Texto porFelipe Cincinato

Julgamento é igual miojo: pronto em 3 segundos

Assim como os meus, os seus professores de literatura devem ter insistido bastante na frase “não julgue um livro pela capa”.

Apesar de termos essa frase no hall dos ditos populares brasileiros, ignoramos sua abrangência e deixamos de aplicá-la não só ao escolher uma obra, mas também em outras áreas da vida.

O julgamento é sempre fácil e instantâneo, como um miojo: pronto em 3 segundos.

Comumente estereotipamos tudo e todos que passam pelos nossos olhos. Talvez seja um mecanismo de defesa do nosso próprio cérebro para evitar problemas, mas pode ser também uma forma de pré-julgamento infundado e injusto.

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Imagine você indo para a sala de cirurgia, deitado sobre a maca, já grogue dos anestésicos. O cirurgião que vai abrir seu peito se aproxima para cumprimentá-lo com um sorriso simpático. Enquanto ele se debruça sobre a maca para olhar os seus olhos com aquelas lanterninhas incômodas, você vê a tatuagem de um escorpião em seu pescoço vazando da gola branca da camisa justa.

Se você assistiu a tantos filmes do Jack Chan e Jet Lee na infância quanto eu, vai pensar que o seu médico é filiado à máfia japonesa. Eu já disse que os olhos dele eram puxados?

Mas ainda assim, aquele médico poderia ser o melhor médico do estado, quem sabe do país, para abrir seu tórax e puxar suas entranhas.

Viu só? Miojo! Julgamento em 3 segundos. E você nem deu tempo para o médico explicar o procedimento. Que vergonha…

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Casos como este – guardadas as devidas proporções – acontecem o tempo todo. O menino malvestido no semáforo, a garota de saia curta, a mãe que mora sozinha com a filha, o rapaz que anda rebolando.

Essas e outras tantas figuras são associadas com estereótipos refletidos no imaginário popular por séries, filmes e novelas que representam uma realidade deturpada.

É o moleque trombadinha, é a menina piriguete, é a mulher que não sabe agradar o marido e por isso ele foi embora, é o viadinho do prédio que gosta de aparecer. Esses julgamentos pela capa, alusivos a estereótipos, propagam uma imagem irrealista e incentivam o preconceito.

Todo rapaz gay que rebola um pouco é o Clô da novela, a “bixa” espalhafatosa necessitada de atenção e dependente da audiência de uma mulher para sustentar seu ego.

Ainda se tratando de pessoas que possuem uma orientação sexual diversa da heteronormatividade, ainda há o agravante das pessoas frequentemente associá-los a promiscuidade, libertinagem, prostituição, drogas e AIDS, doença que nos anos 70 e 80 era conhecida como a “peste gay”. Isso não é novidade.

Estereótipos propagados, inclusive pela religião, reforçam teorias retrogradas. Gay, lésbica, bissexual, travesti e transexuais são pessoas que simplesmente escolheram viver no pecado, por isso não tem direitos que os outros tem. Casamento, como já falei aqui, nem pensar!

Todos nós somos capas bastante diferentes, mesmo possuindo traços e linhas que se assemelham entre si. Cada um de nós vivenciou e vivência uma história e experiências diferentes. Para cada um, são reservadas linhas tortuosas por onde escrevemos nossa história. Somos indivíduos com personalidades e gostos diferentes.

Somos únicos.

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Estereótipos são formas que nós encontramos para separar e categorizar pessoas para identificar quais são as que se encaixariam melhor em nossa rede social. Não podemos deixar que esses pré-julgamentos afetem nossa compaixão e respeito pelo próximo, transformando-nos em pessoas preconceituosas e discriminadoras.

Antes de julgar as capas, tentemos conhecer a história de cada um sem nos basearmos nas imagens que somos bombardeados. Se conversar com gays, lésbicas ou bissexuais, por exemplo, vai se surpreender ou saber que a descoberta de sua sexualidade foi comum à de qualquer pessoa. A diferença reside apenas em por quem se sentem atraídas. Elas amam e sofrem por amor como qualquer outra pessoa.

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Talvez o menino pode estar sujo não porque mora na rua cometendo pequenos furtos, mas porque estava jogando bola no campinho de lama.

A mãe pode morar sozinha com sua filha porque essa foi sua escolha de vida e pode apostar que não falta nada para aquela criança, incluindo até mesmo as coisas materiais.

Pode apostar que aquele rapaz que rebola é um filho e tanto e faz trabalhos sociais incríveis que você nem imagina.

Que as capas nos instiguem mais ainda em conhecer, principalmente aqueles que nosso julgamento diz ser familiar aos estereótipos que carregamos dentro de nós.

PS: Meu professor Alexandre Fidelis estava certo. O Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, é hilário – apesar de só ter rido na quarta leitura.