A cidade mais feminina do Brasil esquece suas mulheres?
54% da população representa apenas 24% da história
Responda rápido: quantas mulheres santistas você consegue nomear que marcaram a história da cidade?
Se você travou depois de dois ou três nomes, você não está sozinho. E o problema não é sua memória, mas sim o que te ensinaram a lembrar.
Santos carrega 480 anos de história, sendo uma das cidades mais antigas do Brasil. Para efeito de comparação, São Vicente, a cidade mais velha do país, tem 494 anos. E com tantos anos de existência, Santos acumula histórias, personagens e feitos que moldaram não apenas o município, mas o Brasil.

Foto: Divulgação
Para celebrar esses quase cinco séculos de existência, Santos ganhou uma galeria com 451 personalidades que construíram a cidade ao longo de todos esses anos. Dos 451 nomes, apenas 109 são de mulheres. Enquanto isso, elas são 224.881 habitantes, representando 54,6% da população, o maior percentual feminino do Brasil. A conta não fecha: 54% da população, mas só 24% da memória.
Essa não é apenas uma estatística. É o retrato de quem tem o direito de ser lembrado. De quais vozes atravessam o tempo. De que exemplos oferecemos para as meninas que crescem em Santos hoje.
A consulta popular que revelou o apagamento
A Prefeitura criou uma iniciativa bacana: abriu consulta popular entre 15 de dezembro de 2025 e 15 de janeiro de 2026 no Instagram oficial para que a população indicasse personalidades marcantes da cidade. Qualquer pessoa, anônima ou famosa, de qualquer área, que ajudou a construir a Santos de hoje.
O resultado? Uma galeria com 451 nomes que conta a trajetória do município em diferentes áreas. Mas os números contam outra história também. E essa não é tão bonita.
O que esses números dizem?
Isso significa que homens fizeram tudo de importante em Santos? Claro que não. Significa que a cidade mal conhece a própria história.
Esse padrão não é exclusivo de Santos. Ele se repete no Brasil, na América Latina, no mundo. É sintoma de uma sociedade que, por séculos, impediu mulheres de acessar educação formal, ocupar cargos públicos, exercer profissões em campos majoritariamente masculinos, assinar contratos ou ter voz nas decisões sobre suas próprias vidas.
Quando conseguiam realizar feitos extraordinários, homens muitas vezes levavam o crédito. Ou o tempo simplesmente apagava suas conquistas. Quantas cientistas, artistas, educadoras, ativistas e líderes comunitárias desapareceram dos livros de história?
A urgência de reescrever a narrativa
Se Santos precisa conhecer mais a história de suas mulheres, esse é o momento de começar. A cidade mais feminina do Brasil merece ter sua memória feminina resgatada, celebrada e transmitida às próximas gerações.
Mais do que números em uma lista, estamos falando de quem tem o direito de ser lembrado. De quais vozes ecoam através do tempo. De como construímos nossa identidade coletiva e que exemplos oferecemos às meninas e mulheres de hoje.
A história de Santos é também a história de suas mulheres. E chegou a hora de contá-la.
Mulheres que marcaram a história de Santos
Adelaide Moraes de Barros: primeira-dama e patrona da educação
Nascida em 1848, Adelaide veio de família influente ligada ao café. Foi primeira-dama do Brasil no mandato de Prudente de Moraes (1894-1898), com quem teve nove filhos. Criou laços de amizade com a professora e missionária metodista Martha Watts.
Acabou exercendo papel patronal na educação e no ambiente cultural do Brasil. Para tratar da saúde, viajou para a Alemanha, onde faleceu em Berlim, em 1911. Seu corpo foi sepultado em Piracicaba.
Adriana Carranca: jornalismo humanitário pelo mundo
Formada em Comunicação Social pela Católica de Santos e mestre pela London School of Economics, Adriana trabalhou na TV Tribuna e Veja SP. Desde 2002 atua em O Estado de S. Paulo e O Globo.

