Atlas Cidadão: santista cria ferramenta para pensar o voto em 2026
Teste te ajuda a decidir o voto com perguntas. Dá pra fazer a versão de 30 afirmações (dura 7 minutos) ou ir mais fundo, com 85
Chegou o primeiro turno das eleições 2026 e a conversa política surge em qualquer lugar: no ônibus, no trabalho ou no grupo da família. Entre uma opinião e outra sobre esse que é o pleito mais disputado (e mais arriscado, segundo alguns especialistas) desde a redemocratização do Brasil, nem sempre é fácil perceber como as próprias ideias se conectam. A polarização tomou conta do nosso cotidiano e fica até difícil racionalizar as propostas de quem disputa a Presidência.
Na reta final do primeiro turno, a parcela de indecisos varia conforme a pergunta: 2% no Datafolha divulgado em 1º de outubro e 5% na Quaest de 28 de setembro quando os nomes das candidaturas são apresentados. Sem a lista, os percentuais sobem para 13% e 31%, respectivamente.
E é isso que move o Atlas Cidadão, plataforma criada pelo santista Luiz Filipe Perez Patricio, de 26 anos.

O primeiro turno das eleições 2026 acontece neste domingo, 4 de outubro. Além da Presidência, estarão em disputa governos estaduais, Senado, Câmara dos Deputados e assembleias legislativas. O Atlas olha, por enquanto, apenas para as candidaturas presidenciais. Para quem mora na região, ele pode ser um ponto de partida, mas não um atalho que dispense a leitura de propostas nem a atenção a quem pretende representar a Baixada em Brasília e em São Paulo.
Uma ideia nascida em Santos
Patrício nasceu em Santos, hoje mora em São Paulo e conta que continua vindo à cidade com frequência. É designer de experiência do usuário (UX), formado em Design Digital e pós-graduado em Gestão de Projetos. Segundo ele, o Atlas Cidadão é um projeto pessoal, feito por vibe coding, lançado em 28 de setembro após algumas semanas de desenvolvimento.
A ideia começou com uma inquietação bem próxima a todo mundo que já tentou discutir política sem se perder nos rótulos.
“Eu percebia uma dificuldade que parecia simples, mas não era: muita gente tem opiniões sobre saúde, segurança, economia ou direitos, mas não sabe como essas ideias se relacionam entre si, nem como compará-las com o que as candidaturas propõem.”
Inspirado inicialmente pela visualização em mapa do Political Compass, o jovem quis criar uma experiência voltada ao Brasil.
O objetivo, conta, não era apenas situar alguém em um quadrante, mas explicar os assuntos, mostrar diferenças entre as respostas da própria pessoa e permitir a consulta às fontes usadas na comparação com candidaturas.
Como funciona o Atlas Cidadão
De acordo com Patrício, a versão essencial apresenta 30 afirmações divididas igualmente entre seis temas. Existe também uma opção mais longa, com 85 questões. Em cada afirmação, a pessoa escolhe uma entre cinco posições, da discordância total à concordância total. A posição central permite uma resposta intermediária.
O site estima cerca de 7 minutos para a versão curta, mas o desenvolvedor faz uma ressalva importante: isso não é uma medida cientificamente calculada.
E, antes que você faça uma objeção, não é preciso escolher uma identidade de esquerda ou de direita antes de começar.
O usuário responde a questões concretas e, depois, examina e analisa o próprio resultado.
Na comparação com as candidaturas à Presidência, o criador da plataforma diz usar uma fórmula com 70% de peso para a concordância nas perguntas, equilibrada entre os seis temas, e 30% para a proximidade no mapa político.
As posições das candidaturas são identificadas, segundo ele, em documentos e manifestações públicas, especialmente nos planos de governo apresentados à Justiça Eleitoral. Esses planos podem ser consultados no portal do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A descrição dos pesos e da aplicação da fórmula, porém, vem do desenvolvimento e não constitui uma auditoria independente do funcionamento da plataforma.
Há ainda uma escolha de design que interessa a qualquer pessoa cansada do “politiquês”: explicar os porquês com contexto sem esconder a complexidade.
