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Este casarão amarelo em Santos guarda um museu premiado que pouca gente conhece

Considerado pelo Tripadvisor a melhor atração de Santos, Museu do Porto surpreende quem atravessa as portas da sua edificação centenária

Tempo de leitura: 10 minutos

No prédio branco da Rua Berggasse 19, em Viena, Áustria, Sigmund Freud morou e atendeu seus pacientes por 47 anos, até precisar fugir do nazismo para viver seus últimos meses em Londres. Em meados de maio de 2026, experimentei uma conexão indescritível ao entrar fisicamente na vida e na obra do pai da psicanálise. Estar na presença de seus óculos, seus manuscritos, seus cartões de visita, seus móveis e dos bibelôs de suas tão estimadas coleções mexeu profundamente comigo.

Poucas semanas depois, tive uma experiência parecida ao entrar, mais uma vez, no Museu do Porto, um casarão amarelo de dois andares no bairro do Macuco, em Santos.

Algumas casas são mais do que paredes, portas, janelas e telhados. Seus habitantes criam teorias e escrevem obras que transformam a sociedade. As vozes que percorrem seus cômodos traçam planos e definem rumos de cidades e países inteiros.

Museu do Porto de Santos, um edifício histórico amarelo com barco de madeira e locomotiva antiga em primeiro plano sob céu nublado.

Conheci o Museu do Porto em algum momento por volta de 2008. Era repórter em um jornal diário e nunca havia entrado nesse espaço. Para dizer a verdade, nem sabia que ele existia até o momento em que recebi a incumbência de revelá-lo em texto e foto em um certo dia de janeiro, como uma dica de atração para as férias de verão. Lembro-me nitidamente de ter ficado impactada com o que encontrei lá.

E, desde então, quase 20 anos depois, me pergunto: por que esse lugar não faz parte dos roteiros culturais de santistas e turistas?

Em qualquer cidade europeia, o Museu do Porto teria muito mais fama do que à beira do nosso cais.

A gente vê o porto, mas não vive o porto

O fato é que o porto não está no nosso repertório afetivo do mesmo jeito que a praia, o bonde ou o café.

Talvez porque, durante décadas, muita gente tenha aprendido a olhar para para esse gigante como um território fechado, técnico, de trabalho duro, números superlativos e acesso restrito. Um mundo à parte e de costas para a cidade.

O santista cresce ouvindo falar da importância do maior porto da América Latina, como gostamos de sempre enfatizar, mas sem entender de fato como ele funciona, quem o construiu, quais lutas passaram por ali e de que forma ele atravessa nossa rotina.

Vista de uma escadaria de madeira escura com balaústres descendo para um salão de museu com obras de arte e chão listrado.

Minha mais recente visita ao Museu do Porto, em julho de 2026, me causou arrepios em vários momentos, assim como senti na casa de Freud, em Viena. Os atos de subir as escadas centenárias de madeira ou descer ao porão me levaram a uma jornada mais emotiva do que pedagógica. Do mesmo jeito que me interesso pela psicanálise, sou uma grande apaixonada por Santos e por tudo o que diz respeito a esse lugar.

Instalado em um casarão de 1902, o Museu do Porto de Santos fica na Rua Rodrigues Alves, ao lado da Autoridade Portuária de Santos e na vizinhança onde será a futura travessia do túnel Santos-Guarujá.

Entre as 37 autoridades portuárias no Brasil, apenas a de Santos mantém um espaço de memória institucionalizado.

Em junho de 2026, o Museu do Porto ganhou o Travellers’ Choice 2026, prêmio do Tripadvisor concedido às atrações mais bem avaliadas do mundo. Ele está entre as 10% melhores atividades e atrações globais da plataforma de turismo, com uma média de 4,8 estrelas, segundo os próprios visitantes. É a número 1 entre 145 coisas para fazer em Santos.

No Google, há mais de 1.000 avaliações com uma média de 5 estrelas – a maioria delas se refere à hospitalidade e ao conhecimento dos guias que mediam as visitas.

Interior de um museu marítimo com leme de navio, bóia salva-vidas e lanternas antigas em ambiente clássico.

