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28 de fevereiro: a greve de trabalhadores em Santos que disse não a Collor

Candidatos que chegam ao poder prometendo acabar com a corrupção e afastar o "fantasma do comunismo" já nos ensinaram onde podem chegar. Santos viveu isso na pele — e tem uma data para nunca esquecer.

Tempo de leitura: 5 minutos

O discurso é sempre parecido: o candidato que vai “renovar” a política, que denuncia a corrupção com o dedo em riste, que combate o medo de uma esquerda “comunista” prestes a dominar o Brasil. Familiar? Deveria ser. Porque Santos já viu esse filme, pagou o ingresso e conhece o final.

www.juicysantos.com.br - GreveFoto: Núcleo do Porto / Divulgação

No dia 28 de fevereiro de 1991, a cidade se uniu e forçou o presidente Fernando Collor de Mello a recuar numa das medidas mais covardes já tomadas contra trabalhadores brasileiros: a demissão, por telegrama, de 5.372 portuários de uma só vez.

Liderada pela prefeita Telma de Souza, Santos decretou greve geral, parou tudo e disse não. E funcionou.

O homem que ia “salvar” o Brasil

Fernando Collor de Mello chegou à presidência em 1990 como o candidato da novidade. Jovem, fotogênico, com discurso de guerra contra os “marajás” (servidores públicos de salários altos), ele soube explorar o momento: o país saía de anos de ditadura, vivia uma inflação de dar medo e assistia, pela primeira vez, a uma eleição direta para presidente.

No segundo turno, disputou com Luiz Inácio Lula da Silva. Venceu. E a mídia, especialmente a TV Globo, teve papel decisivo na construção dessa vitória, com uma edição de debate amplamente criticada até hoje por favorecer a imagem de Collor.

O discurso era conhecido: anticorrupção, renovação, fim da velha política. O medo da “esquerda comunista” funcionava como combustível eleitoral, num contexto de Guerra Fria ainda fresca na memória. Collor personificava a “nova face” que parte do país queria ver.

Só que logo as garras apareceram.

O telegrama que acendeu Santos

Em 20 de fevereiro de 1991, trabalhadores do Porto de Santos chegaram em casa e encontraram um telegrama esperando por eles. O texto era seco: a Codesp informava que o contrato estava rescindido por justa causa, sob alegação de descumprimento de decisão judicial durante uma greve que o próprio Tribunal Regional do Trabalho havia declarado abusiva.

No total, 5.372 portuários foram demitidos de uma só vez.

A Praça Mauá foi tomada. Houve vigília na Igreja Nossa Senhora da Aparecida. Portuários de férias, afastados por doença, aposentados, todos foram. A cidade começou a ferver.

A prefeita que bateu o pé

Quem comandava Santos naquele momento era Telma de Souza, a primeira prefeita da cidade, eleita em 1988. Professora, advogada, fundadora do PT e ex-vereadora, Telma não era do tipo que esperava o problema chegar à porta.

www.juicysantos.com.br - 28 de fevereiro o dia em que Santos disse não a Collor

Foto: Núcleo do Porto / Divulgação

Ela abriu as portas do Paço Municipal aos trabalhadores. A prefeitura virou quartel-general da resistência. De lá saíam os contatos com Brasília, as articulações políticas e os informes para a imprensa.

Telma viajou pessoalmente à capital federal. Se reuniu com o ministro da Justiça, Jarbas Passarinho, e com o ministro do Trabalho, Antônio Magri. O recado foi direto: Santos não vai ceder.

A cidade parou

Santos entrou em greve geral. O comércio fechou, os ônibus pararam, as escolas suspenderam as aulas. Diversas categorias cruzaram os braços em solidariedade.

A Praça Mauá e a Avenida Rodrigues Alves foram tomadas por uma multidão. Telma decretou calamidade pública. A notícia corria o país inteiro, estampada nos jornais, comentada no rádio, exibida na televisão.

Collor, acuado, não teve saída.

Às 15h30 do dia 28 de fevereiro de 1991, o ministro Jarbas Passarinho ligou para Telma de Souza. O governo federal suspendia as demissões. No dia 1º de março, os portuários voltaram ao trabalho, de cabeça erguida.

O dia 28 de fevereiro foi eternizado por lei municipal como Dia da Resistência Portuária. E uma escola da cidade recebeu a data como nome, para que as próximas gerações nunca esqueçam.

O fim do “salvador” da pátria

Menos de dois anos depois, o mesmo presidente que prometia combater a corrupção era alvo de um processo de impeachment por, adivinhe, corrupção.

www.juicysantos.com.br - Collor

Foto: Divulgação

Seu próprio irmão, Pedro Collor, denunciou um esquema de tráfico de influência liderado pelo tesoureiro PC Farias. Uma CPI revelou cheques fantasmas usados para despesas pessoais do presidente. Em setembro de 1992, a Câmara aprovou a abertura do processo por 441 votos a 38.

As ruas voltaram a ferver. Dessa vez com jovens de rosto pintado, os “Caras-Pintadas”, pedindo Fora Collor.

Para tentar escapar da inelegibilidade, Collor renunciou em 29 de dezembro de 1992. O Senado, mesmo assim, concluiu o impeachment e o tornou inelegível por oito anos. O vice Itamar Franco assumiu.

Em 1994, Collor foi absolvido pelo STF por falta de provas no processo criminal. Mas a história não acabou por aí: anos depois, o ex-presidente voltou a se envolver em escândalos de corrupção e lavagem de dinheiro. Hoje cumpre prisão domiciliar.

O caçador de marajás virou o que supostamente combatia.

As eleições estão chegando

A história de 28 de fevereiro de 1991 não é só um capítulo do passado, é um espelho.

Promessas de renovação, inimigos imaginários, discurso anticorrupção vindo de quem mais tarde se revelou corrupto: esse roteiro não é novo. E Santos já pagou para ver o que acontece quando ele é ignorado.

2026 é ano de eleição. Antes de votar, vale se perguntar: “eu já ouvi isso antes? E como terminou?”

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