Texto porSuzane G. Frutuoso

Sempre existirão memórias para começar

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Muitos lugares em Santos mudaram nos últimos anos. Seja de lugar ou de características.

Boa parte dessas transformações foram para melhor. Outras, tenho cá minhas dúvidas…

Como é o natural nas modificações urbanas, algumas levam junto nossas memórias.

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Uma das minhas, por exemplo, é a escadaria da Facos, a Faculdade de Comunicação Social da UniSantos, que ficava na Euclides da Cunha.

Ali eu cursei jornalismo, assim como meu irmão. Tenho até hoje a clássica foto da minha turma, todos sentados naqueles degraus, imagem que se repetiu na vida de muitos alunos que por ali passaram. Até o prédio ser demolido e dar espaço a um condomínio residencial.

Antes, no então segundo grau, eu já subia e descia aquela escada quando estudava no Liceu Santista, cujo prédio era ao lado.

Foto: Allan Nóbrega

Minha história na escadaria da Facos, no entanto, começou mais cedo do que vocês imaginam. Ainda na barriga da minha mãe, que estudou na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, a Fafis. Ela, assim como eu e meu irmão, por tantas vezes também por esses degraus passou.

Formada, minha mãe se tornou professora da faculdade. E lá estava eu, subindo a escadaria de mãos dadas com meu pai, desde bem pequena, quando a gente ia buscar a mãe depois da aula.

Por algum motivo que nem sei bem explicar, eu andava super animada pelos corredores, tanto da Facos, quanto do Liceu (que à noite era utilizado para os cursos superiores). Sem esquecer o casarão da Fafis, lindo demais.

Escola de adulto

Era diferentão pra mim essa coisa de adulto também ir para um tipo de escola. Meus olhos brilhando, observadores, encaravam todos que cruzavam meu caminho. E a fofurice infantil me rendia muito giz de lousa colorido de presente dos outros professores.

Décadas depois, há um mês, foi minha vez de subir outras escadas. Também de uma faculdade. Também no papel que por tantos anos vi a mãe exercer com amor e maestria.

Eu sempre quis dar aula. Na faculdade já sabia que faria mestrado. Desde quando há esse desejo? Não sei exatamente… Talvez tenha sido o giz colorido de presente?

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O que eu entendia na mãe, nas minhas tias que também são professoras, nos professores que foram tão essenciais nas minhas conquistas acadêmicas e profissionais, era essa capacidade de fazer a diferença no futuro de alguém. De ajudar esse alguém a realizar o sonho do diploma, do conhecimento, da formatura, de ampliar as próprias possibilidades e oportunidades.

Queria essa capacidade bonita pra mim…

Defendi o mestrado em 2014, mas acabei indo trabalhar em uma agência de comunicação corporativa, ao invés de aceitar dar aula, porque o jornalismo vinha mudando muito. Algo me dizia que a experiência com a comunicação estratégica para empresas seria importante.

Guardei por mais um tempo o ser docente. Criei com uma das minhas melhores amigas justamente uma consultoria de comunicação estratégica e inteligência de mercado. E foi nessa época que me tornei também palestrante e mentora. Que aprendi a aplicar workshops, que não deixam de ser aulas.

Tudo tem seu tempo

No déjà vu que me levou à imagem feliz da minha mãe envolta por uma energia especial, subindo as escadas, cumprimentando alunos e professores quando eu repetia naquele momento cena idêntica, ficou claro como nossos caminhos também têm período de maturação.

Sempre chega o dia em que estamos finalmente prontos, inclusive para aprender além de ensinar. É quando finalmente existirão novas memórias para começar.

Suzane é santista e cofundadora da plataforma Mulheres Ágeis e da consultoria ComunicaMAG. É jornalista, mestre em sociologia, escritora e professora. É autora no blog Fale Ao Mundo e lançou o livro “Tem Dia Que Dói – mas não precisa doer todo dia e nem o dia todo”. Mãe orgulhosa da viralatinha Charlotte.