Esses reconhecimentos têm ainda mais significado para um espaço praticamente desconhecido na cidade. Exceto para quem trabalha com porto, turismo, história ou educação, o Museu do Porto continua sendo uma espécie de tesouro escondido que, uma vez revelado, nos leva direto para o centro da formação econômica, urbana e cultural da cidade.

Não há como cravar categoricamente os motivos dessa invisibilidade.

Pode ser o histórico de reformas. A última deixou o equipamento fechado entre 2023 e 2025.

Também pesa o fato de ele estar fora do circuito turístico mais óbvio de Santos. Não fica na orla da praia nem no Centro Histórico, onde se concentra a maior parte dos museus.

E, para muita gente, ainda existe uma barreira física que diz respeito a tudo o que envolve o porto. Aquele lugar não é nosso, pensamos.

O museu é, justamente, uma das melhores ferramentas para mostrar o contrário: que o porto também é ambiente de cultura e pertencimento.

Ler o Brasil a partir de Santos

O imóvel que hoje abriga o Museu do Porto de Santos está ligado diretamente à formação do próprio porto, à elite técnica que o administrava e à modernização do município.

Quase 20 anos antes de Santos chegar à sua época áurea do café, o prédio traduz a fase em que o porto deixava de ser apenas uma insalubre área operacional e se tornava paisagem definitiva no nosso horizonte. No Macuco, ainda não havia nada quando ele surgiu. O porto organizado cresceu para lá apenas depois.

Sua arquitetura dialoga com a fase em que Santos se urbanizava rapidamente por causa do porto. Isso ajuda a explicar por que o prédio também representa um objeto histórico em si.

Construída entre 1902 e 1906 e projetada por Guilherme Benjamin Weinschenck, um dos pioneiros da engenharia brasileira no início do século e patrono da cadeira 87 da Academia Nacional de Engenharia, a casa de estilo vitoriano e com influências da França, Inglaterra e Suiça tem materiais importados europeus, como telhas, madeiras e grades. Ela já nasceu com soluções, tanto funcionais quanto estéticas, consideradas vanguardistas para a época, como porões pensados para lidar com enchentes e uma varanda com vista para o estuário.

Esse período de renovação urbana marcou a realocação das famílias mais abastadas, que deixaram os sobrados no Centro de Santos para residir em palacetes em novos bairros.

Carioca com ascendência alemã, Weinschenck foi o responsável pelas obras do Cais de Santos e pelo projeto da Usina Hidrelétrica de Itatinga, em Bertioga.

Contratado pelos empresários Cândido Gaffrée e Eduardo Palassin Guinle, ele partiu do “zero” em um terreno de mangues e lodo para fazer o assentamento da primeira “caixa” das docas santistas, com 2.400 metros cúbicos de concreto, instalada entre os armazéns 4 e 5, em 1890.

Em Bertioga, em meio à Mata Atlântica, construiu uma hidrelétrica que funciona até hoje. Conseguiu antever, há mais de 100 anos, o quanto seria importante que a energia elétrica movimentasse as máquinas do novo complexo portuário.

Mas, para além disso, sua perspicácia e suas habilidades técnicas ajudaram a conceber uma verdadeira cidade paralela para suportar a nascente atividade portuária em Santos.

Exposição de escritório histórico com mesa de madeira, telefone vintage, luminária e retratos de ex-diretores. Duas bandeiras flanqueiam uma cadeira.

Com 870 metros quadrados de área, o casarão de Weinschenck serviu de moradia para vários dirigentes portuários. O primeiro morador, em 1902, foi Ismael de Souza, inspetor-geral da Cia. Docas. De acordo com registros, o próprio Weinschenck chegou a se hospedar ali.

Em 1946, a casa passou a funcionar como escritório administrativo da Companhia Docas de Santos.

Uma comissão formada a partir de 1985 por trabalhadores portuários começou o movimento de transformá-la em centro de memória. Como Museu do Porto, o imóvel foi adaptado e entregue em 1º de setembro de 1989, com a ajuda da então prefeita Telma de Souza.

Antiga máquina industrial amarela e verde em primeiro plano, com diversas ferramentas e maquinário de oficina ao fundo.

