Victória Silva
Texto porVictória Silva
Jornalista, 24 anos - Santos

Arte cancelada: como a pandemia afetou artistas de Santos e região

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Quando acordou na terça-feira, 24 de março, Letícia Caires viu a notícia de que a quarentena havia sido decretada em todo o estado de São Paulo. Respirou fundo e abriu a notícia para entender o que iria mudar em sua rotina. E, o mais importante: por quanto tempo.

Naquele dia, fazia pouco mais de dois meses que a santista havia pedido demissão da empresa onde trabalhou durante seis anos. Seu plano era viver da música em 2020.

Entre bares, eventos particulares, corporativos e festas, o duo Eu, Tu e Ela fazia uma média de 25 shows por mês.

E aí a arte foi cancelada pelo coronavírus

Com casas de shows fechadas, restaurantes com salão atendendo parcialmente e pesquisas indicando que os shows só devem acontecer normalmente a partir do segundo semestre de 2021, o choque foi grande.

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Assim como ela, artistas de todos os segmentos precisaram recalcular a rota. E isso no Brasil, onde já não é das coisas mais fáceis viver de música ou de outro fazer artístico.

“Não acreditamos que duraria tanto tempo e também não fazíamos ideia de como seguir”, comenta. “Em dezembro, nossa agenda estava lotada. Janeiro e fevereiro foram mais fracos e em março, quando íamos retomar a rotina, todos os shows foram cancelados. Foi um susto”.

Com o ganha-pão atingido de maneira tão drástica, a cantora conta que ficou totalmente imobilizada no primeiro mês. Em seguida, com as expectativas alinhadas e entendendo o cenário, passou a montar estratégias para encontrar um novo caminho.

Adaptação: a palavra da vez

Lives, vaquinhas, rifas… Os artistas de Santos e região apostaram em diferentes meios nesse momento.

A Joga PPK na Mesa, por exemplo, fez uma festa no Zoom para conseguir ajudar a mulherada que trabalhava nas icônicas festas. Em cada edição online, intitulada Joga PPK no Sofá, as minas mais vulneráveis dividem o valor arrecadado.

O Mega Bazar, que reúne artesãos e pequenos empreendedores, também criou uma versão online.

Já O’Coletivo desenvolveu um novo produto, pensado especialmente para a quarentena. Como piloto, a empreendedora Aline Tolotti montou uma caixinha cheia de itens incríveis que antes eram vendidos no evento. Isso ajudou o público a matar as saudades das marcas queridas e os empreendedores criativos a movimentarem seu estoque.

Voltando para a história de Letícia, o mês que ela tirou para entender a situação fez todas as soluções já serem conhecidas do público. Era preciso inovar ainda mais.

“Decidi que precisávamos trabalhar nossas redes sociais como nunca tínhamos feito até então. Afinal, tempo não nos faltaria”.

Assim, o duo começou a fazer serenatas e shows virtuais. Esse formato virou uma boa pedida principalmente em aniversários e outras datas especiais.

Um problema que vai além dos artistas

O valor cobrado pelos shows remotos é bem inferior ao cachê tradicional do Eu, Tu e Ela. Mas isso tem uma explicação: é necessário competir com o ticket médio de um presente comum.

Em resumo, os shows pandêmicos custam entre R$ 75 e R$ 150.

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Pouco. Mas, para o artista, melhor do que fechar o mês sem fazer nada. O que está acontecendo com locais nos quais a arte e o entretenimento eram a atração. Como, por exemplo, cinemas, teatros e baladas.

Conectados em casa

O Sesc Santos, tradicionalmente um local de efervescência cultural e social, também adotou uma estratégia parecida. Em um projeto estadual do Sesc São Paulo, continua apoiando artistas e produtores culturais. As redes sociais do Sesc estão com uma programação bem intensa desde o fechamento das unidades. As linguagens culturais são as mais diferentes possíveis. Vão de lives de música, teatro e dança até uma plataforma de streaming gratuita com filmes incríveis para ver em casa.

Na unidade Santos, o projeto Bússola Digital tem trazido, todas as semanas, conteúdos relevantes com músicos da região. A ideia é seguir estimulando o envolvimento e a participação de artistas e articuladores de toda a Baixada Santista. Além disso, contribui para a movimentação de um setor tão afetado pela pandemia.

O bate-papo acontece ao vivo sempre aos sábados, às 17 horas, no YouTube, com um artista e um entrevistador. A dupla intercala músicas com uma conversa descontraída sobre arte. E o público pode interagir em tempo real no chat do YouTube.

