Victória Silva
Texto porVictória Silva
Jornalista, 24 anos - Santos

Parar de fumar na pandemia é questão de saúde pública – entenda o porquê

Naqueles anos, fumar era sinônimo de sucesso.

O cigarro estava nos filmes, nas propagandas de TV, nas revistas e até nas lojas de guloseimas -em uma versão de chocolate, para os pequenos brincarem de ser gente grande. Fumar era ‘cool’ e ser descolada era tudo que a jovem Suzana Azar queria. Queria tanto que, aos 15 anos, tragou um cigarro pela primeira vez.

Ali estava sua oportunidade de finalmente pertencer a um grupo.

Nos tragos atrás da capela da escola, a timidez se transformava em poder. A insegurança trazida pelo bullying era reduzida a fumaça.

De repente o cigarro se tornou seu lugar no mundo

Tanto que, mais de uma década depois, a jornalista não conseguiu largar o vício nem mesmo em troca de uma viagem a Londres. Que, de acordo com ela, é seu segundo lugar preferido no mundo – perde só para Santos, cidade que adotou como seu lar.

No total, foram seis tentativas entre 2006 e 2019 até vencer completamente o vício.

www.juicysantos.com.br - por que parar de fumar na pandemia

Um ano antes da pandemia do coronavírus, Suzana cortou os 19 cigarros que tinha na bolsa. Prometeu, por amor ao sobrinho e afilhado que tem como filho, que não iria mais fumar.

“Alguns dias foram mais difíceis que outros. Mas eu arrumei técnicas para esses momentos em que dá vontade e eles foram ficando cada vez menos frequentes”, comenta. “Quando batia aquela necessidade eu ia beber água, fazia um exercício de respiração ou comia uma cenoura em palitinho”.

Ainda segundo ela, não ter cigarro em casa também ajudou neste processo. Algo que em suas tentativas anteriores ela não tinha feito. Mesmo assim, quando a pandemia do coronavírus começou, sua primeira preocupação foi: será que eu vou conseguir passar por isso sem cigarro?

Os perigos de fumar na pandemia

Assim como ela, Ricardo Aguiar pensou no consumo de cigarro quando a quarentena começou. Sua preocupação, pelo contrário, era: como manter o isolamento se precisasse comprar cigarro todos os dias? Onde iria fumar sem incomodar a esposa e os filhos, que não fumam e odeiam o cheiro do cigarro?

Na primeira semana, estocou a quantidade de cigarros que achou suficiente. Antes de os maços terminarem, o vício foi motivo de discussão em casa. Aguiar, que começou a fumar quando trabalhou em seu primeiro emprego, como forma de aliviar a tensão, decidiu que iria parar de fumar no momento mais tenso que já viveu.

Uma decisão inédita em sua vida e nada fácil.

“Eu sempre soube e ignorei os malefícios do cigarro. Mas depois que discuti com a minha esposa por conta de o quanto eu estava fumando, fui procurar um dado que ela me disse. Vi em uma notícia que o coronavírus é 14 vezes mais perigoso para fumantes. Decidi tentar”, comenta.

A notícia citada por ele diz respeito, provavelmente, à pesquisa da Universidade de Ciência e Tecnologia de Huazhong (China). De acordo com o levantamento, fumantes, de fato, têm 14 vezes mais risco de agravamento da pneumonia causada por COVID-19.

“Tabagistas possuem de forma considerável maior risco para desenvolvimento de infecções respiratórias, sejam elas por vírus, bactérias ou fungos. Já que eles têm a capacidade pulmonar reduzida, quando infectados pelo coronavírus, estão mais propensos a necessitar de intubação e ventilação mecânica”, explica o médico-cardiologista Luiz Claudio Mendes Carvalho.

Em outras palavras, parar de fumar é, mais do que nunca, uma questão de saúde pública. Sim, os fumantes fazem parte dos grupos de risco do coronavírus.

Parar de fumar em Santos

Antes de obter sucesso, Suzana teve cinco tentativas falhas.

Tentou com adesivo, terapia e até com o incentivo do pai – que a ofereceu a passagem de ida para Londres. Ficava alguns dias sem fumar, mas era ansiedade bater e lá estava ela: meditando com o cigarro entre os dedos.

Para Aguiar, a saída será o autocontrole. Pois, por conta do distanciamento social, fazer terapia já não é possível e nem mesmo frequentar os grupos de orientação contra o tabagismo que acontecem gratuitamente nas policlínicas de Santos. Em resumo, para quem não sabe, o programa é oferecido em 21 unidades de saúde da cidade. Durante três meses, os pacientes recebem acompanhamento de uma equipe multiprofissional e também passam por encontros de caráter motivacional.

O projeto existe desde 2014. Mas, para evitar aglomeração de pessoas, os grupos foram suspensos no final de março.

“Eu não joguei meus cigarros fora, porque ainda tinha uma quantidade considerável. Dei para um senhor em situação de rua que sempre pedia a pontinha do meu. Minha esposa acha que é errado, pois incentivei o vício dele enquanto tento me livrar do meu. Mas é melhor ele fumar um novo do que pegar restos e correr risco de se contaminar com COVID-19”.

A doação aconteceu há 9 dias. Desde então, o santista confessa que sentiu vontade de ir comprar novos cigarros todos os dias. E tem saído vencedor do desafio de parar de fumar em meio à pandemia de coronavírus.

Suzana, por outro lado, descobriu na quarentena uma aversão aos cigarros que tanto gostava.

“Não sei explicar, mas eu desenvolvi meio que um nojo. Tenho agonia do cheiro e acho um absurdo quando vou ao mercado e vejo gente na rua sem a máscara para fumar”.

Se nos anos 80 fumar era sinônimo de sucesso, hoje em dias as coisas estão um pouco diferente. O sucesso passou a ser conseguir se livrar dos cigarros.

Os grupos de orientação gratuitos contra o tabagismo em Santos ainda não têm previsão de volta. Mas os interessados em parar de fumar durante a pandemia podem procurar ajuda online, através de terapias ou grupos de apoio.