O acervo atual do Museu do Porto conta com documentos, fotografias, instrumentos náuticos, máquinas, peças históricas e outros objetos ligados à construção e à operação portuária, espalhados em 20 salas.

O item mais antigo data de 1888: é o livro Folha de Pagamentos, da Guinle e Companhia.

A exposição se organiza em núcleos temáticos como evolução do porto, operação portuária, engenharia, ferrovias, segurança e medicina do trabalho, construindo uma narrativa do porto como uma engrenagem urbana, técnica e humana da Baixada Santista e do país.

Barreto, o guardião

Se o Museu do Porto hoje é uma interface entre pessoas, cidade e porto, precisamos agradecer a Antônio Carlos da Mata Barreto.

Um dos “pais” do patrimônio de mais de 2.000 peças em exibição, o engenheiro guardou documentos da Cia. Docas em um tempo em que a conservação não era prioridade. Na própria coleção, é possível encontrar livros um pouco chamuscados ou fotos desbotadas, ainda que essenciais e indispensáveis em seu papel histórico.

Exposição de níveis topográficos antigos e vintage em prateleira de madeira, incluindo um instrumento de latão e modelos Carlzeiss-Jema.

Outra parte importante do imaginário construído entre navios e cargas foram as lutas trabalhistas em Santos, um capítulo decisivo para entender a cidade e o país.

O gesto de Barreto foi fundamental para a formação do Museu do Porto em seu papel de memória, e não apenas como uma construção antiga ou vitrine de objetos.

Vale mencionar aqui que essa preservação se fez também pela oralidade e pelo senso de pertencimento entre os trabalhadores, pois os “doqueiros” de antigamente sempre foram algo próximo de uma família.

Banheiro vintage com banheira, chuveiro, pia, vaso sanitário, piso de ladrilhos decorados e esquadrias de madeira.

Para além dos itens náuticos, é bonito demais ver imagens que registram aniversários de família comemorados na casa, roupas de bebês que nasceram naquela época, telefones antigos, caricaturas e campanhas publicitárias dos antigos jornais do porto, mapas de toda sorte e até mesmo o antigo banheiro completo da habitação, cuidadosamente preservado.

Memórias entre navios e cargas

Uma das “almas” do museu hoje é Jorge Valias de Souza, encarregado da equipe de guias.

Homem de perfil com barba e óculos apontando para uma estante de madeira iluminada com objetos antigos e fotos em preto e branco.

Conversar com ele não é apenas uma aula de porto. Ele consegue dar vida a um assunto que poderia facilmente se tornar técnico ou chato demais.

Foi o empenho de Souza que tornou realidade a mais nova sala do acervo, que mostra personagens negros importantes para a história de Santos e do seu porto, como Luiz Gama e Anísio José da Costa. Há um livro com os nomes de todas as pessoas escravizadas que faleceram em Santos, que pode ser consultado na visita.

O time de Souiza é quem recebe os cerca de 3 mil visitantes por mês no Museu do Porto, entre brasileiros e estrangeiros. E, para essas pessoas, provavelmente o maior encanto do local esteja menos na ideia de visita formal e mais no carinho e respeito com o qual os monitores tratam tudo o que existe lá.

Para enfrentar um dos maiores desafios do equipamento – a sensação de distância entre o santista/turista e o porto -, criou-se o projeto Passaporto. Em janeiro de 2026, a Autoridade Portuária começou a organizar um passeio de barco gratuito pelo canal do porto, que se inicia com uma visita pelo acervo. Criado como ação pontual, fez tanto sucesso que acabou ganhando outras edições, sempre com turmas lotadas.

Se você nunca foi ao Museu do Porto, pode estar perdendo a chance de conhecer uma das atrações mais bem avaliadas do mundo bem aqui, no nosso quintal. E de graça.

As portas do casarão amarelo estão abertas e prontas para nos aproximar das origens que sempre estiveram ali.

O Museu do Porto de Santos fica na Rua Rodrigues Alves, s/n, Macuco. Funciona de segunda-feira a sábado, das 9 às 17 horas. A entrada é gratuita.

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