Victória Silva
Texto porVictória Silva
Jornalista, 25 anos - Santos

A história de Rosecler Costa, a Ironmãe

Assim como todos os super-heróis que ilustram revistas em quadrinho e são roteirizados em blockbusters, a Ironmãe está na Terra com uma missão delineada.

Ela dá fim a guerras; organiza uma pequena sociedade que, sem ela, vive em um caos; alimenta crianças famintas e ainda encontra tempo para duas personalidades paralelas (e nada secretas).

Além de mãe, a santista se desdobra como empresária e atleta (amadora) de elite no triathlon.

Sem a capa do Super-Homem ou a armadura do Homem de Ferro, a rotina de Rosecler Costa requer um pouco mais de disciplina: às 5 horas da manhã, já está pedalando pelas ciclovias da cidade. Os treinos seguem durante parte do horário de escola das crianças e só param quando dá início à segunda jornada do dia, a de empresária.

Assim que o sol se põe, a terceira e, com sorte, última etapa do dia começa. É hora de ser mãe, ou seja, olhar os cadernos e agendas, servir o jantar, ajudar com as lições de casa, interromper as brigas e coloca-los para dormir.

“Eu amo esportes, sempre fui muito adepta. Comecei a fazer natação aos 7 anos, por conta de uma bronquite. Por volta dos 15, iniciei no biathlon com algumas amigas e, mais tarde, pedi uma bicicleta para a minha mãe e adicionei o pedal ao meu dia-a-dia”, lembra Rosecler.

ironmãe

Mãe de ferro

Não demorou muito para que ela se profissionalizasse e fosse competir em maratonas de natação, pedal e corrida. Mas a mesma velocidade que a garantiu um acervo de troféus e medalhas incrível a afastou do esporte. Primeiro, uma lesão na clavícula; depois, uma cirurgia no ovário e, por fim, a pressão social de obter conquistas aos vinte e poucos anos.

Mais de dez anos se passaram entre a vida universitária, uma paixão que logo se tornou casamento e o nascimento dos dois filhos. Só quando o mais novo, Rogério, começou a estudar, a atleta até então adormecida começou a dar sinais de vida.

“Uma série de fatores influenciaram a minha volta, o mais forte foi ser um bom exemplo para os meus filhos. Eu acredito que o esporte seja essencial à vida e que os mais jovens se espelham muito na família”.

Com o apoio do marido, que sonhava em vê-la competir, Rosecler voltou aos treinos em 2012 e diz que, logo no início, avisou: “Eu não gosto de treinar por treinar, sempre tenho a meta de obter um bom resultado”.

Conquistas

E ela conseguiu. Entre os diversos prêmios e conquistas que coleciona, estão duas participações no IronMan World Championship (em Kona, no Hawaii).

A prova, considerada a maratona de  triathlon mais difícil do mundo, tem trajeto de 3,8 km de natação, 180 km de ciclismo e 42,2 km de corrida. Tudo isso com o tempo máximo de 17 horas.

ironmae

Durante sua primeira participação na ilha, em 2015, a Ironmãe foi a primeira brasileira a atravessar a linha de chegada.

Em outubro de 2016, ela retornou e finalizou a prova em pouco mais de 11 horas. O tempo não foi suficiente para manter a posição da edição anterior. Ela ficou entre as 7 primeiras brasileiras – profissionais e amadoras – e voltou para casa com duas convicções:

“Resultados à parte, só de você estar lá e cruzar a linha de chegada dentro do tempo, já significa uma vitória – pra mim e todos os participantes. É uma prova muito dura. O lugar é o mesmo, a distância é a mesma, mas Kona é uma Kona em cada ano!”.

Os músculos nem tiveram tempo de descansar e a agenda já está cheia de compromissos: assim que voltou para Santos, participou do Troféu Brasil. Em novembro, vai ao Ironman de Fortaleza e depois tem outra etapa aqui na cidade. Após uma pequena pausa para as férias, volta aos treinos novamente, pois em abril participa do Ultraman, competição com três dias de prova.

No que depender dela, a história segue assim durante os próximos anos.

Está aí uma diferença entre ela e os personagens de HQ: Rose não pretende se aposentar, perder a forma ou sumir conforme a idade chegar. Daqui a 22 anos, quando apagará as velinhas em comemoração aos 60, ela pretende continuar competindo e cruzando a linha de chegada de Kona.

“Ano passado, um senhor de 80 completou, e não foi o último. Não há exemplo maior de que o impossível não existe no esporte”, finaliza a Ironmãe, com a filha de cabelos molhados, de quem acabou de sair da natação, ao seu lado.

A última jornada do dia estava apenas começando…