Clique aqui e confira também nosso tema da semana

Caso de santista detido na Islândia expõe debate global sobre caça às baleias

Vitor Young está no centro de uma discussão que envolve diplomacia e conservação marinha

Tempo de leitura: 11 minutos

Existem batalhas que acontecem longe demais para parecerem nossas. No Atlântico Norte, onde o frio corta e o horizonte parece não ter fim, uma delas mistura arpões, navios, diplomacia e um debate que atravessa fronteiras há décadas.

Enquanto boa parte dos brasileiros sequer imagina que a Islândia ainda permite a caça comercial de baleias, um santista decidiu participar de uma missão internacional que buscava impedir a continuidade da caça comercial de baleias-fin.

www.juicysantos.com.br - Detenção de santista na Islândia expõe debate global sobre caça às baleias Crédito: Diego Baravelli / CPWF

Vitor Fontes Young embarcou no Bandero, navio da Captain Paul Watson Foundation, para integrar a Operation 86, campanha internacional que reúne ativistas de 11 países em uma missão de monitoramento e ação direta não violenta contra a caça comercial de baleias-fin.

Porém, dias depois, a embarcação foi abordada por autoridades islandesas e conduzida ao porto de Reykjavík. Quatro brasileiros permanecem retidos enquanto aguardam os desdobramentos do caso, que passou a mobilizar organizações ambientais, autoridades diplomáticas e reacendeu uma discussão: afinal, por que ainda se caça baleias em 2026?

Um navio, quatro brasileiros e um impasse internacional

As manchetes dos últimos dias concentraram atenção na detenção dos quatro brasileiros que estavam a bordo do Bandero. Entre eles está Vitor Fontes Young, de Santos. Também integram a tripulação Lucas Barbosa, de Craíbas (AL), Victor Calixto, de Ilhabela (SP), e Rui Amorim, de Ribeirão Pires (SP).

www.juicysantos.com.br - Detenção de santista na Islândia expõe debate global sobre caça às baleias Lucas Barbosa, Rui Amorim e Victor Calixto – Crédito: Diego Baravelli / CPWF

Segundo o governo da Islândia, parte da tripulação não possuía autorização para ingressar no país. Já a Captain Paul Watson Foundation contesta a legalidade da abordagem, argumentando que a embarcação navegava além do limite territorial islandês quando foi interceptada. A organização também afirma que a defesa dos tripulantes investiga possíveis irregularidades durante toda a operação.

O caso, portanto, segue em apuração e envolve versões diferentes sobre a atuação das autoridades locais. Enquanto isso, o Ministério das Relações Exteriores informou acompanhar a situação por meio da Embaixada do Brasil em Oslo, responsável também pela assistência consular na Islândia.

Entretanto, reduzir essa história a uma disputa jurídica seria ignorar a razão pela qual aquelas pessoas atravessaram o oceano.

Nenhum dos tripulantes embarcou em uma viagem turística. Tampouco participava de uma expedição científica convencional. A missão tinha um objetivo específico: tentar impedir que uma temporada de caça comercial de baleias continuasse normalmente.

É justamente aí que a história começa a ganhar outra dimensão.

Antes do Bandero zarpar

O navio integra a Operation 86, campanha internacional criada pela Captain Paul Watson Foundation. O nome faz referência a 1986, ano em que entrou em vigor a moratória da Comissão Baleeira Internacional (IWC), que proibiu a caça comercial de baleias na maior parte do planeta.

Na prática, porém, essa moratória nunca significou o fim definitivo da atividade.

Quase quarenta anos depois, três países continuam permitindo a caça comercial: Islândia, Noruega e Japão. Embora cada um utilize justificativas jurídicas diferentes, todos permanecem autorizando capturas em determinadas condições.

Foi justamente para acompanhar essa temporada de caça na Islândia que os ativistas embarcaram no Bandero.

www.juicysantos.com.br - Detenção de santista na Islândia expõe debate global sobre caça às baleias Bandero em Ilhabela 2026 – Crédito: Diego Baravelli / CPWF

Segundo a Captain Paul Watson Foundation, a missão combinava monitoramento marítimo, documentação das operações e ações diretas não violentas para dificultar a continuidade das caçadas. Ao mesmo tempo, outra equipe acompanhava as atividades em terra, reunindo informações que posteriormente seriam encaminhadas às autoridades islandesas responsáveis pela fiscalização da atividade.

