As telas de Joeliton contam a história da Baixada Santista em cores
A trajetória de Joeliton Barros mostra como o litoral molda artistas — e por que valorizar quem cria aqui fortalece a nossa região
Santos sempre foi porto. De mercadorias, de pessoas, de histórias. Mas também é porto de artistas. Gente que chega, fica e transforma paisagem em linguagem. A trajetória de Joeliton Barros do Nascimento ajuda a contar essa história. Mas, acima de tudo, revela algo maior: o quanto a cidade inspira e, ao mesmo tempo, desafia quem decide viver de arte por aqui.
Foto: Arquivo Pessoal
Natural de Maceió, Joeliton mora no litoral paulista há 30 anos. Viveu uma década em Santos e hoje está em Praia Grande. Começou a desenhar aos sete anos. “Sou autodidata”, diz com simplicidade. Antes de assumir a pintura como caminho, foi letrista, lavador de carros e pedreiro.
A paisagem que forma repertório
Quando chegou a Santos, Joeliton não tinha um plano estético definido. No entanto, bastou caminhar pela Praça da Independência para entender que havia encontrado algo diferente.
“Quando cheguei aqui em Santos e vi os lugares lindos, me apaixonei. A arquitetura da praça foi a primeira imagem que me marcou. Depois vieram as montanhas, o mar e o desenho urbano. Eu vi as montanhas, os mares… achei lindo isso aí.”, relembra.
Ele não pinta apenas um ponto específico. Ele pinta o litoral como sentimento.
“Não é só a paisagem de Santos que eu tento representar, é o litoral em si.”
A decisão de manter a arte por aqui
Joeliton já abriu mão de uma venda internacional para manter no Brasil um quadro do píer e da estátua de Pelé, em São Vicente. A escolha foi consciente.
“Eu dei preferência para deixar no nosso país”, explica. Ele ainda consultou a cliente, que também era brasileira. “Ela também deu preferência para que ficasse aqui. O Pelé é o meu ídolo. Ele representa uma nação apaixonada pelo futebol. Fiquei feliz que o quadro ficou.”
Em uma cidade marcada por símbolos, a arte também se torna memória compartilhada.
A importância dos artistas locais para a cidade
Santos consome cultura o tempo todo. Vai ao teatro, frequenta exposições, compartilha imagens da orla. Entretanto, continua aprendendo a valorizar quem produz aqui.
Artistas locais movimentam a economia criativa. Geram renda, constroem identidade e fortalecem o sentimento de pertencimento. Além disso, oferecem uma leitura própria da cidade — algo que nenhum olhar de fora consegue reproduzir.
Joeliton, por exemplo, enxerga o litoral como potência.
“As pessoas falam muito de outros lugares, mas aqui também é lindo. Precisam valorizar mais o litoral paulista.” comenta.
Quando um pintor registra a orla ou uma praça, ele não cria apenas um quadro. Ele documenta uma época. E cidade sem memória perde força.
Segundo dados do IBGE, a economia criativa segue crescendo no Brasil, mesmo em cenários desafiadores. No entanto, para prosperar de verdade, depende do apoio local. Valorizar artistas da Baixada não é apenas apoiar um indivíduo. É investir na própria identidade da região.
A cidade inspira, mas também testa
Viver de arte em Santos (na Baixada na totalidade) não é simples. Há talento e há público. Contudo, também existe julgamento. Infelizmente ainda é comum ouvir que arte não é profissão “de verdade”. Essa visão ignora anos de dedicação e prática.
Foto: Arquivo Pessoal
Joeliton descreve seu processo com naturalidade.
“Às vezes faço pelo instinto. Se eu vejo uma paisagem bonita, eu mentalizo e começo a pintar.”
Parece espontâneo. Porém, carrega décadas de observação e exercício.
Por outro lado, é justamente essa tensão que forma artistas resilientes. Quem decide criar aqui aprende a insistir, a dialogar e a encontrar seu público.
A arte como espelho da cidade
Santos não é apenas cartão-postal. É rotina, muito trabalho e diversidade de origens. Joeliton, nordestino que escolheu o litoral paulista como casa, representa essa mistura.
Nós dependemos da arte mais do que imaginamos. Ela registra transformações urbanas, preserva memórias e cria novas narrativas. Quando um artista pinta o mar, ele não retrata só água. Ele fala sobre pertencimento.
Estamos olhando para os artistas da nossa cidade com a atenção que eles merecem? Porque uma cidade que inspira também precisa aprender a apoiar quem a transforma em arte.