O gavião que come plástico em Santos revela um problema que já está dentro de nós
Uma foto tirada na praia de Santos revelou algo que a ciência já sabe, mas a cidade ainda finge não ver
O primeiro plástico 100% sintético do mundo, a Baquelite, foi criado em 1907 pelo químico Leo Baekeland. O tempo médio de decomposição desse tipo de material pode ser de mais de 600 anos.
Isso significa que o primeiro plástico já fabricado ainda pode existir, intacto, boiando em algum lugar do oceano, e ainda vai durar mais do que qualquer pessoa viva hoje.
Sacolas plásticas levam de 10 a 20 anos para sumir da paisagem. Mas “sumir” é uma ilusão: elas não desaparecem, apenas se fragmentam em partículas invisíveis a olho nu. Os chamados microplásticos.
Contudo, o problema não é só de decomposição, é de onde esse material acaba. Uma foto tirada na orla de Santos mostrou isso com uma clareza difícil de ignorar.
Santos ganhou um gavião, e o gavião ganhou um problema
O fotógrafo Gabriel Gomes estava na praia quando flagrou uma cena que resume décadas de descaso ambiental em uma única imagem: um gavião-asa-de-telha, o novo morador alado de Santos, bicando um pedaço de isopor como se fosse comida.
Foto: Gabriel Gomes
Nos últimos meses, o gavião-asa-de-telha virou o dono dos céus santistas. A espécie, que enfrentava risco de extinção no estado de São Paulo há pouco mais de uma década, se adaptou tão bem ao ambiente urbano que hoje há pelo menos 15 ninhos mapeados na cidade, com população crescendo de forma exponencial.
A adaptação é impressionante, o problema é que o ambiente ao qual eles se adaptaram está contaminado.
O ornitólogo Rodrigo Passos explicou o que acontece quando um gavião bica isopor:
“Ele não tem a percepção de que aquilo seja lixo. Como se trata de uma espécie oportunista, tudo o que desperta sua curiosidade e interesse ele coloca no bico, podendo ingerir o objeto por acreditar que seja alimento.”
Portanto, o gavião não está ficando louco, está apenas buscando comida. O problema é que o lixo humano imita os sinais que o alimento emite.
A armadilha evolutiva
Animais desenvolvem, ao longo de milênios, a capacidade de reconhecer comida por forma, cor e cheiro. Quando o ser humano despeja plástico no ambiente em escala industrial, esses materiais passam a imitar esses sinais e se tornam uma armadilha evolutiva.
Passos aponta ainda um detalhe revelador sobre o olfato:
“Algumas aves conseguem perceber partículas idênticas às encontradas nos peixes que lhes servem de alimento. Esse cheiro pode estar presente em plásticos e isopor, o que faz com que as aves se confundam.”
Ou seja, o isopor pode cheirar a peixe para o gavião. E o peixe está misturado ao lixo que alguém deixou na praia.
Estudos publicados na revista Science já registraram a ingestão de plástico em mais de 1,5 mil espécies animais, de zooplânctons a baleias, cobrindo mais da metade das ordens de vertebrados. O ambiente marinho, que abraça Santos por todos os lados, concentra a maior parte desses registros.
Os gaviões de Santos, ao chegarem à orla, entram nessa estatística.
O que acontece depois que o gavião engole o isopor
Rodrigo Passos é direto:
“Isso vai causar contaminação e intoxicação alimentar. A contaminação por microplástico a longo prazo afeta a saúde dos animais e as populações.”
O microplástico ingerido se acumula nos tecidos. Com o tempo, interfere no sistema hormonal, imunológico e reprodutivo. Para uma espécie cuja população em Santos ainda está crescendo, esse é um risco real de longo prazo, especialmente considerando que esses gaviões caçam pombos e peixes que também estão expostos ao plástico.
Assim, a contaminação sobe pela cadeia alimentar.
O espelho que o gavião nos mostra
Aqui está o ponto que a foto de Gabriel Gomes deixa implícito: o gavião não é diferente de nós.
Pesquisas recentes estimaram que um adulto médio inala cerca de 68 mil micropartículas de plástico por dia apenas respirando dentro de casa e em carros. Microplásticos já foram encontrados em pulmões, fígado, rim, cérebro, placenta, cordão umbilical e sangue humanos. Um estudo publicado em 2024 no New England Journal of Medicine associou a presença dessas partículas em artérias a risco aumentado de infarto e AVC.
O gavião bica o isopor na praia. O santista respira o microplástico em casa.
Santos tem um compromisso, mas o prazo aperta
A boa notícia é que Santos não está de braços cruzados. Em 2019, o então prefeito Paulo Alexandre Barbosa assinou decreto proibindo o uso de plásticos descartáveis na administração pública municipal, com metas progressivas para todos os órgãos da prefeitura.
Além disso, Santos foi selecionada em 2024 pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação para integrar o projeto “Circularidade do Plástico”, ao lado de Florianópolis, Rio de Janeiro, Salvador e Belém. A iniciativa, com investimento de 9 milhões de dólares do Fundo Global do Meio Ambiente, prevê 48 meses de ações para reduzir e eliminar plásticos descartáveis da cidade, incluindo canudos, talheres, pratos e embalagens. O projeto teve início em 2025 e vai até 2029.
Portanto, o prazo está correndo. Resta saber se ele será realmente cumprido.
Falta vontade política e industrial
Rodrigo Passos não é fatalista, mas também não é ingênuo:
“A solução é a extinção do isopor e dos plásticos, e as embalagens serem biodegradáveis. Já existem muitas embalagens biodegradáveis. Só faltam investimento, mas é difícil convencer a indústria do plástico.”
A dificuldade não é técnica. É econômica e política. O Brasil, por exemplo, ainda não aderiu a compromissos globais vinculantes para reduzir a produção de plástico.
O gavião-asa-de-telha não pediu para viver em Santos. Ele veio porque o desmatamento destruiu o habitat dele e a cidade foi o que sobrou. Adaptou-se aos prédios, às ruas, aos pombos urbanos. Fez tudo certo dentro das regras que a natureza lhe ensinou.
O isopor, contudo, não faz parte dessas regras. Ele foi inventado por nós, descartado por nós e deixado na praia por nós. O gavião só encontrou o que a gente largou para trás. E agora carrega, no corpo, uma consequência que nem sabia que estava herdando.
O ser humano criou o plástico para durar séculos e a natureza inteira está pagando essa conta junto.