Aldeias indígenas na Baixada Santista mantêm cultura ancestral viva
De Itanhaém a Praia Grande, aldeias resistem, preservam o território e fortalecem a identidade cultural regional
A Baixada Santista carrega, no nome de muitos bairros e cidades, uma herança indígena que passa despercebida por boa parte da população. Jabaquara, Embaré, Paranapuã e Mongaguá são apenas alguns exemplos de palavras de origem tupi-guarani que continuam presentes no cotidiano. No entanto, essa presença não está apenas nos mapas. Povos originários seguem vivendo na região, preservando cultura, língua e espiritualidade.
Foto: Alexandre Andreazzi. Tribo do Rio Silveira – Bertioga
Hoje, comunidades Guarani Mbya e Tupi-Guarani (Ñandeva) vivem a poucos quilômetros de praias cheias de turistas. Ali, famílias trabalham, criam seus filhos e mantêm práticas tradicionais, muitas vezes em áreas de Mata Atlântica preservada. Ainda assim, a proximidade geográfica não se transformou em proximidade cultural.
Por isso, muitos moradores da região nunca visitaram uma aldeia ou compraram artesanato diretamente de um indígena. Em alguns casos, sequer sabem que esses territórios existem. Consequentemente, cria-se um distanciamento que impacta a valorização cultural e a compreensão da própria história regional.
As aldeias da região
Aldeia do Rio Branco, em Itanhaém:
Com mais de um século de existência, a aldeia de origem Guarani Mbya está localizada na Estrada Rural do Rio Branco. A Terra Indígena possui cerca de 2,8 mil hectares e é considerada uma das comunidades mais antigas da Baixada Santista. Ali, tradições são transmitidas de geração em geração, reforçando a continuidade cultural.
Aldeias em Mongaguá:
O município abriga comunidades indígenas Guarani, entre elas Itaoca e Aguapeú. A aldeia Itaoca surgiu na década de 1990 e reúne famílias Guarani Mbya e Tupi-Guarani Ñandeva em território demarcado. Já a aldeia do Aguapeú possui ocupação mais antiga, com presença indígena desde o século passado. As comunidades mantêm organização própria e práticas culturais tradicionais, com atividades ligadas à agricultura, ao artesanato e à preservação ambiental.
Aldeia do Rio Silveira, entre Bertioga e São Sebastião:
Na divisa dos municípios, a Terra Indígena Rio Silveira reúne centenas de indígenas Guarani. A área tem cerca de 948 hectares e abriga diversas famílias. A comunidade desenvolve atividades como agricultura, pesca, produção de artesanato e turismo de base comunitária. Além disso, algumas programações incluem trilhas, apresentações culturais e experiências gastronômicas. Nesse modelo, a própria comunidade organiza as visitas e recebe diretamente os recursos.
Aldeia Paranapuã, em São Vicente:
Localizada dentro da área do Parque Estadual Xixová-Japuí, a aldeia foi formada nos anos 2000 por indígenas Guarani Mbya. O território ainda passa por processos administrativos de reconhecimento. A comunidade vive em área de preservação ambiental e mantém atividades tradicionais, além de ações culturais e educativas.
Tekoa Mirim, em Praia Grande:
Entre as comunidades mais recentes da região está a Tekoa Mirim. O local abriga dezenas de indígenas Guarani Mbya que mantêm práticas tradicionais, como agricultura comunitária e produção artesanal. Assim como em outras aldeias, o modo de vida prioriza o coletivo e o vínculo com a natureza.
O Brasil indígena além do litoral paulista
A presença indígena na Baixada Santista faz parte de um cenário nacional mais amplo. De acordo com o Censo 2022 do IBGE, o Brasil possui cerca de 1,7 milhão de indígenas autodeclarados, pertencentes a mais de 300 etnias. Eles estão distribuídos por grande parte do território nacional.
Além disso, centenas de idiomas indígenas ainda são falados no país. Antes da colonização, estima-se que existissem mais de mil línguas. Cada idioma representa um conjunto de conhecimentos tradicionais sobre plantas, território e formas de organização social.
As terras indígenas ocupam uma área extensa do território brasileiro. Por esse motivo, especialistas destacam que a preservação desses espaços também tem impacto ambiental relevante, especialmente no combate ao desmatamento.
Aldeias como proteção ambiental
Estudos apontam que áreas indígenas apresentam altos índices de conservação ambiental. Isso ocorre porque o uso do território segue práticas tradicionais de manejo. Na Baixada Santista, esse cenário aparece na preservação de trechos de Mata Atlântica próximos às aldeias.
Enquanto o litoral recebe novos empreendimentos e expansão urbana, os territórios indígenas funcionam como áreas de biodiversidade. Dessa forma, contribuem para a proteção de nascentes e para o equilíbrio climático regional.
Turismo de base comunitária
Visitar algumas dessas comunidades é possível por meio do turismo de base comunitária. Nesse modelo, a própria aldeia define o formato das atividades e a recepção dos visitantes. O objetivo não é transformar a cultura em espetáculo, mas promover troca de conhecimento.
Na Baixada Santista, iniciativas desse tipo vêm sendo apoiadas por órgãos estaduais e instituições parceiras. Escolas, por exemplo, realizam visitas pedagógicas, ampliando o contato dos estudantes com a cultura indígena.
Desafios ainda presentes
Apesar dos avanços, as aldeias ainda enfrentam desafios. Questões como acesso a serviços públicos, educação diferenciada e segurança territorial continuam no centro das discussões. Além disso, o desconhecimento da população contribui para a invisibilidade dessas comunidades.
Por outro lado, cresce a representatividade indígena em espaços políticos e culturais. Esse movimento fortalece a visibilidade e amplia o debate sobre direitos e preservação.
Nossas raízes
A região abriga um patrimônio cultural vivo. Comunidades que mantêm cantos, rituais, saberes e modos de vida ancestrais continuam presentes. Reconhecer essa existência não é apenas um resgate histórico. É também uma forma de valorizar a diversidade cultural que constrói a identidade local.
Assim, conhecer as aldeias, consumir artesanato diretamente das comunidades e apoiar iniciativas culturais são formas concretas de aproximar a população dessa realidade. Afinal, a história da Baixada Santista começa muito antes da colonização e continua sendo escrita também pelos povos originários.
Fontes:
- IBGE. Censo Demográfico 2022 – População indígena
- Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) – Terras Indígenas no litoral paulista
- Instituto Socioambiental – Plataforma Terras Indígenas no Brasil
- Governo do Estado de São Paulo – Secretaria de Agricultura e Abastecimento / CATI
- Prefeitura de Itanhaém – Informações turísticas sobre aldeia Rio Branco
- Projeto Rio Silveira – Instituto de Geociências da Unicamp
- MapBiomas Brasil – Relatórios sobre preservação ambiental em terras indígenas