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Três mulheres santistas podem ajudar a reduzir a pena de Bolsonaro

Saiba quem são as autoras na lista de obras que ajudaria o ex-presidente a abater dias de seu tempo na prisão

Tempo de leitura: 5 minutos

Sob o zumbido do ar-condicionado, longe da cacofonia da tela de uma Smart TV, o ambiente calmo convida a um tipo específico de evolução cognitiva, que não a digital, mas a silenciosa intimidade com a página impressa.

Basta se desprender do WhatsApp para mergulhar no que a neurociência chama de plasticidade mental e o que os puristas chamam de cheiro de papel fresco. Para muita gente, a leitura é um prazer estético ou intelectual, mas, dentro das fronteiras do sistema carcerário brasileiro, ela ganha uma utilidade transacional.

Desde 2013, o Brasil opera sob uma lógica que poderia ter saído de um rodapé de Foucault: a remição da pena pela leitura. A mecânica é elegante: leia um livro, produza uma resenha de qualidade e o Estado lhe entrega quatro dias de liberdade.

Um triunvirato de mulheres santistas, escritoras consagradas, pode ajudar Jair Messias Bolsonaro na redução de sua pena.

www.juicysantos.com.br - Três mulheres santistas podem ajudar a reduzir a pena de BolsonaroFoto: Fábio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

São elas a filósofa Djamila Ribeiro, a jornalista Adriana Carranca e a escritora Maria Valéria Rezende

Com suas quatro obras, elas poderiam ajudar o ex-capitão a abater dezesseis dias de sua pena. Há uma ironia espreitando essa lista com a seguinte a cena: imagine o ex-presidente, em sua cela, debruçado sobre a prosa feminista e social dessas três mulheres. A liberdade de um homem ultraconservador rearranjada com a leitura de temas e mulheres que ele passou a vida tentando silenciar.

Quem são elas? 

Djamila Ribeiro, figura na lista com dois livros. A obra Cartas para a minha avó, traz uma narrativa intimista e emotiva, criando uma ponte entre o pessoal e o político. Djamila reflete sobre como as vivências de sua avó Antônia, e de outras mulheres da família, ajudaram a moldar sua própria consciência sobre raça, gênero e classe social no Brasil.

Já o Pequeno Manual Antirracista, premiado e com mais de meio milhão de cópias vendidas, é uma leitura primordial para qualquer pessoa branca. O livro oferece ferramentas práticas para que as pessoas possam identificar e confrontar o racismo em suas próprias vidas e na sociedade, ou seja, não basta não ser racista; é preciso ser ativamente antirracista. Djamila argumenta que o combate ao racismo exige mudanças de comportamento tanto individuais quanto coletivas. 

Já o livro de Adriana Carranca apresenta a história de Malala Yousafzai, a jovem paquistanesa que se tornou símbolo mundial da luta pelo direito à educação. A obra Malala: A Menina Que Queria Ir para a Escola, destaca a coragem e determinação de uma jovem mulher mesmo diante de ameaças extremas.

Por fim, Maria Valéria Rezende é uma escritora e educadora, ganhadora do Prêmio Jabuti, que embora tenha vivido muito tempo na Paraíba, nasceu em Santos. Em Quarenta Dias, a autora narra a história de Alice, uma professora aposentada que viaja de Porto Alegre para o interior do Nordeste em busca de um jovem desaparecido. A narrativa revela camadas de abandono, migração, desigualdade e a invisibilidade dos mais vulneráveis.

Essas obras operam um deslocamento e convocam leitores a uma postura ativa de transformação. 

Se anteriormente tivesse lido Djamila, o ex-presidente talvez nunca teria dito, ao visitar uma comunidade quilombola, que “o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas”.

Se anteriormente tivesse lido Adriana, talvez não teria afirmado que estudantes manifestantes são “inocentes úteis”.

Ou mesmo, ao ler Maria Valéria, pensaria com maior cuidado antes de dizer: “Chega de frescura, de mimimi. Vão ficar chorando até quando?”

Resta saber qual transformação de si próprio Bolsonaro priorizaria. 

E o que mais Bolsonaro poderia ler para passar o tempo?

Caso a sensibilidade do ex-capitão exija uma bibliografia mais rica em testosterona, evitando assim o desconforto de depender de mulheres para sua redenção penal, ele também poderia recorrer a outros santistas, como Pedro Bandeira e sua obra Alice no País da Mentira. A leitura deixaria de ser uma fábula infantil para se tornar um espelho.

Há também José Roberto Torero, cujas obras como João e os 10 Pés de Feijão, Terra Papagalli e Uma História de Futebol oferecem o tipo de narrativa que agrada às multidões. 

Bolsonaro também poderia revisitar a geografia de sua própria infância em Eldorado Paulista, no Vale do Ribeira, através do espectro Marcelo Rubens Paiva, que não nasceu em Santos mas menciona a cidade em suas obras e está presente na lista com Feliz Ano Velho e Ainda Estou Aqui.

Marcelo, filho de Rubens Paiva, é o deputado desaparecido pela ditadura que o ex-presidente tanto louvou.

A leitura de obras contrastantes com seus próprios valores, o barulho do ar-condicionado ou mesmo o desconforto da presença em uma cela ao fim da vida, pode ser, erroneamente chamado de tortura.

Para vítimas como Rubens Paiva, a tortura não foi uma inconveniência: foi o fim de tudo. Usar esse termo é tentativa de diluir a memória das verdadeiras vítimas na banalidade do ressentimento pessoal.

Que o sistema penal ofereça a Bolsonaro o acesso a obras de tamanha magnitude moral é uma prova de que, no Brasil, a literatura e o conhecimento de histórias, ainda pode ser uma última trincheira cognitiva, mesmo para quem já disse que livros didáticos tem “muita coisa escrita”.

Porque ler sem permuta é rejeitar a distinção entre sobreviver a um sistema e aprender para viver. Que possamos, então, abrir um livro sem precisar abater um dia sequer.

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