Já passaram pelo Bússola Digital as cantoras Monna, Simone Ancelmo, Didi Gomes, o percussionista Vander do Surdo, o multi-instumentista Alexandre Birkett, o compositor Paulinho Ribeiro, os jornalistas Eugênio Martins
e Carlota Cafiero e o produtor cultural Felipe Romano.

Não tem nada de engraçado

Euclydes Escames é produtor de stand-up comedy. E, com o Humor de Cinema, traz humoristas aclamados pelo público para a Baixada Santista. Trinta shows estavam programados para acontecer neste ano. Sendo que 20 deles tinham data e local marcados e alguns já estava com vendas online de ingressos.

“Diante dos acontecimentos, a quarentena não foi algo surpreendente. Porém, em um primeiro momento, eu acreditava que o período seria de alguns dias – no máximo, até o final de março”.

Para o produtor, 2020 já se tornou um ano que não aconteceu. Tendo em vista que o setor do entretenimento deve ser o último a voltar e que o humor não tem home office.

“Ao meu ver, as lives já demonstram o seu esgotamento e a alternativa do drive-in não se apresentou viável. Quero poder retomar, mas com segurança tanto para o público quanto para minha equipe”.

Na Ativa House, casa noturna de Santos, a situação é não é diferente. Assim que a quarentena teve início, a agenda de eventos fechados caiu e foi necessário devolver o dinheiro aos contratantes. Já na época, a projeção foi que a situação não seria boa até o final de setembro. Na primeira semana de agosto, há a perspectiva de que se faz necessário voltar, mas o senso de responsabilidade com a equipe tem causado dores de cabeça aos sócios da Ativa.

Apesar de tudo, o show tem que continuar

Mesmo sem a possibilidade de estar perto do público, a arte segue sendo a válvula de escape em tempos de tantas incertezas. Lives de shows, filmes em streaming, drive-in de cinema e até de exposição – as pessoas precisam da arte para viver.

Camila Genaro é contadora de histórias e percebeu isso. Desde 15 de março, quando fez sua última apresentação com público presente, ela conta histórias todos os dias online e de graça.

“Minha última apresentação já estava vazia, com um silêncio quase ensurdecedor. Saí de lá com igual vazio. Ainda no transporte, de volta pra casa, postei no Instagram que continuaria contando histórias todos os dias”.

www.juicysantos.com.br - camila genaro contadora de histórias

Apesar de o trabalho não ser remunerado, o retorno foi imediato e o seu perfil no Instagram viralizou pelo Brasil inteiro. E, consecutivamente, a santista começou a ser procurada para fazer publicidades e até lançamento de livros. Até o momento, nada foi fechado e ela segue precisando do auxílio emergencial de R$ 600 do governo federal.

Andrey Haag, fotógrafo e vídeomaker de São Vicente, vai na contramão da maioria dos artistas da região: ele conta que as coisas nunca deram tão certo como nos últimos meses.

“Quando eu vi as notícias do coronavírus, entrei em pânico. Cheguei a me culpar por trabalhar com arte e não ter um CLT. Então decidi fazer vídeos, de graça mesmo, de alguns projetos sociais que estavam rolando”.

O trabalho tinha o objetivo de ajudar boas causas e também de ocupar a cabeça. No início da quarentena, ele precisou sair da casa onde vivia, pois não daria conta do aluguel. Como resultado, teve crises de ansiedade. Entre um trabalho voluntário e outro, os vídeos chamaram atenção de clientes e ele conseguiu ser contratado. Além disso, dois projetos em que estava trabalhando foram selecionados em editais.

Possibilidades de apoio para artistas

Além dos R$ 600 pagos pelo Governo Federal a quem perdeu o emprego por conta da pandemia, os artistas de Santos também contam com a possiblidade de participar do Hora da Cultura Digital. A iniciativa da Secult é inédita e, em resumo, transmite apresentações artísticas e culturais nos canais eletrônicos da Prefeitura. Podem participar:

  • Música;
  • Circo;
  • Dança;
  • Teatro;
  • Contação de história;
  • Literatura;
  • Artes visuais;

Os selecionados recebem R$ 650.

Além disso, atualmente, a Lei Emergencial Aldir Blanc, voltada para o benefício de quem vive da arte, foi sancionada em Brasília e está na fase de regulamentação na Câmara dos Deputados. Ou seja, pode representar uma nova saída para quem viveu o choque de ver a arte cancelada pelo coronavirus.

Você também pode ajudar os artistas de Santos e região. Assistir aos vídeos, compartilhar postagens e contratar seus serviços pode fazer toda a diferença. Nesse período de isolamento, a gente percebeu: a arte salva.

Mas é necessário ir além e salvar a arte e os artistas também.