A história da luta das domésticas passa por Santos e ajuda a explicar o Brasil de hoje
Da trajetória de Laudelina de Campos Mello aos desafios atuais em Santos, a data expõe avanços importantes — e uma desigualdade que ainda persiste dentro das casas brasileiras
Todo 27 de abril, o Brasil lembra quem cuida das casas, das crianças e dos idosos de milhões de famílias. Mas o que pouca gente sabe é que essa luta por direitos tem uma história longa — e que também passa por Santos.

A cidade não foi o ponto de partida oficial, mas teve papel importante na trajetória de uma das maiores lideranças da categoria. E entender isso é essencial ao olhar para essa data.
Uma história que começa no interior e ganha força pelo país
A organização das trabalhadoras domésticas no Brasil tem um nome central: Laudelina de Campos Mello.
Nascida em Poços de Caldas, em 1904, ela iniciou na militância em defesa das mulheres aqui em Santos, em 1924. Laudelina entrou para a Frente Negra Brasileira e, mais tarde, teve ligação com o Partido Comunista Brasileiro.
Foi ali que ela percebeu que as empregadas domésticas eram vítimas de abandono e descaso da recém-criada CLT.
Em 1936, fundou em Santos a Associação das Empregadas Domésticas do Brasil, primeira associação de trabalhadoras domésticas do país. Começa, então, de forma organizada, uma luta por reconhecimento, direitos e dignidade para uma categoria historicamente invisibilizada.
Seis anos mais tarde, a entidade foi fechada pelo Estado Novo.
Foto: Arquivo Edgar Leuenroth/UNICAMP
Naquele período, o trabalho doméstico sequer era reconhecido como profissão. Aparecia em legislações sanitárias e policiais, muitas vezes associado ao controle social, não à garantia de direitos. Organizar essas mulheres, portanto, era um ato profundamente político.
Por isso, Santos faz parte dessa construção histórica que se espalhou pelo Brasil.
Em 1961, morando em Campinas (SP), Laudelina retoma a Associação Profissional Beneficente das Empregadas Domésticas. E aí a palavra se espalha, com entidades similares aparecendo no Rio de Janeiro e em São Paulo nos anos seguintes. Em 1988, a união desses órgãos dá origem ao Sindicato dos Trabalhadores Domésticos. Laudelina também esteve presente em universidades brasileiras durante 30 anos.
Perto de seu falecimento, se elegeu chefe do Departamento de Sociologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ).
Quase um século depois, o cenário ainda exige atenção
De lá para cá, muita coisa mudou — mas não o suficiente.
Segundo a Organização Internacional do Trabalho, o Brasil está entre os países com maior número de trabalhadores domésticos no mundo, com milhões de pessoas na função. A maioria esmagadora ainda é composta por mulheres, especialmente mulheres negras.
A aprovação da chamada PEC das Domésticas, em 2013, representou um avanço importante ao equiparar direitos da categoria aos demais trabalhadores: jornada definida, FGTS, hora extra, seguro-desemprego.
Ainda assim, a informalidade segue como um problema estrutural. Dados do IBGE indicam que menos de 30% das trabalhadoras domésticas têm carteira assinada no país. Ou seja, a lei avançou — mas a realidade ainda corre atrás.
Santos cresce, mas mantém uma contradição conhecida
A paisagem de Santos mudou muito nas últimas décadas. Bairros como Gonzaga, Boqueirão e Ponta da Praia concentram imóveis valorizados, com infraestrutura moderna e vista para o mar. Mas essa dinâmica urbana também revela uma desigualdade silenciosa.
Grande parte das trabalhadoras domésticas que sustentam essa rotina vem de regiões periféricas e enfrenta longos deslocamentos diários. Muitas ainda trabalham sem registro, mesmo com direitos garantidos por lei há mais de uma década.
É uma contradição que não aparece nas fachadas dos prédios — mas faz parte da engrenagem da cidade.
O que significa, na prática, reconhecer essa data?
Mais do que lembrar, reconhecer o Dia Nacional da Empregada Doméstica passa por uma ação de fato.
Para quem emprega, isso significa cumprir o básico que a legislação já prevê:
- Mensalistas têm direito a FGTS, férias remuneradas, 13º salário, jornada de 44 horas semanais, hora extra, adicional noturno e previdência.
- Diaristas, quando trabalham até dois dias por semana na mesma residência, não têm vínculo formal, mas ainda assim devem ter contribuição ao INSS considerada.
Além disso, condições dignas de trabalho não são opcionais. Respeito, alimentação adequada, pausas e ambiente saudável fazem parte do mínimo esperado.
Na região, trabalhadoras podem buscar orientação no sindicato da categoria, que atua na Baixada Santista e oferece suporte para regularização e direitos.
Uma história que ainda está sendo escrita
Em 2023, Laudelina de Campos Mello foi reconhecida nacionalmente ao ter seu nome inscrito no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria.
É um símbolo importante — mas também tardio, como costuma acontecer com histórias de quem luta por direitos básicos.
Santos, que fez parte dessa trajetória, ainda tem espaço para valorizar essa memória de forma mais visível. Seja em iniciativas culturais, educacionais ou no reconhecimento público dessa história.