Flávia Saad
Texto porFlávia Saad
37 anos - Santos (SP)

Como é viver com transtorno de ansiedade: um relato sincero

Convivo com o Transtorno de Ansiedade há cerca de 17 anos. O diagnóstico veio devagar, primeiro com ataques de pânico que evoluíram para diversos episódios de depressão, e após alguns anos, uma ansiedade generalizada se instalou completamente em minha vida.

Taquicardia, dores de cabeça, mãos que não param de tremer, enjoos, sensação de estranheza e exaustão mental, dores generalizadas, insônia ou muito sono, são os principais sintomas da ansiedade que vivem dando as caras, uns com mais intensidade, outros menos.

www.juicysantos.com.br - um relato sincero sobre o transtorno de ansiedadeFoto: Nicole Mason para Unsplash

O Transtorno de Ansiedade afeta hoje 264 milhões de pessoas em todo o mundo, de acordo com dados recentes divulgados pela Organização Mundial de Saúde. A maioria afetada é de mulheres, por razões óbvias: somos “multi”: mães, esposas, namoradas, filhas, amigas, profissionais, com funções que nos espremem diariamente entre uma atividade e outra, que tornam nossa rotina exaustiva.

O Brasil é o país com maior taxa de Transtorno de Ansiedade entre a população: 23,9%. E por que ainda existe tanto tabu e preconceito diante do tema?

A ansiedade e eu

Falo aqui abertamente a minha história com a doença. Em meu blog, relato as experiências que vivo como uma forma de mostrar que não estamos sozinhos, não estamos ficando loucos, não estamos enfartando.

Costumo dizer que ter Transtorno de Ansiedade é matar um leão por dia pra sobreviver às oscilações entre mente e corpo. É viver exausta, com insônia, ou, como no meu caso, com um sono sem fim. É encarar o olhar de desconfiança de uma maioria absurda de pessoas que ainda acham que transtornos mentais são “frescuras”.

É enfrentar a decepção de pessoas próximas que não entendem “como você pode estar em crise novamente se até ontem estava ótima?”.

Já fiz diversos tipos de tratamentos para a ansiedade desde o diagnóstico. Como muita gente, relutei bastante em entender que precisava da ajuda do remédio para ter qualidade de vida.

Tive alta muitas vezes, recomecei o tratamento outras tantas vezes, passei períodos sem medicação alguma. A cada recaída, com crises absurdas e episódios de depressão que duravam meses, me sentia frustrada.

Sentia que nadava, nadava, e morria na praia.

Não se sabe ainda o porquê, mas a medicação deixava de fazer o efeito desejável depois de alguns meses. E eu voltava ao fundo do poço, tendo que recomeçar inúmeras vezes. E não falo somente do tratamento.

Falo em recomeçar a vida mesmo.

www.juicysantos.com.br - um relato sincero sobre o transtorno de ansiedadeFoto: Vu Thu Giang para Unsplash

Tenho um bom currículo especializado em recomeços. A doença exige que você se reinvente para superar mais uma crise, ou iniciar um novo tratamento.

E cá estou eu, há 7 meses trabalhando em um tratamento novo. Digo trabalhando porque tudo o que diz respeito ao tratamento é um trabalho árduo.

Há 1 ano atrás, troquei um cargo de chefia extremamente exigente para um trabalho um pouco mais leve. Foi bem difícil tomar essa decisão, ainda mais para alguém tão workaholic como eu. Mas, dessa forma, venho conseguindo seguir o tratamento da forma correta e ter um pouco mais de tempo pra mim.

O tempo, aliás, é um vilão pra todo mundo, e pra quem tem o Transtorno de Ansiedade, acaba se tornando o inimigo número 1. E eu sou mãe. Não preciso dizer mais nada em relação a tempo ou falta dele né?

Mas a verdade é que, mesmo com toda a loucura da maternidade, Manu é uma das minhas grandes razões para todos esses recomeços. Não é fácil administrar a criação de um filho em meio a crises de ansiedade, depressão, pânico. Comemoro cada dia em que consigo passar um tempo de qualidade com ela, acompanhar a natação, o jazz, as amizades dela. São pequenas coisas que se tornam incríveis pra mim.

E valorizar as pequenas coisas é um dos meus maiores aprendizados diante de tudo o que enfrento. Porque nunca sei quando terei uma crise.

A ansiedade é sorrateira, vem chegando devagar, se acumulando até estourar. Então cada minuto da vida é sagrado pra mim.

www.juicysantos.com.br - como é viver com ansiedadeFoto: Noah Silliman para Unsplash

Deixo aqui algumas dicas importantes sobre o Transtorno de Ansiedade:

  • Se você apresenta três ou mais sintomas mencionados com muita frequência, procure ajuda médica. Somente um profissional pode avaliar qual o melhor tratamento, e se é realmente preciso um tratamento com medicação;
  • Procure uma atividade física que te dê prazer mesmo. O yoga me ajudou e ajuda muito no controle das crises e autoconhecimento. Mas cada um deve encontrar a atividade que mais proporcione uma boa conexão com si mesmo;
  • A terapia é muito importante, sim! Um profissional adequado faz milagres no combo depressão/ ansiedade/pânico;
  • É difícil mas tente falar o que está sentindo. Para algum familiar, um amigo mais próximo. Desabafe e expresse seu sentimento. Não há motivo para se envergonhar de uma doença mental. O importante é ter qualidade de vida e buscar ajuda quando necessário;
  • Nunca, jamais, se esqueça da sua força interior. Você é um ser humano cheio de maravilhas e imperfeições, e não é pior do que ninguém porque tem transtorno de ansiedade.

Sobre a autora

Aline Rollo tem 38 anos, é jornalista, assessora de imprensa, mãe da Manu e escreve sobre o Transtorno de Ansiedade no blog Queime Depois de Ler. Siga o Queime Depois de Ler no Instagram.