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A gigante voltou: raia-manta aparece na Baixada Santista e alerta sobre pesca incidental

Fêmea de até 6 metros foi registrada no Parcel Dom Pedro, em Itanhaém, por pesquisadores do Projeto Mantas do Brasil

Tempo de leitura: 5 minutos

Quem mergulha no litoral paulista sabe que o mar guarda surpresas. Mas poucas são tão impactantes quanto encontrar uma raia-manta-gigante cara a cara debaixo d’água. Foi exatamente isso que aconteceu no dia 20 de abril (segunda-feira), no Parcel Dom Pedro, área marinha localizada em Itanhaém.

www.juicysantos.com.br - A gigante voltou: raia-manta é avistada em Itanhaém e traz alerta sobre pesca incidental

A mergulhadora e pesquisadora Luiza Gomes foi a primeira a avistar o animal nesta temporada de 2026. Ela integra o Projeto Mantas do Brasil, iniciativa do Instituto Laje Viva realizada em parceria com a Petrobras. O registro marca o início oficial da temporada de avistamentos da espécie na região.

“No primeiro mergulho que dei na expedição, já a vi. Estamos muito felizes com esse registro”, contou Luiza.

Uma gigante com história marcada no corpo

A raia identificada é uma fêmea da espécie Mobula birostris, com envergadura estimada entre 5 e 6 metros e peso que pode ultrapassar uma tonelada. Portanto, estamos falando de um dos maiores animais que habitam as águas do litoral paulista.

O encontro, porém, trouxe também um sinal preocupante. O animal foi registrado sem a cauda, lesão que provavelmente resultou de interação com equipamentos de pesca. A perda de apêndices como esse é uma das marcas mais comuns em raias-mantas monitoradas pelo projeto. Assim, o próprio corpo do animal narra os riscos que a espécie enfrenta cotidianamente.

Apesar do comportamento mais arisco do que o habitual, a equipe conseguiu registrar imagens frontais e da região ventral do animal. Cada raia-manta possui um padrão único de manchas no ventre, que funciona como uma impressão digital. Após analisar as fotos, os pesquisadores confirmaram que se trata de um novo indivíduo. A responsável pelo registro batizou a fêmea de Moana.

Pescadores e drones: a ciência que funciona em parceria

O avistamento não foi fruto do acaso. Antes da expedição, pescadores locais já haviam comunicado ao menos três ocorrências de raia-manta na mesma área nos dias anteriores. No entanto, sem essa rede de informação entre comunidade e ciência, a pesquisa seria muito mais difícil.

Além do mergulho ativo, a equipe utilizou drones para ampliar o raio de monitoramento. A aeronave realiza transectos sobre a superfície do mar e identifica animais que se aproximam da superfície. Portanto, tecnologia e sabedoria popular caminham juntas nesse projeto.

O método central de trabalho é a foto-identificação. Ao catalogar cada indivíduo, os pesquisadores conseguem acompanhar deslocamentos, reencontros e o estado de saúde de cada animal ao longo do tempo.

O nosso mar importa para o futuro da espécie

A raia-manta gigante está na lista vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) como espécie ameaçada de extinção. O Litoral de São Paulo é uma das poucas regiões do Brasil onde ela aparece com relativa regularidade. Isso torna cada registro científico realizado aqui um dado valioso para a compreensão global da espécie.

Além disso, a presença do animal funciona como um termômetro do ecossistema. Por ser filtradora, a raia-manta se alimenta de plâncton e pequenos organismos. Assim, ela só aparece onde a água é produtiva e saudável. Ver uma raia-manta no nosso quintal é, portanto, uma boa notícia para o mar como um todo.

“Avistar uma raia-manta aqui no nosso litoral é indescritível. Avistamos a primeira da temporada. Esperamos que essa temporada prometa bastante”, disse Paula Romano, coordenadora-geral do Projeto Mantas do Brasil.

Preservar o mar além da orla e do turismo

A relação entre Santos e o mar é de longa data. O litoral sempre foi o seu coração econômico e cultural. Contudo, crescimento urbano e atividade pesqueira intensa cobram um preço alto da biodiversidade marinha.

A pesca incidental, responsável pela perda da cauda da Moana, ocorre quando animais não-alvo ficam presos em redes ou linhas. Portanto, não se trata de má-fé dos pescadores, mas de um problema estrutural que exige soluções práticas, como equipamentos mais seletivos e rotas de pesca ajustadas às áreas de ocorrência das mantas.

Iniciativas como o Projeto Mantas do Brasil mostram que ciência, comunidade e setor produtivo conseguem trabalhar juntos. O diálogo com pescadores locais, que foram os primeiros a informar sobre a presença do animal, é o melhor exemplo disso. Além disso, projetos como esse geram dados que embasam políticas públicas de proteção marinha.

A Baixada Santista tem potencial real de se tornar referência nacional em turismo de observação de fauna marinha. Só que, para isso acontecer, é preciso que o poder público, a iniciativa privada e a sociedade civil tratem a conservação do mar como prioridade, e não deixem isso pra depois.

Informações de Serviço

Fundado há 15 anos em Santos, o Projeto Mantas do Brasil faz parte do Instituto Laje Viva em parceria com a Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental.

Vitor Fagundes
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