Texto porDaniel Cid

Meritocracia para poucos: o que aprendi como cadeirante

Durante muito tempo, valorizei a meritocracia como um conceito que todos deveriam empregar em suas vidas.

Crescer por mérito próprio e construir tudo o que quiser, apenas com o suor do trabalho, com esforço e obstinação, em teoria é muito bonito. Porém, isso realmente funciona na prática?

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Primeiramente, o que é meritocracia?

Para entender a meritocracia, é muito importante conhecer um dos seus principais representantes, o filósofo inglês John Locke (1632-1704), um dos primeiros pensadores do movimento iluminista.

Todos iguais

Primeiramente, para Locke, todos nós nascemos iguais (tabula rasa). E tudo que fizermos desde então ditará quem seremos e o que conseguiremos na vida.

Este conceito, também chamado de empirismo, diz que através da experiência que adquirimos nos tornamos únicos. E que, por meio do nosso próprio mérito, conseguiremos atingir nossos objetivos.

Mas todos nós temos as mesmas oportunidades? E estamos mesmos sozinhos em nossas conquistas?

Vamos voltar um pouco no tempo e tentar compreender o porquê de não estarmos sozinhos.

Quando escolhemos viver em bando, lá no começo de nossa história, fizemos isso com um objetivo simples: sobreviver. Sozinhos, éramos presa fácil para uma infinidade de predadores. Mas unidos? Unidos, meu amigo, nos tornamos imbatíveis.

Foi assim que, aos poucos, deixamos a vida de caçadores nômades, para fundarmos vilas, que juntavam com outras e viravam reinos. Quanto maior o grupo, mais forte somos, não é mesmo?

Nesse contexto, como podemos dizer que tudo que conseguimos é mérito exclusivo nosso? Eu, particularmente, não tenho mais essa visão. Sei da importância das pessoas que passaram por minha vida e contribuíram para que eu chegasse até aqui.

Agora vamos conversar sobre oportunidades. E, para isso, vou relatar um pouco de minha vivência como cadeirante.

A meritocracia e eu

Tenho uma miopatia muscular. Desde minha infância, percebi que não era como as outras crianças. Apesar disso, tive mais oportunidades do que muitas delas.

Nessa fase da vida, pude estudar em boas escolas. No entanto, em minha pré-adolescência, já em uma cadeira de rodas, fui obrigado a me mudar de cidade. Acontece que, no novo município, não encontrei um colégio que aceitasse um rapaz em minhas condições. Isso no final dos anos 1990.

Ao voltar para minha cidade natal, Santos, durante muitos anos, não tive chances de retomar meus estudos, devido a alguns agravantes em minha condição. Nessa fase, acompanhava amigos e colegas progredindo na escola, trabalho, carreiras e na vida pessoal. Enquanto isso, me sentia estagnado. Consegui terminar meus estudos apenas quando era adulto. Desde então, já tive a oportunidade de concluir duas graduações.

Sei que nessa história o maior responsável das minhas conquistas sou eu mesmo. Isso porque, sem minha força de vontade, nada disso aconteceria.

Mas, se alguém me perguntasse: “você chegou até aí sozinho?”, no mesmo instante, sem sombra de dúvidas, diria que não! Sem o apoio de minha família, eu não chegaria onde estou.

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Há as mesmas chances para todos?

Eu me locomovo graças ao auxílio de uma cadeira de rodas motorizada. Teoricamente, ela me levaria para onde eu quisesse. O que sabemos não ser o caso. Pelo menos, não em Santos. Nem boa parte do nosso país, onde rampas, quando existem, são verdadeiras provas de rally. Isso sem contar os buracos pela rua.

Já falei sobre acessibilidade em Santos em uma matéria aqui do Juicy Santos.

Temos todos os nossos ônibus municipais adaptados? Temos sim, porém é impossível para mim, e para muitos nas mesmas condições que eu, chegarmos até o ponto sozinhos. E não só isso. Ainda há o fato de esperar que o local que desejamos ir tenha um acesso adequado para nós.

Por este motivo, eu pergunto a vocês: como a meritocracia de John Locke pode dizer que todos nós temos as mesmas oportunidades, sendo que, para trabalhar ou estudar, eu preciso que pessoas se disponham a me acompanhar?

Imagine você, trabalhador, que sai cedo todos os dias para bater o ponto e cumprir suas tarefas. Depois disso, vai para a faculdade ou para um segundo emprego. Você tem condições de sustentar sua casa, seus estudos e ainda pagar uma pessoa para acompanhá-lo em todos os lugares?

As pessoas possuem suas próprias obrigações e compromissos. Por isso, se você quer ter as mesmas chances que todo mundo, é bom não ter nenhuma deficiência física.

As pedras no caminho de cada um

Essa é a uma visão das dificuldades que uma parcela enorme da população pode apresentar, baseadas em minhas próprias experiências. Mas eu tenho consciência que essa é apenas uma parte do problema. Pois, apesar disso tudo, eu tive uma boa estrutura familiar. E sou homem, heterossexual, branco. Nunca passei pelas dificuldades que mulheres, gays, transgêneros e outras etnias encontram em seu dia a dia.

A meritocracia é um lindo ideal, que valoriza o esforço individual do ser humano. E eu realmente gostaria que essa fosse a única influência que rege nossas vidas. Mas não posso compactuar com uma ideologia que não aceita as dificuldades tão explícitas que uma grande parcela da população sofre diariamente para tentar ter as mesmas chances de quem não passa pelos mesmos perrengues.

Por isso, antes de criticar os direitos adquiridos de uma parcela da população, pense que um filho ou neto seu pode se enquadrar em um desses casos amanhã.