Cofundadora da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), já reportou de países como Afeganistão, Irã e Síria. Autora de livros como Malala, a menina que queria ir para a escola e O Afeganistão depois do Talibã. Recebeu prêmios como Líbero Badaró, Jabuti e Troféu Mulher Imprensa. Vive em Nova York desde 2017.
Benedicta Souza Oliveira: atleta olímpica e primeira técnica
Nascida em Jundiaí em 1927, foi criada em Santos, onde começou no esporte, primeiro no vôlei, representando a cidade nos Jogos Abertos de 1948. Destacou-se como velocista, sendo campeã paulista, brasileira e sul-americana.
Foi selecionada para a Olimpíada de Londres 1948, nas provas de 100m e 4x100m. Naquela edição, o Brasil tinha 77 atletas e apenas 11 mulheres. Depois de encerrar a carreira como atleta, tornou-se a primeira técnica de atletismo do Brasil, em 1965, liderando a seleção na conquista do Sul-Americano. Faleceu em 2020.
Djamila Ribeiro: voz global do feminismo negro
Nascida em Santos em 1980, a filósofa, escritora e ativista é hoje referência internacional em feminismo negro, raça e gênero. Seu livro Pequeno manual antirracista venceu o Jabuti e virou fenômeno editorial.

Foi secretária-adjunta de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo em 2016, entrou para a Academia Paulista de Letras em 2022 (cadeira 28) e, em 2025, tornou-se a primeira brasileira a dar aulas no programa Dr. Martin Luther King Jr. do MIT. Sua voz leva ao mundo a reflexão sobre como o racismo no Brasil é estrutural e estruturante.
Em tempo: tanto Djamilla quanto Adriana estão entre as autoras que podem ajudar a reduzir a pena de Jair Bolsonaro na prisão.
Edmea Ladevig: a militante que morreu panfletando
Líder comunitária feminista e ativista política, Edmea foi uma das fundadoras do PT em Santos. Atuou no movimento pela anistia dos exilados políticos durante a ditadura militar, pelos direitos das mulheres e pela segurança alimentar.
Mesmo não sendo vereadora, foi a primeira mulher a presidir a Câmara Municipal de Santos – um feito e tanto. Morreu em 1984 enquanto panfletava para mobilizar a sociedade santista para o movimento Diretas Já. Deu nome à UME Edmea Ladevig, no Gonzaga.
Helle Alves: a única brasileira que noticiou a morte de Che Guevara
Nascida em Itanhandu (MG) em 1926, Helle iniciou a carreira aos 15 anos e destacou-se numa época em que redações eram dominadas por homens. Em 1967, foi a única jornalista brasileira a noticiar a morte de Ernesto “Che” Guevara.
Defensora da autonomia feminina e do jornalismo de campo, viveu as últimas décadas em Santos, onde participou ativamente da vida cultural. Faleceu em 2019, aos 92 anos, deixando um legado de pioneirismo e compromisso com a profissão.
Karen Jonz: quatro vezes campeã mundial de skate
Nascida em Santos em 1983, Karen é referência no skate com quatro títulos mundiais na modalidade vertical. No início da carreira, enfrentou preconceitos por ser mulher em um esporte dominado por homens, inclusive dentro da própria família.
Chegou a ter uma banda de punk rock, influenciada pela cultura do esporte. Foi precursora na modalidade park, de olho nos Jogos Olímpicos. Por sua história, foi presença especial nos Jogos de Paris 2024, em reconhecimento ao legado e pioneirismo. E foi ela quem popularizou o termo “xerecou”, inesquecível.
Leny Eversong: a voz de Santos que conquistou o mundo
Nascida em Santos como Hilda Campos Soares da Silva, Leny teve uma das vozes mais potentes da música brasileira. Seu domínio do jazz e versatilidade em diversos gêneros a fizeram brilhar.
Iniciou nos anos 1950 e alcançou sucesso nos Estados Unidos, Europa e América Latina, apresentando-se em programas de TV e casas de espetáculos renomadas. Ganhou a amizade e admiração de Elvis Presley. Reconhecida pelo carisma e interpretação vigorosa, tornou-se um dos grandes nomes da música brasileira no exterior. Faleceu em 1984.
Lolita Rodrigues: pioneira da TV brasileira
Nascida em Santos em 1929, Lolita foi uma das pioneiras do rádio e da TV brasileira. Iniciou a carreira aos dez anos nas radionovelas da Rádio Record. Passou pelas rádios Bandeirantes, Cultura e Tupi, ganhando dois Troféus Roquette Pinto como Melhor Cantora.
Participou da primeira transmissão da TV Tupi em 1950. Sua primeira protagonista foi a cigana Esmeralda em O Corcunda de Notre Dame. É reconhecida até hoje por interpretar personagens com sotaque castelhano, como Aldonza (Sassaricando) e Dolores (Terra Nostra). Faleceu em 2023, aos 94 anos.
Margot Rittscher: a primeira surfista do Brasil
Nascida em Nova York em 1916, Margot se mudou para Santos aos 15 anos e morava de frente para o mar, próximo ao Canal 5. Em 1934, quando acompanhou o irmão Thomas (que construiu a primeira prancha de surfe no Brasil) para surfar, decidiu também desafiar as ondas.

