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A cidade que o porto não vê — e a mulher que decidiu mudar isso

Nascida e criada no Dique da Vila Gilda, Thais Helena transformou sua própria história em pesquisa, livro e luta por moradia digna para mulheres negras em Santos

Tempo de leitura: 4 minutos

Santos tem dois recordes que raramente aparecem na mesma frase. O maior porto da América Latina e a maior favela de palafitas da América Latina. A cidade que o porto não vê é uma realidade invisível para muitos.

Os dois ficam no mesmo território. A grandeza econômica e a precariedade estrutural dividem o mesmo horizonte. E é nessa tensão que Thais Helena cresceu, estudou e decidiu permanecer.

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Nascida e criada no Dique da Vila Gilda, ela poderia ter seguido a narrativa mais comum: “sair daqui para melhorar de vida”.

Em vez disso, fez o movimento oposto. Estudou Serviço Social na UNIFESP, campus Baixada Santista. Transformou seu Trabalho de Conclusão de Curso em livro e virou referência acadêmica sobre a cidade onde nasceu.

No décimo episódio da terceira temporada do Lendárias & Portuárias, ela conta essa história — e muito mais.

10 mil pessoas, 64% negras, sem saneamento básico

Os números do Dique da Vila Gilda incomodam. Segundo o IBGE (2010), o território tem aproximadamente 10.175 moradores em 2.935 domicílios. Desses, 64,2% se identificam como pretos ou pardos.

Portanto, não estamos falando de uma questão abstrata. Estamos falando de uma maioria negra vivendo em palafitas, sem saneamento básico, em risco permanente de inundações, incêndios e deslizamentos.

Contudo, a narrativa oficial raramente conecta esses pontos. O Dique é tratado como “problema de planejamento urbano”. Thais Helena discorda — e tem argumentos históricos para isso.

Muita vulnerabilidade, pouca visibilidade

Dentro do Dique, as mulheres negras carregam o peso mais pesado.

Muitas chefiam famílias monoparentais. Acumulam trabalho informal com o cuidado da casa e dos filhos. Grande parte atua como empregadas domésticas — profissão que carrega a herança direta do período escravocrata.

Portanto, quando o planejamento urbano trata habitação apenas como “quantas unidades construir”, ignora a pergunta política fundamental: quem pode viver onde?

Thais Helena chama isso de “urbanismo daltônico”: gestores que enxergam desigualdade econômica, mas parecem cegos para a dimensão racial do problema.

Dor que vira insurgência

Apesar de tudo, resistências emergem. O coletivo Mulheres da Maré, formado por moradoras do Dique, organiza lutas pela permanência digna no território. Mulheres líderes ocupam cada vez mais espaços políticos antes restritos.

Thais Helena é uma delas. Sua pesquisa não veio de fora da comunidade — veio de dentro. Ela questionou professores brancos que estudavam seu bairro como “problema social”. Recusou a invisibilidade na academia. E produziu um trabalho que coloca as narrativas de mulheres negras no centro da análise urbana.

O livro “Eu não tinha condições de pagar um aluguel decente”, publicado pela Editora Periferia tem Palavra, é hoje referência sobre política habitacional com perspectiva racial e de gênero.

O porto que dá as costas – e o que precisa mudar

Santos orgulha-se, com razão, de seu porto. Ele é o motor da economia nacional, responsável por uma fatia expressiva do PIB brasileiro.

Contudo, o porto que movimenta bilhões convive lado a lado com um território sem água tratada, sem esgoto, sem ruas estruturadas. Essa contradição não é acidental.

Assim, o episódio do Lendárias & Portuárias não é só sobre o Dique. É sobre que tipo de cidade Santos quer ser. Uma cidade que reconhece quem construiu sua riqueza — e repara essa dívida histórica. Ou uma cidade que continua “daltônica” para o racismo que organiza seus espaços.

O porto enxerga Santos. Mas Santos enxerga o Dique?

De o play!

O episódio com Thais Helena já está disponível no YouTube. Dez episódios de uma série que investiga a relação entre porto, cidade e as mulheres que constroem essa história todos os dias.

Lendárias & Portuárias tem apoio da DP World e da ABTRA, e incentivo da Lei Municipal de Apoio à Cultura Alcides Mesquita (Promicult).

Vitor Fagundes
Texto por

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