Texto porSuzane G. Frutuoso

Apesar de tudo, leve o Carnaval na alma todos os dias

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Eu nasci em um sábado de Carnaval, com um bloco passando na frente do hospital Ana Costa bem na hora que minha mãe colocou os olhos em mim.

Comecei a frequentar a matinê da festa de Momo do Clube de Regatas Beira Mar, em São Vicente, com as minha tias aos 2 aninhos, vestida de fadinha. De lá pra cá, foram muitos e felizes carnavais.

Muito confete e serpentina. Algumas horas da infância vidrada assistindo o desfile de fantasias – categorias luxo e originalidade – da extinta TV Manchete. A tia Márcia tirando minhas medidas para criar, mais uma vez, meu figurino que ela fazia se tornar espetacular.

Fui rumbeira, odalisca, baiana, havaiana, melindrosa, grega e (a que eu mais amei) She-ra. Adulta, andei me convertendo ao sereismo.

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Já desfilei nas campeãs de São Paulo e já cobri a primeira noite inteira de desfiles no Anhembi quando era repórter no Jornal da Tarde. Também teve bloquinhos, muitos bloquinhos, no Rio e na capital paulista. Fiquei com os olhos marejados quando vi de perto os bonecos gigantes e ouvi ao vivo a Orquestra de Frevo de Olinda na folia de 2018.

Enquanto escrevo este texto para vocês, ouço não muito ao longe clássicas marchinhas que animam moradores e visitantes de uma cidadezinha do interior onde meus pais têm um apê. Aqui do terraço, espio volta e meia lá embaixo numa tarde de terça de Carnaval meninas e meninos com as mais graciosas e fofas fantasias. Lá vai uma fadinha, como um dia eu fui.

Só brinquei um pouquinho a folia esse ano, no domingo à tarde, para não passar em branco. Precisei do feriado para me preparar para possibilidades que, bonitamente, se abriram nos dias seguintes. Queria também um tempo precioso com o meu pai, que há muito a gente não tinha juntos – e ainda me dar bem com ele comprando pasteis pra mim como quando eu era criança.

Mesmo não caindo na folia, ver as pessoas fantasiadas, o espetáculo das escolas de samba na TV, gente pulando nas ruas me dá sempre uma sensação boa de leveza, de alegria no ar. E em um início de ano com tantas tristezas coletivas profundas e em tão pouco tempo foi quase uma permissão pra se sorrir de novo. O Carnaval não resolve nossos problemas. Nunca resolveu. Mas ajuda a gente a lembrar que também estamos aqui para a felicidade.

Apesar de tudo, leve “carnaval” na alma todos os dias, na medida do possível. Coloque cor e brilho, como os das fantasias, na maneira como você trata quem segue a jornada com você. Porque tem uma parte da caminhada que é difícil mesmo. Em algum momento, dói pra todo mundo, por diferentes motivos.

Então, se abasteça o máximo que puder da alegria para ficar forte diante do inesperado ou do que já se anunciava (e você só não queria ver). Pra lembrar de como ela é quando chegam as tais tristezas e querer seguir novamente em sua direção. E em frente.

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Suzane é santista e cofundadora da plataforma Mulheres Ágeis e da consultoria ComunicaMAG. É jornalista, mestre em sociologia, professora e escritora. Autora do livro “Tem Dia Que Dói – mas não precisa doer todo dia e nem o dia todo”. Mãe orgulhosa da viralatinha Charlotte.