Num tempo em que mulheres mal podiam usar calças, Margot pegou uma prancha e entrou no mar. Virou a primeira mulher surfista do país. Morreu em 2012, aos 96 anos, tendo visto o esporte que ajudou a trazer para o Brasil virar fenômeno mundial.
Maria Baccarat: primeira advogada santista
Em 1939 Maria Baccarat se formou em Direito no Largo de São Francisco. Foi a primeira santista a conseguir esse feito. Atuou como advogada na comarca de Santos, trabalhou no Ministério da Educação e representou o Brasil em conferências internacionais sobre educação e o papel da mulher.
Além da carreira jurídica, dedicou-se à literatura, publicando poesias e o romance Mulheres de Outrora. Nos anos 1970, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde foi procuradora-geral da UFRJ. Seu avô, José Baccarat, foi delegado e prefeito de Santos na década de 1940.
Maria Patrícia Fogaça: a mãe negra dos santistas
Nascida em 1838, filha de Patrício e Joana, ambos pretos, Maria Patrícia teve como padrinhos de batismo ninguém menos que João Bonifácio de Andrada e Ana Joaquina. Casou-se aos 19 anos com um alfaiate e aprendeu o ofício de parteira com as pessoas de sua comunidade.
Mesmo sem formação acadêmica, era amada e respeitada pela classe média santista. Aos 56 anos, passou a ser atacada por ser isenta do imposto profissional, ironicamente, era uma das poucas a atender os mais pobres. Considerada a “mãe negra dos santistas”, morreu em 1913 deixando um legado de cuidado e resistência.
Pagu: a vanguarda que nasceu aqui
Patrícia Rehder Galvão (1910-1962) foi escritora, jornalista, atriz, desenhista e militante política. Uma das principais figuras do modernismo brasileiro, participou do movimento futurista e da vanguarda artística.

Publicou o romance Parque Industrial em 1933, atuou no teatro e no cinema, foi presa por suas atividades políticas durante a Era Vargas. Desenhista e ilustradora, participou da Revista de Antropofagia. Virou símbolo de luta contra a opressão e pela liberdade de expressão e continua inspirando gerações.
Dá nome a um dos equipamentos culturais mais importantes da cidade, o Centro de Cultura Patrícia Galvão.
Rosinha Mastrângelo: a voz das radionovelas
Nascida em Santos em 1911, Rosinha iniciou como jornalista em 1932, sendo uma das primeiras mulheres de O Estado de São Paulo. Em 1939, entrou para a Rádio Clube, onde foi pioneira nas radionovelas.
Na Rádio Atlântica, produziu programas como Teatro de Atenas e Romance para Você, sucessos durante 11 anos. Publicou poesias em dois livros. Em 1950, produziu o primeiro Festival do Teatro Amador de Santos. Foi redatora e chefe de reportagem do jornal O Diário. Morreu em 1986 e deu nome ao teatro público do Centro de Cultura Patrícia Galvão.
Telma de Souza: a primeira prefeita
Nascida em 1944, formada em Pedagogia e Direito, Telma iniciou sua trajetória no movimento sindical dos professores e foi uma das fundadoras do PT. Elegeu-se vereadora em 1982 e, em 1988, tornou-se a primeira prefeita de Santos.

Enfrentou desafios como a reorganização administrativa, a municipalização do transporte e implantou o primeiro centro de referência em Aids do país (Craids), marco nacional em saúde pública. Consolidou-se como liderança política da região defendendo causas sociais, ambientais e históricas.
Essas são apenas algumas das mulheres que construíram Santos. Quantas outras histórias ainda permanecem invisíveis?
Santos é a cidade mais feminina do Brasil. Chegou a hora de a nossa história refletir isso.