafios climáticos ameaçam o futuro de Santos

Enquanto o concreto avança, a água pressiona. Por isso, o município está investindo quase R$ 500 milhões em cinco novas estações elevatórias (bombas) para drenar bairros críticos como a Zona Noroeste e a entrada da cidade. Essa é uma resposta necessária — porém tardia — para as enchentes históricas.

Infelizmente, quando analisamos de perto, vemos que isso pode não ser suficiente. Estudos climáticos recentes indicam que o nível do mar na região pode subir entre 18 e 30 cm até 2050. Em um cenário de ressacas cada vez mais agressivas — como as vistas em agosto de 2025 — apenas bombear a água da chuva pode se tornar uma medida paliativa de “enxugar gelo”.

Santos é referência em monitoramento (com o projeto da Geodésia na Ponta da Praia). Entretanto, o risco de alagamentos permanentes em áreas costeiras exige soluções de adaptação muito mais radicais do que as previstas no atual pacote de obras. E todas essas mudanças tomam mais urgência ao considerarmos os 480 anos de Santos.

Desigualdade social nos investimentos

Quando olhamos para a distribuição desse bolo de R$ 18 bilhões, a discrepância social salta aos olhos. Enquanto bilhões vão para túneis e turismo, os projetos de habitação somam “apenas” pouco mais de R$ 300 milhões.

Embora existam obras importantes em andamento, como as 574 moradias na Zona Noroeste iniciadas no final de 2025, o déficit habitacional da cidade ainda é uma ferida aberta. Dessa forma, milhares de famílias continuam vivendo em palafitas no Dique da Vila Gilda, vulneráveis à maré que sobe.

Estamos construindo uma cidade futurista para todos ou apenas modernizando a “vitrine” para a classe média e turistas?

O paradoxo de gênero em Santos

Há, ainda, o paradoxo de gênero. O dado mais alarmante sobre o futuro de Santos talvez não esteja nos números superlativos de obras, mas na política. Santos se orgulha de ser a cidade com maior percentual de mulheres no Brasil (54,6% da população). No entanto, quem está decidindo o destino desses bilhões não reflete essa demografia.

Nas eleições de 2024, a cidade elegeu apenas duas mulheres (Débora Camilo e Renata Bravo) para as 21 cadeiras da Câmara Municipal. Mesmo com eventuais suplentes assumindo em 2025, a sub-representação é gritante.

Isso impacta diretamente as prioridades urbanas: uma cidade desenhada majoritariamente por homens tende a focar mais em concreto e grandes obras viárias do que em políticas de cuidado, creches, saúde da mulher e segurança pública pensada para elas. Portanto, a Santos dos quase 500 anos corre o risco de ser uma metrópole moderna construída sobre ideias velhas de poder.

Avanços sociais previstos

Para não dizer que só falamos de concreto, há avanços sociais previstos. A saúde ganha o reforço do Hospital Pediátrico na Areia Branca e do Hospital Veterinário público na Zona Noroeste.

Também no mesmo bairro, vão surgir a nova ETEC/FATEC (R$ 40 milhões) e unidades escolares modernas no Gonzaga e São Manoel. Igualmente importantes, esses investimentos vitais precisam dialogar com a realidade climática e social para transformar realidades de fato.

O que esperar dos próximos anos?

2046 parece longe, né? Mas tá logo ali. Uma coisa é certa: dinheiro não falta. Com R$ 18,49 bilhões em investimentos confirmados, Santos caminha para uma transformação sem precedentes na sua história recente. No entanto, a pergunta que fica é: a distribuição desses recursos está correta? Afinal, todas essas decisões influenciam diretamente os 480 anos de Santos.

Os próximos anos dirão se a cidade conseguirá equilibrar o desenvolvimento urbano com justiça social. Será que veremos uma Santos moderna para todos ou apenas uma cidade dividida entre vitrines reluzentes e problemas históricos não resolvidos?

O desafio está lançado. Afinal, não basta construir túneis e arenas se diversas pessoas ainda vivem em palafitas. Não adianta atrair transatlânticos se a população feminina majoritária segue sub-representada nas decisões. E não há sentido em recapear avenidas se o mar continuará avançando sobre a cidade.

Os próximos anos mostrarão se Santos soube usar seus 18 bilhões com sabedoria ou se apenas trocou problemas de lugar. A cidade merece mais do que obras grandiosas — merece uma transformação que inclua todos os seus habitantes. 

Vitor Fagundes
Texto por

Contato