Com Netão, Santos tem, pela segunda vez consecutiva, o maior CreativeMornings do mundo
Desta vez, dentro do auditório da São Judas Unimonte. E o Netão Bom Beef mostrou por que brasa é diferente de chama.
Abril é o mês mundial da criatividade. Santos não deixa para celebrar somente em um dia Porque, para a cidade, todo mês tem sido assim.
Depois de um evento lotado na orla da praia em março, Santos sediou o maior CreativeMornings do mundo. Cerca de 300 pessoas ocuparam o auditório da São Judas Unimonte, na Vila Mathias, na manhã de sexta-feira (17 de abril), para ouvir Domingos Neto, o Netão Bom Beef, contar como saiu de entregador de bicicleta em um açougue de bairro para se tornar a 8ª personalidade mais influente do churrasco no planeta.
Foto: Yara Tomei
O tema global de abril era “Brasa”. Difícil encontrar representante mais certeiro.
Do açougue do tio ao Top 10 mundial
Netão começou a história do jeito que as boas histórias costumam começar: mais cedo do que o esperado. Aos 6 anos, frequentava o açougue da família. Aos 7, já tinha decidido o que queria ser quando crescesse. Quando escreveu “açougueiro” na redação do colégio, a escola chamou os pais.
Ele não mudou de ideia.
Aos 16 anos, saiu de casa para trabalhar. Fez de tudo ao mesmo tempo: açougue de dia, pizzaria à noite, balada nos fins de semana. A conta não fechava, mas o aprendizado era silencioso e constante. Quando alguém na balada notou seu carisma e sugeriu trabalhar em navios de cruzeiro, ele foi. Não pelo dinheiro, mas pelo que trouxe de volta: conhecimento de cortes, técnicas de grelha e uma visão de mercado que poucos açougueiros brasileiros tinham.
Voltou para Santos, comprou um açougue de bairro falido, que faturava menos de R$ 1.000 por dia, e rebatizou o espaço como Bom Beef.
O que veio depois é história conhecida, mas ouvir da boca dele tem um peso diferente.
A brasa que o Instagram acendeu
Quando nenhum cliente conhecia Prime Rib, Short Rib ou Flat Iron, Netão foi às redes sociais explicar. Migrou do Facebook para o Instagram quando percebeu onde estava o público de maior renda. Na época, empresas locais praticamente não existiam na plataforma.
Ele entrou. E ensinou.
“O Instagram é o mural da história do seu negócio”, disse ele ao público.
Assim, usou a rede como máquina de aquisição, mas focou no tempo que o cliente fica com a marca. A lógica era simples e difícil ao mesmo tempo: a experiência real precisa superar o marketing. Portanto, quando o padrão caía, ele parava de divulgar o produto até corrigir o problema.
A primeira grande virada veio com o programa Barbecue Brasil, no SBT. Netão identificou um participante de Santos, enviou carnes, e a produção em São Paulo começou a pedir mais. Em 2017, 50% do faturamento já vinha de fora da cidade.
Contudo, ele nunca deixou de morar aqui.
Inovar ou estagnar: a Curva S de quem não para
Um dos momentos mais ricos da palestra foi quando Netão apresentou o conceito que guia o crescimento do Grupo Bom Beef: a Curva S da inovação. Todo negócio estagna se não se reinventa. Assim, na rede Bom Beef Burgers, lançamentos mensais são rotina.
O hambúrguer “bem passado”, lançado no momento certo de maturidade operacional, aumentou o faturamento em 20%. O vegetariano adicionou mais 12%. O de Wagyu, mais 16%. Cada lançamento é planejado com escassez, urgência e apoio de cerca de 200 influenciadores por mês.
“O que faz crescer todo dia é a consistência e a inovação constante”, resumiu.
Quem estava lá
O auditório da São Judas não estava cheio de especialistas em churrasco, e sim repleto de pessoas comuns que saíram de uma sexta-feira de manhã com algo concreto na cabeça. Três delas contaram o que levaram.
A designer que quer virar empreendedora
Marina Pestana, 42 anos, santista de raiz, chegou ao CreativeMornings pela primeira vez. Sempre trabalhou em São Paulo e nunca conseguia encaixar o evento na agenda. Desta vez, deu certo.
