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Acabou o comércio no Centro de Santos? A resposta além das obras do VLT

Santos quer realmente salvar dias e noites no Centro? O que é preciso fazer para estimular mais pequenos negócios no bairro?

Tempo de leitura: 6 minutos

Portas fechadas, ruas desertas e movimento quase zero. O centro de Santos, que já foi o coração pulsante do comércio na Baixada Santista, hoje parece um cenário de feriado prolongado em plena terça-feira à tarde.

Mas o que aconteceu com a região central de Santos? A resposta é uma tempestade perfeita que começou em 2022 e cujas consequências ainda ecoam em 2026.

Foto: @msonohara

Obras do VLT

Estamos em 2026. A poeira das obras do VLT baixou, o Parque Valongo está lindo e instagramável. Porém, a vida real do quadrilátero comercial — formado pelas ruas João Pessoa, Amador Bueno e General Câmara — não acompanhou o hype turístico.

Entre 2022 e 2024, o centro virou um canteiro de obras interminável. Consequentemente, ruas foram fechadas, calçadas destruídas e o trânsito se tornou caótico. Além disso, as vagas de estacionamento praticamente desapareceram.

Os comerciantes gritaram por socorro, mas a resposta chegou tarde demais. Quando o VLT finalmente começou a operar, o cliente já havia migrado para outros locais: Gonzaga, shoppings ou mesmo para as compras online.

O cliente fiel que sumiu

Outro fator decisivo foi o efeito do trabalho remoto. Tradicionalmente, o centro histórico de Santos sempre viveu do funcionário público, do advogado, do despachante e do pessoal dos escritórios de logística portuária.

Essas pessoas almoçavam ali, compravam presentes na hora do almoço e utilizavam os serviços locais. Porém, com o modelo híbrido consolidado em 2026, esse público reduziu drasticamente. Menos gente trabalhando presencialmente significa menos consumo.

Portanto, restaurantes, lojas de roupa e papelarias fecharam as portas. O ecossistema comercial colapsou porque o cliente fiel simplesmente desapareceu.

Aluguéis fora da realidade e a bolha especulativa

O terceiro — e talvez mais cruel — fator é o custo de estar no centro. Muitos comentários nas redes sociais batem nessa tecla: “os donos dos imóveis acham que o país está uma maravilha e cobram aluguéis fora da realidade”.

De fato, existe uma bolha especulativa problemática na área central. Prédios antigos, muitos tombados (o que dificulta reformas), têm proprietários que preferem deixar o imóvel vazio pagando IPTU a baixar o valor do aluguel.

Essa teimosia, aliás, pode estar matando o bairro. Um ponto comercial na Rua do Comércio pode custar mais caro que no Gonzaga, mas sem o fluxo de pedestres para justificar o investimento.

Insegurança e abandono social

Vários moradores mencionam medo de assalto, presença de pessoas em situação de rua e sensação generalizada de insegurança. À noite e aos finais de semana, fora do eixo Valongo, a região central vira uma cidade fantasma.

Sem movimento, iluminação adequada ou sensação de pertencimento, ninguém quer fazer compras olhando para os lados com medo. Isso cria um círculo vicioso: menos gente gera menos comércio, que resulta em menos iluminação e policiamento, afastando ainda mais visitantes.

A exceção acontece durante eventos gratuitos, como festivais culturais. Entretanto, o bairro não pode depender apenas dessas ocasiões esporádicas.

O que a Prefeitura está fazendo?

O orçamento de Santos para 2026 foi projetado em R$ 6,3 bilhões, crescimento de quase 14% em relação a 2025. Mas quanto desse dinheiro chega efetivamente ao pequeno comerciante?

A grande aposta da gestão atual tem sido a Lei do Retrofit, que facilita a transformação de prédios comerciais antigos em residenciais. A lógica é simples: se não há quem trabalhe ali, que venham moradores. Afinal, moradores fixos criam demanda para mercadinhos, farmácias, padarias e cafés.

Além disso, existem os programas de incentivo fiscal do Alegra Centro Atualizado. Eles oferecem isenção de IPTU e redução de ISS para empresas de tecnologia, economia criativa e construção civil. Há também o Distrito Criativo, que tenta atrair startups para os casarões históricos.

25 de Março da Baixada

Enquanto Santos tentou “gourmetizar” o centro com foco turístico — Valongo lindo, instagramável, cheio de museus — São Vicente manteve a identidade de comércio popular, acessível e denso.

O centro vicentino virou a “25 de Março da Baixada” porque entendeu que o cliente quer preço, variedade e facilidade. Santos, por outro lado, ficou preso entre o passado glorioso dos anos 80/90 e um futuro turístico que não alimenta o comerciante local.

A concorrência digital implacável

Como alguns comentários apontaram, “não é só Santos, é o país todo”. De fato, a crise do comércio de rua é nacional. O e-commerce — Shopee, Mercado Livre, Shein — explodiu durante a pandemia e não recuou.

Muita gente prefere comprar online, com entrega em casa, a enfrentar trânsito, falta de estacionamento e preços iguais ou maiores. O pequeno comércio físico ficou espremido entre aluguel caro, imposto alto e concorrência digital brutal.

O centro comercial morreu, mas pode renascer

Então, o centro de Santos está morrendo? A resposta honesta é: o centro comercial dos anos 90 já morreu. Aquela Rua Amador Bueno fervendo de gente, as lojas lotadas — isso não existe mais e provavelmente não vai voltar.

No entanto, o centro como espaço urbano pode renascer, desde que mude de vocação. O futuro possível é o centro-bairro: um lugar onde pessoas moram, frequentam cafés, têm mercadinho de proximidade e levam o cachorro para passear.

Mas isso só acontecerá se os aluguéis caírem para a realidade, se houver segurança pública efetiva e se os incentivos da Prefeitura chegarem em quem realmente precisa.

Revitalização precisa de gente, não só de paredes

A revitalização do Valongo foi linda e importante para o turismo. Contudo, revitalização de parede não traz gente. O centro precisa de CPF, não só de CNPJ. Precisa de moradores, não apenas de turistas de fim de semana.

Enquanto os proprietários insistirem em aluguéis absurdos, enquanto a Prefeitura focar apenas em grandes projetos e ignorar o pequeno comerciante, e enquanto a sensação de insegurança persistir, a área central continuará sendo aquela cidade fantasma que todo mundo lamenta, mas ninguém frequenta.

A pergunta que fica é: Santos quer realmente salvar o centro ou está tudo bem em deixá-lo morrer de vez?

Vitor Fagundes
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