O profissional conta que revisou perguntas e protótipos após ouvir pessoas que não entendiam uma afirmação, um eixo do mapa ou a origem de um percentual.
“Meu objetivo não é fingir que assuntos complexos são fáceis; é dar condições para uma pessoa começar a entendê-los e, se quiser, ir até a fonte.”
Segundo ele, uma seção chamada “Hoje no Brasil” foi acrescentada para separar a situação atual da mudança sobre a qual a pessoa está opinando. É uma diferença pequena na tela, mas importante na leitura: não dá para concordar ou discordar de uma proposta com clareza se não se sabe o que já existe.
O que um percentual deixa de dizer
Um resultado de proximidade no Atlas Cidadão pode despertar curiosidade, mas não vai te dizer em quem votar para presidente.
A escolha das perguntas, a interpretação de documentos e os pesos da fórmula influenciam a comparação. O próprio Patrício reconhece essa limitação: “Isso não torna o método ‘100% isento’.”
Ele afirma que usa a mesma regra para todas as candidaturas, informa quando faltam dados suficientes para uma comparação e permite conferir pontos de concordância, divergência e fontes.

Também diz que as respostas ficam no aparelho por padrão e que o Atlas não divulga um placar agregado de afinidade com candidaturas.
A cautela ficou ainda mais relevante depois da discussão pública sobre o TemMeuVoto, outra ferramenta de comparação eleitoral, voltada a candidaturas ao Legislativo.
Após questionamentos sobre resultados e representatividade, a coalizão responsável anunciou em 30 de setembro a suspensão da plataforma neste ciclo eleitoral. Em nota, afirmou que a adesão das candidaturas havia ficado abaixo do necessário para oferecer uma base suficientemente diversa. Os relatos de resultados estranhos, por si, não demonstravam manipulação; tampouco os métodos das duas iniciativas são iguais.
O caso deixa uma boa pergunta para levar a qualquer teste político: quem entrou na comparação, com base em quais informações e o que ficou de fora?
O TSE publica os planos de governo presidenciais, que ajudam a conferir propostas diretamente na fonte. E um questionário de afinidade individual não deve ser confundido com pesquisa de intenção de voto, já que as pesquisas eleitorais seguem regras próprias de registro e divulgação.
Da Presidência à Baixada Santista
Organizar as próprias prioridades é útil; descobrir o que uma candidatura pode fazer com elas é outra história.
O Atlas Cidadão compara posições presidenciais. Já o guia Voto é Voz, produzido pelo Juicy Santos, reuniu respostas de candidaturas ligadas à Baixada Santista para deputado estadual e federal, explicando também as atribuições desses cargos.
Na produção do guia, o Juicy Santos mapeou 84 candidaturas com vínculo público com a região; 18 responderam ao questionário no prazo, sendo dez para deputado estadual e oito para federal. Isso também pede leitura atenta: o material mostra o que foi respondido, não substitui a investigação do histórico de cada pessoa nem permite presumir a posição de quem não respondeu.
Para Patrício, as iniciativas se completam. Uma ajuda a perceber quais assuntos importam para a pessoa; a outra aproxima a conversa de emprego, moradia, mobilidade e desenvolvimento na região. E nenhuma delas vai substituir o pensamento crítico.
Ele conta que um dos retornos mais marcantes veio de um jovem de 16 anos, receoso de participar da política por causa de brigas familiares. Depois de usar o Atlas e buscar mais informações, o jovem teria recuperado a vontade de votar.
Para o futuro, Patrício pretende ampliar as funcionalidades do Atlas Cidadão para que ele dê subsídios para os brasileiros e brasileiras mesmo na entressafra eleitoral.
O Atlas Cidadão abre um debate antes do pilili da urna. Quais são as prioridades, onde estão as divergências e que fontes sustentam cada proposta?
O passo seguinte continua sendo de quem vota. Então, nestas eleições de 2026, olhe tanto para as escolhas nacionais quanto para as candidaturas que pedem a chance de falar pelo seu território.