Designer e estilista, ela está em transição: saindo do papel de representante comercial para lançar a própria marca. E foi exatamente isso que a palestra de Netão tocou.
“Acredito muito que o regional é a grande inovação. Saí daqui com a cabeça muito efervescente, depois de conhecer tanta gente maravilhosa.”
Para Marina, a história de Netão não é só sobre churrasco, mas ter coragem de apostar no que é local, no que é seu, antes que alguém de fora chegue para fazer por você.
O estudante de gastronomia no primeiro semestre
Nicolas Peixoto tem 18 anos e cursa gastronomia na própria São Judas Unimonte, onde o evento aconteceu. Era seu primeiro CreativeMornings, e foi por incentivo dos professores.
Saiu com mais do que esperava.
“Minhas expectativas foram além do que eu esperava. Foi muito esclarecedor, principalmente por trazer alguém que trabalha na área do meu curso.”
O que ficou na cabeça? A coragem de entrar em um espaço que ainda não existia.
“Ele entrou muito novo em uma seara onde não havia perfis de açougues nas redes. Isso me inspira a me desafiar e a sair da zona de conforto.”
Nicolas está no começo. E saiu do evento sabendo que começar cedo, com consistência, não é desvantagem. É exatamente o caminho.
A estudante de enfermagem que aprendeu sobre inovação
Amanda Oliveira Moreira, 19 anos, cursa enfermagem na São Judas e já faz estágio. Ela já conhecia o trabalho de Netão antes do evento, mas ouvir a trajetória completa foi diferente.
“Gostei muito de saber como tudo aconteceu de fato. Como ele evoluiu na marca dele, passo a passo.”
Uma frase, porém, ficou marcada de um jeito particular.
“Ele falou que é sempre importante inovar. Isso me pegou muito, porque eu tenho um pouco de dificuldade com isso. Ele me ensinou que você precisa estar em mudança constante para chegar onde quer.”
Amanda também levou a relação de Netão com a pressão familiar.
“Se os pais sempre colocaram muita pressão nele, e isso de certa forma foi bom, eu levo isso para minha vida, porque acontece o mesmo comigo.”
Santos como matriz, não como cenário
Na abertura, Ludmilla Rossi, host do CreativeMornings Santos e CEO do Juicyhub, destacou algo que o auditório recebeu com aplauso espontâneo.
“Há muitos ‘gurus’ que dizem ser de Santos, mas só aparecem aqui para buscar dinheiro. O Netão não. Ele mora aqui, está aqui, e sua matriz é aqui.”
Além disso, Ludmilla anunciou que o evento superou a audiência da edição da Concha Acústica do mês anterior, que já havia sido o maior CreativeMornings do mundo em março. Santos segue no topo do ranking global, em uma rede que conecta 252 cidades em 170 países.

O CreativeMornings Santos tem, portanto, uma consistência que começa a parecer uma declaração política: a cidade existe, tem gente de qualidade e não precisa ir a São Paulo para provar isso.
A comunidade que viabiliza o gratuito
Eventos assim não acontecem por acaso. O CreativeMornings Santos existe com café da manhã gratuito e acessibilidade em Libras porque uma rede de parceiros acredita na ideia antes de ver resultado.
A São Judas Unimonte sediou o evento e comemorou os 55 anos de história em Santos. O reitor Guilherme Daflon resumiu a parceria com o Juicyhub em uma frase direta.
“Nossos valores convergem: queremos transformar através de diversidade, inclusão e empreendedorismo.”
A SB7 Som e Luz, representada por Brenno Lucena, renovou o contrato como mantenedora do Juicyhub e anunciou durante o evento. A Rede Krill assinou o coffee da manhã e distribuiu cestas de produtos de marca própria no encerramento. A Adobe, parceira global do CreativeMornings e mantenedora do Juicyhub, viabiliza a tecnologia de cadastro e divulgação em todas as 252 cidades da rede.
Santos, pelo segundo mês, é a maior do mundo
Em 252 cidades, em 170 países, nenhuma reuniu mais gente do que Santos neste mês de abril.
A pergunta que fica não é retórica: se a maior comunidade criativa do mundo se encontra toda mês de manhã de sexta, aqui na Baixada, o que mais essa cidade é capaz de construir quando acredita no que tem?
A brasa já está acesa. Cabe a cada um manter o fogo ardendo.