Como o acordo Mercosul – União Europeia vai impactar o porto de Santos
A Autoridade Portuária (APS) fala em potencial para "dobrar" a movimentação. Mas será que a cidade está pronta?
Esperado há décadas, o acordo Mercosul – UE foi uma das principais manchetes dos noticiários neste início de ano. E aí a primeira tentação é pensar: pronto, agora é só o Porto de Santos ligar o turbo.
Esse que é um dos maiores acordos de livre comércio do mundo envolve os 27 países da União Europeia e um mercado de 718 milhões de pessoas, com PIB somado de US$ 22,4 trilhões.

A própria Autoridade Portuária de Santos (APS) falou que a aprovação do acordo pode aumentar a movimentação no porto e chegou a avaliar que esse crescimento pode “dobrar”, lembrando que o porto vinha crescendo, em média, 5% ao ano em volume movimentado.
Só que, aqui, a pergunta não é “vai aumentar?”, e sim: aumentar para quem, em quanto tempo, e quem vai pagar a conta.
Há 26 anos em andamento
Na prática, um acordo desse tipo tende a mexer nos dois lados do cais: mais exportação (agro e indústria vendendo mais) e mais importação (produtos europeus entrando com tarifa menor ou zerada ao longo do tempo).
Para o Porto de Santos isso geralmente significa mais demanda por janelas de atracação, mais contêiner, mais granéis, mais necessidade de pátio, gate, retroárea e acesso rodoviário/ferroviário que não vire um “feriadão de caminhões” em dia útil.
E quais cargas poderiam crescer e passar por aqui? A lista inclui:
- carnes com cotas preferenciais e redução de tarifas
- frutas frescas (como abacate, melão e uva) com eliminação tarifária gradual
- café verde e solúvel com redução de tarifa
- etanol e açúcar com cotas preferenciais
- itens como suco de laranja, peixes/crustáceos e óleos vegetais com eliminação de tarifas.
- máquinas e veículos,
- setor aeronáutico (com menções à Embraer como potencial beneficiada nas exportações).
Ou seja: se crescer a exportação desses itens, cresce a importância do maior “portão” do Brasil – e esse portão, a gente sabe o nome e o CEP.
Só que tem um porém grande: uma parte do ganho pode ficar limitada por cotas e por barreiras não tarifárias (aquelas exigências técnicas e sanitárias que, às vezes, funcionam como “tarifa disfarçada”).
Isso importa para Santos porque promessa de “dobrar” movimento vira frustração se o comércio cresce menos do que o esperado, mas os investimentos e impactos urbanos já foram contratados (mais carretas, mais pressão por obras, mais conflito porto-cidade).
Componente ambiental
Análises recentes sobre o acordo destacam que o acesso ao mercado europeu fica condicionado a compromissos ambientais, com previsão de mecanismos que podem até suspender o pacto comercial em caso de violação do Acordo de Paris.
Do lado do governo brasileiro, a comunicação oficial reforça que o texto está alinhado à agenda ambiental e prevê instrumentos como exigência de informações sobre desmatamento e cumprimento de legislação ambiental por exportadores.
Traduzindo isso para o Porto: se o exportador não conseguir provar rastreabilidade, conformidade ambiental e padrões exigidos, a carga simplesmente perde competitividade ou nem entra, e o “efeito acordo” no cais diminui. Por outro lado, se o Brasil e as cadeias produtivas se adaptarem, Santos pode ganhar mais previsibilidade, contratos de longo prazo e fluxo mais estável com a Europa — o que é ouro para planejamento portuário e para terminais que vivem de escala.
Vem aí
E aí entra a parte local: o Porto de Santos diz estar se preparando para essa demanda com aprofundamento do canal de navegação, melhorias de acesso às duas margens e projetos como o Túnel Santos–Guarujá, além de destravar projetos como o Tecon Santos 10, ampliação da poligonal e implantação de condomínios logísticos para caminhões.
Há também reportagens apontando o túnel como grande investimento (R$ 6,8 bilhões) e com cronogramas que colocam 2026 como ano de preparação de canteiro e 2027 como início efetivo de obras, mirando conclusão por volta de 2030. Isso é crucial porque, se o acordo acelera a demanda antes de a infraestrutura ficar pronta, a cidade sente primeiro: fila de caminhão, mais tempo de deslocamento, mais barulho e mais irritação coletiva.
No curto prazo, as vantagens para Santos são bem diretas: mais movimentação tende a significar mais empregos diretos e indiretos na cadeia portuária (operadores, transporte, armazenagem, manutenção, serviços) e mais atividade econômica regional girando em torno do porto.
Como a cidade sofre as consequências do avanço
O governo federal, inclusive, tem usado números de 2025 para dizer que a infraestrutura portuária virou uma “alavanca de competitividade”, lembrando que a corrente de comércio do Brasil chegou a US$ 629 bilhões em 2025 e que os portos movimentam mais de 95% das trocas comerciais do país com o mundo. O mesmo material aponta crescimento portuário em volume, com projeção de 1,34 bilhão de toneladas movimentadas em 2025, e cita o Porto de Santos como destaque entre portos públicos, com alta de movimentação no período entre janeiro e outubro (119,4 milhões de toneladas).
Agora, as desvantagens – e aqui a cidade precisa ser sincera – são o pacote “porto bombando, cidade pagando pedágio”. Se a movimentação cresce, cresce também o fluxo de caminhões e a pressão sobre acessos, o que pode piorar congestionamentos e desgaste viário se obras e gestão não acompanharem.
Poluentes, ruído e logística 24/7
Há, ainda, os impactos ambientais e de saúde urbana que, sem contrapartidas e monitoramento, viram custo invisível para moradores — especialmente nos bairros mais próximos dos corredores logísticos. E existe o risco de “enxergar só o PIB e esquecer o CPF”: a riqueza gerada pode se concentrar em poucos atores (terminais, grandes tradings e cadeias já estruturadas), enquanto o pequeno negócio local sente mais a pressão imobiliária e menos o benefício direto.
No fim, o acordo pode ser uma boa notícia para o Porto de Santos, mas não é um cheque em branco para a cidade. Para Santos ganhar de verdade, a discussão não pode ficar só no “vai dobrar” e no orgulho portuário: tem que virar plano concreto de porto-cidade, com obras, mitigação de impactos, fiscalização e estratégia para capturar valor local (emprego, serviços, inovação e qualificação).