Ansiedade climática: pensar no futuro do planeta te angustia?
A crise climática não afeta apenas o meio ambiente. Ela também está mudando a forma como muitas pessoas encaram o futuro.
Santos tem uma relação antiga com a água. Sabe quando ela sobe, quando recua, quando o vento muda de direção antes da chuva. Mas há um tipo de angústia que não vem da ressaca e não muitas vezes não passa quando o tempo melhora: a sensação crescente de que o planeta está saindo dos trilhos, e que nós fazemos parte disso.
Esse sentimento tem nome. Chama-se ansiedade climática, ou ecoansiedade, e já chegou ao consultório dos psicólogos, às conversas de família e, inevitavelmente, à cabeça de quem mora numa cidade litorânea assistindo as notícias dos últimos anos.
Quando a preocupação vira sintoma
A ecoansiedade foi descrita pela primeira vez em 2017 pela Associação Americana de Psicologia. O termo já foi incorporado pelo dicionário de Oxford e é definido como “medo crônico da catástrofe ambiental.” No Brasil, o assunto saiu da academia e foi parar no cotidiano com uma velocidade que surpreendeu até os especialistas.
Uma pesquisa do Instituto Cactus realizada em 2025, com mais de 10 mil brasileiros, mostrou que 54% se preocupam diariamente ou semanalmente com os impactos da crise climática. Quase 42% acreditam que as mudanças climáticas já tiveram impacto direto na sua saúde mental.
Não é abstrato. No fim de 2025, com alerta vermelho do INMET e da Defesa Civil, o calor extremo na Baixada Santista começou a pressionar a rede pública de saúde. Só em Mongaguá, em um único dia, 80 dos 195 atendimentos em UPA foram diretamente relacionados ao calor. Se o corpo sente, a mente também.

Morador mostra resultado de chuvas intensas em Guarujá/SP (2023). Foto: Addriana Cutino
Quem sente mais
Uma pesquisa do CIESPI/PUC-Rio com adolescentes de 12 a 18 anos mostrou que 92,5% se dizem preocupados com as mudanças climáticas, e 68,5% relatam sentimentos de ansiedade, medo ou insegurança ligados ao tema. São jovens que ainda estão formando sua relação com o futuro, e que já carregam esse peso antes mesmo de entrar no mercado de trabalho.
Entre universitários brasileiros, 51% apontam ansiedade e depressão como seus principais problemas pessoais, frente a 32% dos que não cursam o ensino superior. A preocupação climática aparece como pano de fundo constante nessa geração, crescendo 243% entre jovens desde 2021, segundo pesquisa da UNIFESP.
Em Santos, a cidade que vive do porto, da praia e do turismo sente as mudanças climáticas de forma concreta: ressacas mais intensas, verões mais sufocantes, chuvas mais imprevisíveis. Aqui, os dados não são abstratos.
A diferença entre preocupar e paralisar
Jovens brasileiros estão entre os mais preocupados com o clima do mundo: mais de 60% se dizem “muito” ou “extremamente preocupados”, e cerca de metade acredita que as mudanças climáticas afetam negativamente sua vida diária. Mas preocupação e paralisia são coisas diferentes, e é aí que mora a distinção mais importante desse debate.
Para especialistas em saúde mental, a chave está em focar no que está dentro do nosso controle. Realizar ações concretas, como adotar hábitos mais sustentáveis e engajar-se em iniciativas ambientais, pode gerar senso de controle e reduzir a sensação de impotência.
O ativismo ambiental, quando feito de forma equilibrada, tende a reduzir a ansiedade. Participar de grupos com valores semelhantes pode servir inclusive como apoio emocional. Em Santos, isso pode significar desde colaborar com coletivos e ONGs até acompanhar pautas ambientais no Conselho Municipal do Meio Ambiente.
O que os especialistas recomendam
A resposta mais honesta dos profissionais de saúde mental não é “fique tranquilo”. As recomendações equilibram inteligência emocional e ação concreta: informar-se com moderação e fazer pausas conscientes do consumo de mídia; participar de grupos com objetivos climáticos reais; conversar com pessoas próximas sobre o tema; manter autocuidado com respiração, movimento e contato com a natureza. E, quando os sintomas afetam a qualidade de vida, buscar apoio psicológico profissional.
E é importante lembrar: quem vive em apartamentos na orla, em palafitas, ou nos morros não tem experiências iguais diante das mudanças climáticas. Quem mora em área de risco já convive com o medo concreto de enchente, e carrega uma versão mais silenciada dessa ansiedade, sem nome clínico e sem acesso a consultório.
A OMS alertou que a maioria dos países ainda não identifica a ansiedade climática como propulsora de riscos para a saúde mental, principalmente entre os mais vulneráveis, que vivem em áreas de risco climático. Nomear o problema é o primeiro passo para que políticas públicas comecem a encará-lo com seriedade.
Sentir faz sentido. E agora?
A ansiedade climática não é fraqueza, mas uma resposta racional a uma situação real. O planeta registrou eventos sem precedente nos últimos dois anos, e Santos está na linha de frente de quem vai sentir essas mudanças primeiro.
A pergunta que fica é menos sobre como deixar de sentir e mais sobre o que fazer com esse sentimento. Paralisia não resolve o problema, mas ação coletiva, conversa honesta e pressão por políticas sérias de adaptação climática podem construir uma cidade mais preparada para o que vem, sem precisar fingir que está tudo bem.
Serviço
Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) de Santos atende quem precisa de suporte em saúde mental pelo SUS.
O CVV (Centro de Valorização da Vida) atende 24h pelo número 188 ou pelo site cvv.org.br.