Victória Silva
Texto porVictória Silva
Jornalista, 23 anos - Santos

Santista usa impressoras 3D para ajudar crianças cegas

Não há nada mais emocionante do que ver o desenvolvimento de uma criança. Os primeiros passos, as primeiras palavras e a alfabetização. Assisti-la criar curiosidade sobre o alfabeto, descobrir as letras e juntar as primeiras sílabas… Mas essa emoção não é a mesma para todas as famílias. Principalmente, no caso das crianças com deficiência visual.

Você já parou para pensar em como p processo fica em situações como essa?

O santista Renato Frosch – professor universitário e doutorando em edução – sim. Aliás, não só pensou como criou um projeto que envolve impressoras 3D para crianças cegas em fase de alfabetização.

Impressoras 3D para crianças cegas

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Em resumo, a ideia do profissional busca ajudar crianças com algum tipo de deficiência visual a estudarem e a terem melhor aproveitamento escolar. Para isso, o professor utiliza a tecnologia maker para confeccionar material didático inclusivo e lúdico para as crianças.

São peças que unem o alfabeto tradicional ao braille, além de texturas, cores e espessuras diferentes.

De acordo com Frosch, inicialmente, a ideia era para incluir uma aluna do Ensino Superior.

“Comecei a pensar em formas de adaptar o conteúdo para que essa aluna entendesse, mas que também pudesse ser usado pelo restante da turma” explica. “Em seguida, eu inscrevi no LABICAR e o pessoal perguntou se eu não tinha interesse em focar em crianças”.

Só para explicar, LABICAR é o Laboratório de Inovação Cidadã – edição Argentina. Trata-se de um espaço criado para sistematizar e acelerar inovações espontâneas que surjam da cidadania, transformem comunidades e tenham potencial de se replicarem em outras cidades.

Em outras palavras: projetos como o do Frosch e as impressoras 3D para crianças cegas.

Neste ano, o evento será em Rosário (Argentina). Por isso, os organizadores pedirem o foco na alfabetização: a cidade tem grande demanda de deficientes visuais na infância. Frosch aceitou o desafio. Assim nasceu uma forma de alfabetizar que une tecnologia e inclusão.

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Tecnologia e inclusão na prática

“A grande questão é que o braille não é inclusivo, pois quem é visual não entende. E como uma mãe ou um pai que enxergam, por exemplo, vão ajudar o filho?”

Neste sentido, as peças produzidas em impressoras 3D para crianças cegas trazem uma solução: a fonte usada é a Braille Neue, criada para os Jogos Olímpicos de 2020. A tipografia em questão une o alfabeto tradicional ao braille, ou seja, tanto crianças cegas quanto visuais conseguem utilizar o material.

E mais: os quebra-cabeças trazem relevos para que os alunos consigam conhecer o formato dos bichos em questão. E também foram pensados para outros desafios da alfabetização.

“Conversei com as professoras e elas me explicaram que uma grande dificuldade é a questão da acentuação. Afinal, em braile, as letras também são diferentes quando têm acento. Então, decidi fazer todas as peças com animais da fauna brasileira que têm acentuação. Para as crianças se familiarizarem”.

Para isso, o professor de Engenharia contou com a ajuda dos docentes de Biologia da São Judas – Campus Unimonte (onde ele também trabalha). Os profissionais listaram as espécies que condiziam com o pedido da professora e dos alunos consultados.

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Para completar, também são criadas peças com o alfabeto para a fase inicial da alfabetização.

“Antes de começar a ler o braille pequeno, como estamos acostumando a ver em elevadores, por exemplo, eles precisam conhecer o alfabeto e isso é feito com peças maiores. Normalmente, as professoras fazem isso de forma manual. Mas leva mais tempo e nem sempre as crianças podem levar pra casa, o que atrasa o aprendizado”.

A facilidade de replicar as peças, antes feitas de forma artesanal, foi outro pedido das professoras consultadas.

E o mais legal é que tudo que o Frosch planeja e executa passa pela aprovação de crianças que usam o material. Ou seja, o teste acontece na prática.

Sem fins lucrativos

Ainda de acordo com o santista, essa foi outra questão levantada pelas professoras: material acessível costuma custar caro. Por isso, depois de ser aprovado, todo o material é disponibilizado na internet de maneira gratuita. Isso porque a ideia é disponibilizar para o máximo de pessoas possível, e não comercializar.

“As impressoras 3D estão cada vez mais baratas. Então, é possível que as prefeituras e escolas pelo Brasil tenham acesso ao equipamento para a criação das peças”, explica.

O professor pretende comprar uma impressora 3D para uso remoto. Afinal, precisa ensinar os profissionais a utilizar o equipamento. Uma campanha de financiamento coletivo para isso está rolando no Catarse.

Que tal dar a sua ajuda?!