De acordo com a Sea Shepherd Brasil, o objetivo não era apenas proteger uma espécie ameaçada.

“Além da proteção de uma espécie ameaçada, a campanha ressalta a importância das baleias para os ecossistemas marinhos esses animais desempenham um papel ecológico fundamental na manutenção da biodiversidade e no enfrentamento das mudanças climáticas, razão pela qual a proteção das baleias é tratada pelas organizações como uma questão de interesse ambiental global”

O dia em que tudo mudou

A missão ganhou um novo rumo quando o Bandero localizou o Hvalur 9, um dos navios autorizados a realizar a caça comercial de baleias-fin na Islândia.

Uma embarcação auxiliar foi lançada para interceptar a atividade. Ainda conforme a organização, a estratégia fez com que o baleeiro deixasse a área de caça e retornasse ao porto sem capturar baleias naquele dia. Para os ativistas, tratou-se de uma vitória da estratégia de ação direta não violenta.

Na sequência, entretanto, começou outra operação.

A Guarda Costeira islandesa mobilizou helicópteros, drones, embarcações menores e o navio-patrulha Freyja. Agentes assumiram o controle do Bandero e conduziram a embarcação até Reykjavík. Desde então, os desdobramentos passaram a ocorrer também no campo diplomático.

A Sea Shepherd Brasil informa que os tripulantes permaneceram incomunicáveis durante aproximadamente 24 horas. Depois desse período, conseguiram estabelecer contatos esporádicos com familiares utilizando computadores. Os celulares, contudo, continuam sob posse das autoridades islandesas. Além disso, as organizações afirmam que a defesa apura possíveis irregularidades durante o procedimento adotado após a abordagem.

Uma prática que o mundo nunca conseguiu encerrar

Durante boa parte do século XX, a caça às baleias deixou de ser apenas uma atividade econômica. Ela se transformou em uma indústria global.

Historicamente, milhões de baleias foram abatidas. para abastecer mercados de óleo, carne, gordura e outros derivados utilizados em diversos produtos. Algumas espécies chegaram muito perto do colapso populacional.

A pressão internacional cresceu até que, em 1986, entrou em vigor a moratória da Comissão Baleeira Internacional. O acordo representou uma mudança histórica na forma como o mundo passou a enxergar esses animais.

Ainda assim, o consenso nunca foi absoluto.

As gigantes que ajudam a manter o planeta vivo

Durante muito tempo, as baleias foram vistas apenas como animais impressionantes pelo tamanho. Hoje, a ciência mostra que elas fazem muito mais do que despertar admiração. Elas ajudam a regular ecossistemas inteiros, influenciam o ciclo do carbono e desempenham um papel importante no equilíbrio climático do planeta.

É por isso que organizações ambientais defendem que proteger uma baleia não significa preservar apenas uma espécie. Significa cuidar de um sistema natural do qual a própria humanidade depende.

Para quem vive em Santos, essa conexão pode parecer distante. Mas basta lembrar que a cidade existe voltada para o mar. O Porto movimenta economias globais, enquanto a pesca, o turismo, a pesquisa científica e até a qualidade das praias dependem de oceanos saudáveis.

E tem lado certo?

Durante décadas, o principal argumento para manter a caça comercial era econômico. Hoje, esse cenário começa a mudar.

Na própria Islândia, o turismo de observação de baleias movimenta mais recursos do que a atividade baleeira, segundo organizações ambientais. Ao mesmo tempo, o consumo de carne de baleia diminui ano após ano.

De acordo com a Captain Paul Watson Foundation, boa parte da produção islandesa é destinada à exportação para o Japão, enquanto parte do consumo interno ocorre principalmente entre turistas interessados em experimentar um alimento considerado exótico. Além disso, o novo governo islandês já manifestou a intenção de discutir uma proposta para encerrar definitivamente a caça comercial no país.

Ou seja, mesmo dentro da Islândia, o tema deixou de ser consenso.

A discussão já não envolve apenas tradição ou cultura. Ela passa também por economia, turismo, conservação ambiental e imagem internacional.

Os números falam mais alto

Há outro aspecto que ajuda a explicar por que o tema voltou ao centro do debate. Ele diz respeito ao sofrimento dos próprios animais.

