Texto porSuzane G. Frutuoso

As verdades que ninguém te conta sobre o empreendedorismo

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Há quase um ano e meio, eu embarquei no mundo do empreendedorismo.

Diria que fiz um trajeto bem certinho: pesquisei antes a área, validei minha ideia de negócio, fiz uma reserva financeira para manter as contas em dia até o trabalho deslanchar…

Deu tão certo que me senti de boa em criar não um, mas dois negócios. Eu aguentava o tranco, claro! E não estava sozinha. Tinha minha sócia, também minha amiga, e a jornada não seria um sem fim de decisões solitárias.

Cá entre nós: já tinha cortado um dobrado trabalhando para os outros. Não seria um desafio maior
empreender.

empreendedorismo-verdadeFoto: Brooke Lark para Unsplash

Só esqueci de pensar em um detalhe: o custo emocional.

E tudo o que eu vinha sentindo nas últimas semanas ganhou essa exata definição quando li o texto da Ana Carolina Bavon, santista e fundadora da Feminaria, consultoria de planejamento estratégico para empreendedoras. Mulherão que eu super admiro e cujo poder de oratória eu sonho um dia chegar aos pés. Segue um trecho:

“O custo financeiro é mensurável, e ele certamente será considerado de forma bastante estreita no seu plano de negócios quando for especificar o planejamento financeiro (…) Pode respirar aliviada – o custo pode ser bastante previsível. Acontece que quase nunca falamos sobre um certo custo imaterial de empreender, que é indubitavelmente o mais importante a considerar. Estamos falando aqui do seu capital emocional. Empreender requer muita inteligência emocional e um comprometimento tão grande quanto a sua vontade de fazer dar certo. No início, você provavelmente trabalhará mais horas do que está acostumada, além de precisar desenvolver habilidades que desconhecia. Tudo isso vai atingir diretamente o seu capital emocional.”

Saí espalhando o texto para todas as amigas empreendedoras. Redes sociais, e-mails, lendo em voz alta por telefone… Porque, gente, nossa emoção no meio de tudo isso é importante!

Não dá pra racionalizar o tempo todo. Tem pressão por resultados. Tem frustração. Tem flutuações de mercado. Tem quem ache o seu trabalho tão fácil, mas tão fácil, que nem precisa pagar direito, vai?

Há solidão, de qualquer forma, porque algumas iniciativas e escolhas acabam sendo somente nossas mesmo, que atingem também a vida pessoal.

Quase ao mesmo tempo em que li esse texto da Ana, soube de uma amiga que empreende e entrou em depressão. Uma outra está com problemas de saúde, claramente ligados ao estresse, depende do SUS e não consegue fazer um único exame. Acaba ainda mais preocupada e se sentindo mal; a produtividade cai, ela assume menos projetos e há impacto direto no quanto ganha no fim do mês.

Quero desistir de empreender? Não. Nem de longe. Mas nesse furacão maravilhoso que foi se tornando o empreendedorismo feminino no Brasil, que mostra que sim, você pode/deve/consegue criar do zero uma empresa, tem gente esquecendo que se não cuidar da cabeça as influências no cotidiano são devastadoras.

E que além de se unir para incentivar a mulherada a colocar a mão na massa e fazer networking, precisa acolher mais.

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Aí, eu apresento a vocês as minhas queridas #Sofias!

Em outubro do ano passado, a jornalista Carmem Sanches, colega dos tempos da faculdade, conversou comigo sobre como curtia o trabalho que eu vinha fazendo e que adoraria criar um grupo de mulheres em Praia Grande, onde ela mora e meus pais também, para falar de questões femininas.

Organizamos um café no salão de festas de uma das participantes e cada uma levou uma coisinha gostosa pra comer. Fizemos uma roda e… foi emocionante. Desde o primeiro dia, teve acolhimento, compreensão, reconhecimento nas histórias umas das outras. Teve sororidade, uma das palavras do momento que significa “união ou aliança entre mulheres”.

Foram 5 horas de conversa. Cinco! Teve choro, risada e um alívio de quem se sente apoiada e entendida.

Como muitas já empreendiam e outras querem empreender ou sabem quão importante é apoiar mulheres que empreendem, nasceu o grupo Empreendedoras de Sofia. O significado de Sofia é sabedoria, conhecimento – além de ser uma delicadeza de tão sonoro, né?

Nos encontramos uma vez por mês no bairro da Guilhermina para discutir temas em geral pertinentes ao feminino, trocamos ideias e dúvidas sobre o andamento de nossos negócios, trazemos diferentes leituras, dinâmicas… Cada uma colaborando um pouquinho para crescer bastante em autoestima e iniciativa.

Também próximo ao dia em que li o texto da Ana, trocamos entre Sofias audios de Whatsapp de “muito obrigada”, “que bom ter esse grupo”, “como vocês se tornaram especiais pra mim”.

Virou impulso, inspiração, criatividade pra todas nós. E amizade, abraços apertados sempre, astral rodando alto apesar dos desafios que cada uma vem enfrentando. Que coisa tão especial.

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Gente, existem outros grupos bem legais na região para essa troca de experiências entre mulheres que empreendem aqui na Baixada Santista. Não deixem de participar! Cito aqui o Amigas Empreendedoras da Baixada Santista, Empreendedoras 013 e Pitacos (comandando pela Flavinha Saad, aqui do Juicy Santos, que é dedicado especialmente às mães empreendedoras).

Ganhar dinheiro, independência, conseguir se manter trabalhando com algo que a gente criou e curte muito, se tornar conhecida por um talento… Tudo isso o empreendedorismo feminino traz, sim. De passinho em passinho, com resiliência e planejamento. Mas não esqueça de cuidar bem do seu capital emocional – melhor com o apoio de quem está no mesmo barco e se conecta com nossa história.

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Suzane é santista e cofundadora da plataforma Mulheres Ágeis e da consultoria ComunicaMAG. É jornalista, mestre em sociologia e escritora. É autora no blog Fale Ao Mundo e lançou o livro “Tem Dia Que Dói – mas não precisa doer todo dia e nem o dia todo”. Mãe orgulhosa da viralatinha Charlotte.