Em Praia Grande, Bill e Tobias encontraram uma nova rotina no mar
Resgatados das ruas, dois cachorros passaram a acompanhar surfistas no bairro Maracanã e até dividem a prancha com eles
Quem tem pet sabe que pegar a guia ou abrir o portão automaticamente já é um convite para passeio.
Mas, na história do Bill e Tobias, existe ainda uma terceira opção: surfar!
Os dois cães que viviam pelas ruas do bairro Maracanã, em Praia Grande, acabaram criando uma rotina pouco convencional. Eles acompanham os moradores até o mar, brincam na areia, entram na água e sobem na prancha para pegar uma onda.

Foto: Victor Gomes
A história ganhou as redes sociais depois de registros feitos pelo videomaker Victor Gomes, que passou a acompanhar os dois durante esses momentos.
Mas, antes das ondas, infelizmente houve abandono, vizinhança e uma boa dose de acaso.
Bill chegou primeiro e Tobias apareceu depois
Bill foi adotado em 2022 por Fabiano Silva, morador do bairro Maracanã. O cachorro havia sido abandonado por uma moradora que deixou a região. Depois disso, ele passou a fazer parte da rotina de Fabiano.
Tobias apareceu algum tempo depois, ele vivia pelas ruas e recebia comida e água dos moradores. Quando chovia, também encontrava abrigo na garagem de um vizinho.
Aos poucos, ele passou a acompanhar Fabiano e Bill nos passeios até a praia. A amizade chamou atenção porque Bill não costumava aceitar outros cachorros. Com Tobias, porém, a história foi diferente.
Hoje, os dois circulam entre a garagem e a praia. Aqui se o portão fica aberto, Tobias aproveita para fazer o famoso bate-volta: toma água, descansa alguns minutos e retorna para a praia.
Ele praticamente montou o próprio expediente.
E foi aí que apareceu o surf
Victor Gomes é videomaker e trabalha com produção de conteúdo para empresas, eventos, casamentos e outros projetos. Ele também mantém uma relação antiga com Praia Grande e costuma passar parte da rotina no litoral.
Victor já tinha visto histórias de cachorros surfistas pela internet. Inclusive, conhecia a existência de campeonatos dedicados à modalidade.
Só nunca tinha encontrado um cachorro que realmente gostasse de entrar no mar.
Até conhecer Bill.
Segundo ele, Bill já brincava com Fabiano e começava a acompanhar as pequenas ondas.
“Eu falei: ‘Pô, será que eles pegam uma onda?’ A gente brinca”, contou Victor.
Bill foi experimentando. E Tobias estava olhando. Quando viu o outro cachorro entrando na brincadeira, decidiu fazer igual.
A partir daí, os dois passaram a dividir alguns momentos dentro d’água com os surfistas. E sim, eles parecem ter entendido a dinâmica.
Regra importante antes de pegar essa prancha
Aqui entra a parte que talvez faça o leitor se questionar.
Cachorro pode ir à praia em Praia Grande?
A resposta é não.
A circulação de cães e outros animais domésticos na faixa de areia não é permitida no município. A regra aparece em materiais oficiais da Prefeitura e continua sendo válida atualmente.
Ou seja, a história de Bill e Tobias não significa que a praia de Praia Grande tenha virado oficialmente um point pet friendly.
Na verdade, a situação deles é bastante específica e acontece dentro da rotina daquela comunidade.
A regra muda em outras cidades da Baixada Santista.
Em Santos, por exemplo, existe uma área delimitada da praia onde cães podem circular com seus tutores. O espaço fica entre o Posto 1 e o Emissário Submarino, com acesso permitido das 6h às 9h e das 16h às 19h. Há exigências como vacinação, guia e recolhimento das fezes.
Inclusive, já explicamos as regras de cada cidade no guia Pets na praia: conheça as regras do litoral.
Portanto, antes de colocar o cachorro no carro rumo à areia, vale conferir a legislação do município.
O surf acontece no tempo deles
Victor também faz questão de explicar que os cachorros não entram no mar simplesmente porque alguém decidiu que seria divertido filmá-los. O cuidado começa pela escolha do lugar.
“A gente sempre tenta brincar com eles no rasinho, para não ter muita correnteza”, explicou.
O grupo também evita entrar quando o mar está muito grande ou com correnteza forte. A preocupação faz sentido.
Mesmo que os cães saibam nadar, o mar não funciona como uma piscina. Correntes, ondas e mudanças nas condições da água podem colocar animais e pessoas em risco.
Por isso, Victor conta que a interação acontece sempre respeitando o comportamento dos dois. “É sempre no tempo deles.” A ideia também é evitar forçar uma atividade que deveria ser apenas uma brincadeira.
O que muda quando a prancha tem quatro patas?
Para quem surfa, esperar uma onda já faz parte do ritual. Agora, esperar sentado na prancha ao lado de um cachorro é outra história.
Victor descreve o momento como algo difícil de explicar para quem nunca viveu a situação.
“É gostoso demais ter esse momento ali esperando a onda junto com o cachorrinho”, diz.
Enquanto esperam, existe até conversa. Victor diz que costuma falar “calma” para Tobias, especialmente quando o cachorro resolve que um passarinho avistado no horizonte merece uma perseguição imediata.
Depois vem a onda. E também vem a queda. Segundo Victor, os momentos mais engraçados acontecem justamente depois, quando os cães saem correndo, pulam na prancha ou vão atrás dos surfistas.
“Ali é um momento deles de diversão”, afirmou.
Talvez essa seja justamente essa espontaneidade que tornou Bill e Tobias tão interessantes. Eles não parecem estar cumprindo uma programação de surf. Só descobriram que gostam de estar ali.
Bill e Tobias também lembram um problema bem menos divertido
A fofura dos dois não deveria esconder a parte mais difícil da história. Bill foi abandonado e Tobias vivia na rua.
E os dois só chegaram a essa rotina porque encontraram moradores dispostos a oferecer comida, água, abrigo e convivência.
Esse cenário ainda se repete em muitas cidades brasileiras.
O problema é que o país não tem, até hoje, um número consolidado de cães e gatos em situação de abandono. O próprio Ministério do Meio Ambiente reconhece essa falta de dados e criou o SinPatinhas para ampliar o registro dos animais e ajudar na formulação de políticas públicas.
O Governo Federal também criou o ProPatinhas, programa que reúne ações de castração, microchipagem, registro e prevenção do abandono.
A lógica é simples: quanto mais animais identificados e acompanhados, maior a possibilidade de evitar que desapareçam ou acabem nas ruas.
Além disso, abandonar ou maltratar cães e gatos pode configurar crime. A legislação federal estabelece pena de dois a cinco anos de reclusão, além de multa e proibição da guarda, para maus-tratos contra cães e gatos.
A rua não precisa ser o destino final
Bill teve uma pessoa que decidiu adotá-lo. Tobias encontrou uma rede de vizinhos.
Não existe fórmula mágica nessa história. Existe gente que resolveu não passar reto. Para quem encontra um animal abandonado, a orientação veterinária é procurar ajuda profissional e tomar cuidados no contato inicial, já que o animal pode estar doente ou assustado.
A história de Bill e Tobias começou com abandono. Mas ela não precisou terminar ali. No caso deles, a nova casa acabou sendo uma comunidade inteira. E, aparentemente, uma prancha também.
Os dois cachorros não ganharam apenas um lugar para dormir. Agora, têm uma rotina, companhia e pessoas que aprenderam a reconhecer quando eles querem entrar no mar.