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O gavião que come plástico em Santos revela um problema que já está dentro de nós

Uma foto tirada na praia de Santos revelou algo que a ciência já sabe, mas a cidade ainda finge não ver

Tempo de leitura: 6 minutos

O primeiro plástico 100% sintético do mundo, a Baquelite, foi criado em 1907 pelo químico Leo Baekeland. O tempo médio de decomposição desse tipo de material pode ser de mais de 600 anos.

Isso significa que o primeiro plástico já fabricado ainda pode existir, intacto, boiando em algum lugar do oceano, e ainda vai durar mais do que qualquer pessoa viva hoje.

Sacolas plásticas levam de 10 a 20 anos para sumir da paisagem. Mas “sumir” é uma ilusão: elas não desaparecem, apenas se fragmentam em partículas invisíveis a olho nu. Os chamados microplásticos.

Contudo, o problema não é só de decomposição, é de onde esse material acaba. Uma foto tirada na orla de Santos mostrou isso com uma clareza difícil de ignorar.

Um problema para os animais de Santos

O fotógrafo Gabriel Gomes estava na praia quando flagrou uma cena que resume décadas de descaso ambiental em uma única imagem: um carcará bicando um pedaço de isopor como se fosse comida.

www.juicysantos.com.br - O gavião que comeu plástico em Santos revela um problema que já está dentro de nósFoto: Gabriel Gomes

Vale lembrar que nos últimos meses, o gavião-asa-de-telha virou o dono dos céus santistas. O carcará é extremamente oportunista, veio para Santos pelo descarte orgânico errado e pela quantidade de pombos na cidade.

Se adaptou tão bem ao ambiente urbano que Santos realmente virou seu território.

A adaptação é impressionante, o problema é que o ambiente ao qual eles se adaptaram está contaminado.

O ornitólogo Rodrigo Passos explicou o que acontece quando um carcará bica isopor:

“Ele não tem a percepção de que aquilo seja lixo. Como se trata de uma espécie oportunista, tudo o que desperta sua curiosidade e interesse ele coloca no bico, podendo ingerir o objeto por acreditar que seja alimento.”

Portanto, o carcará não está ficando louco, está apenas buscando comida. O problema é que o lixo humano imita os sinais que o alimento emite.

A armadilha evolutiva

Animais desenvolvem, ao longo de milênios, a capacidade de reconhecer comida por forma, cor e cheiro. Quando o ser humano despeja plástico no ambiente em escala industrial, esses materiais passam a imitar esses sinais e se tornam uma armadilha evolutiva.

Passos aponta ainda um detalhe revelador sobre o olfato:

“Algumas aves conseguem perceber partículas idênticas às encontradas nos peixes que lhes servem de alimento. Esse cheiro pode estar presente em plásticos e isopor, o que faz com que as aves se confundam.”

Ou seja, o isopor pode cheirar a peixe para o carcará. E o peixe está misturado ao lixo que alguém deixou na praia.

Estudos publicados na revista Science já registraram a ingestão de plástico em mais de 1,5 mil espécies animais, de zooplânctons a baleias, cobrindo mais da metade das ordens de vertebrados. O ambiente marinho, que abraça Santos por todos os lados, concentra a maior parte desses registros.

Os gaviões de Santos, ao chegarem à orla, entram nessa estatística.

O que acontece depois que o carcará engole o isopor

Rodrigo Passos é direto:

“Isso vai causar contaminação e intoxicação alimentar. A contaminação por microplástico a longo prazo afeta a saúde dos animais e as populações.”

O microplástico ingerido se acumula nos tecidos. Com o tempo, interfere no sistema hormonal, imunológico e reprodutivo. Para uma espécie cuja população em Santos ainda está crescendo, esse é um risco real de longo prazo, especialmente considerando que esses gaviões caçam pombos e peixes que também estão expostos ao plástico.

Assim, a contaminação sobe pela cadeia alimentar.

O espelho que o carcará nos mostra

Aqui está o ponto que a foto de Gabriel Gomes deixa implícito: o carcará não é diferente de nós.

Pesquisas recentes estimaram que um adulto médio inala cerca de 68 mil micropartículas de plástico por dia apenas respirando dentro de casa e em carros. Microplásticos já foram encontrados em pulmões, fígado, rim, cérebro, placenta, cordão umbilical e sangue humanos. Um estudo publicado em 2024 no New England Journal of Medicine associou a presença dessas partículas em artérias a risco aumentado de infarto e AVC.

O carcará bica o isopor na praia. O santista respira o microplástico em casa.

Santos tem um compromisso, mas o prazo aperta

A boa notícia é que Santos não está de braços cruzados. Em 2019, o então prefeito Paulo Alexandre Barbosa assinou decreto proibindo o uso de plásticos descartáveis na administração pública municipal, com metas progressivas para todos os órgãos da prefeitura.

Além disso, Santos foi selecionada em 2024 pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação para integrar o projeto “Circularidade do Plástico”, ao lado de Florianópolis, Rio de Janeiro, Salvador e Belém. A iniciativa, com investimento de 9 milhões de dólares do Fundo Global do Meio Ambiente, prevê 48 meses de ações para reduzir e eliminar plásticos descartáveis da cidade, incluindo canudos, talheres, pratos e embalagens. O projeto teve início em 2025 e vai até 2029.

Portanto, o prazo está correndo. Resta saber se ele será realmente cumprido.

Falta vontade política e industrial

Rodrigo Passos não é fatalista, mas também não é ingênuo:

“A solução é a extinção do isopor e dos plásticos, e as embalagens serem biodegradáveis. Já existem muitas embalagens biodegradáveis. Só faltam investimento, mas é difícil convencer a indústria do plástico.”

A dificuldade não é técnica. É econômica e política. O Brasil, por exemplo, ainda não aderiu a compromissos globais vinculantes para reduzir a produção de plástico.

O carcará não pediu para viver em Santos. Ele veio porque o desmatamento destruiu o habitat dele e a cidade foi o que sobrou. Adaptou-se aos prédios, às ruas, aos pombos urbanos. Fez tudo certo dentro das regras que a natureza lhe ensinou.

O isopor, contudo, não faz parte dessas regras. Ele foi inventado por nós, descartado por nós e deixado na praia por nós. O carcará só encontrou o que a gente largou para trás. E agora carrega, no corpo, uma consequência que nem sabia que estava herdando.

O ser humano criou o plástico para durar séculos e a natureza inteira está pagando essa conta junto.

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