Dados oficiais da Autoridade Islandesa de Alimentação e Medicina Veterinária (MAST), citados pela Captain Paul Watson Foundation, mostram que apenas 59% das baleias monitoradas durante a temporada de 2022 morreram imediatamente após o primeiro disparo.

Outras 24% precisaram ser atingidas mais de uma vez. Em dois casos, os animais receberam quatro arpões explosivos antes de morrer.

Uma baleia levou quase duas horas para morrer.

www.juicysantos.com.br - Detenção de santista na Islândia expõe debate global sobre caça às baleias
Segundo a fundação, em julho deste ano a própria autoridade veterinária islandesa confirmou outro caso em que uma baleia-fin permaneceu viva por aproximadamente 31 minutos após ser atingida por quatro arpões explosivos.

Os dados reforçam um debate que ultrapassa a legalidade da atividade.

Mesmo entre países que ainda permitem a caça comercial, cresce a discussão sobre bem-estar animal, métodos utilizados e fiscalização das operações.

Enquanto isso, a diplomacia entra em cena

Segundo a Sea Shepherd Brasil e a Captain Paul Watson Foundation, foi protocolado um pedido formal de atuação urgente junto ao presidente da República, ao Ministério das Relações Exteriores, ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania e à representação diplomática brasileira responsável pela assistência consular na Islândia.

O objetivo, segundo as organizações, é garantir que os quatro brasileiros tenham acompanhamento consular, proteção jurídica e que todos os procedimentos respeitem o devido processo legal e os direitos fundamentais dos cidadãos brasileiros.

Em nota divulgada anteriormente à imprensa, o Ministério das Relações Exteriores informou que acompanha o caso por meio da Embaixada do Brasil em Oslo, responsável também pela assistência consular na Islândia, e mantém contato com as autoridades islandesas para prestar a assistência cabível aos brasileiros.

Ao mesmo tempo, a defesa da tripulação segue acompanhando os procedimentos adotados pelas autoridades locais.

Até a publicação desta reportagem, o caso continua em andamento.

O apoio que ultrapassa as redes sociais

Em momentos como esse, é comum que campanhas nas redes sociais se multipliquem.

Entretanto, para a Sea Shepherd Brasil, o principal objetivo não é apenas ampliar a visibilidade da situação dos tripulantes.

A organização defende que a mobilização pública também contribua para fortalecer o debate sobre a conservação dos oceanos e pressionar por respostas das autoridades brasileiras quanto ao acompanhamento diplomático do caso.

Em resposta ao Juicy Santos, a entidade afirma que compartilhar informações, envolver representantes públicos, veículos de imprensa, organizações e influenciadores ajuda a ampliar a discussão sobre a caça comercial de baleias e sobre a necessidade de proteger a biodiversidade.

“Precisamos que todos ajam juntos neste momento, posicionando-nos pela proteção da biodiversidade. Nós, seres humanos, somos parte desta biodiversidade. Somos parte de um grande ecossistema interdependente e complexo, fruto de milhões de anos de evolução, e que mantém o planeta em equilíbrio; a ação humana está destruindo esse equilíbrio a passos largos. Precisamos lutar juntos, sendo resistência às ameaças crescentes e contínuas ao nosso planeta”.

Além de uma campanha em favor da tripulação, a proposta é ampliar uma conversa que costuma aparecer apenas quando episódios como este chegam aos noticiários.

Porque, depois que as manchetes desaparecem, os navios continuam navegando. As temporadas de caça continuam acontecendo. E as baleias continuam sendo abatidas.

Uma história que ainda está sendo escrita

Os próximos capítulos dependerão das investigações conduzidas pelas autoridades islandesas, da atuação da defesa dos tripulantes e do acompanhamento diplomático do governo brasileiro.

Porém, independentemente das discussões jurídicas que agora cercam o caso, a história também serve para lembrar que a defesa dos oceanos deixou de ser um assunto restrito a cientistas ou ambientalistas.

Ela diz respeito à qualidade da água, ao clima, à pesca, ao turismo, à biodiversidade e, em última análise, à forma como escolhemos conviver com o planeta.

Talvez seja por isso que uma frase atribuída ao conservacionista Paul Watson continue ecoando entre quem dedica a vida ao mar.

“Se o oceano morre, nós morremos.”

Compartilhar
Vitor Fagundes
Texto por

Contato