Victória Silva
Texto porVictória Silva
Jornalista, 23 anos - Santos

Além do limite: Nego Nato, uma história de motivação

Medo, angústia e dúvidas sobre o futuro.

Essas sensações fizeram parte dos primeiros dias após Regina Ribeiro sair do trabalho de parto.

A gravidez pegou tanto ela quanto seu esposo, Eduardo Nicacio, de surpresa. Tinham pouco mais de 20 anos quando o primeiro filho nasceu e, apesar de os 9 meses terem sido tranquilos, algo parecia não ter funcionado corretamente no momento de dar à luz. O filho não foi trazido aos braços da mãe após o nascimento. Ninguém explicava nada.

Dezoito dias separaram a cria dos pais.

“Só depois que ele saiu da UTI que foram me falar o real motivo daquilo. A explicação foi bem ríspida: o Renato tem paralisia cerebral”, lembra sua mãe.

Bastaram alguns dias, a partir do momento em que a notícia foi dada sem cuidados, para que a história de Nego Nato ganhasse seus primeiros esboços.

Os traços feitos por seu pai e sua mãe foram, mais tarde, aperfeiçoados pelo garoto sorridente e de bem com a vida.

Nego Nato (5)

Apesar das dificuldades motoras, Renato passava as tardes fazendo desenhos, sentado no chão. Sua casa era confundida com um cachorro. Ele reclamava da falta de criatividade dos pais para enxergar o mesmo e que ele. Em seguida voltava ao trabalho.

Desde essa época, ele já sabia. Queria ser designer.

Criticas que levaram à realização

Em seu aniversário de 15 anos, Renato ganhou o item mais cobiçado pelos adolescentes dos anos 2000: um computador.

“No início, eu queria usar as mãos para digitar, mas tentava apertar uma tecla e apareciam seis letras”, lembra aos risos. “Comecei a pensar em como solucionar isso e peguei uma caneta, ela quebrava e machucava a minha boca. Então eu comecei a usar uma escova de dentes”.

Assim que solucionou o problema, Nego Nato descobriu as mil possibilidades que tinha diante de si. Uma delas era desenhar e tornar seu sonho realidade. Imediatamente, pediu para fazer um curso de informática. Mas, como em outros momentos na sua vida, precisou encarar o preconceito e as dificuldades impostas pelas escolas para realizar sua matrícula.

O fato acabou por mostrar outra faceta do garoto – ele é autodidata. Foi ao Google e ao Youtube, ambientes em que pode ler e assistir vídeos sobre Photoshop e outras ferramentas por conta própria.

Não demorou muito e as primeiras encomendas começaram a surgir.

Nego Nato (2)

De uma amiga, ganhou uma máquina de estampar canecas e assim começou a espalhar seus desenhos entre os amigos do bairro que vivia, em São Paulo.  De desconhecidos, o empurrão que faltava para impulsionar sua carreira profissional: choveram críticas na publicação que fez em um grupo de designs no Facebook.

Um dos profissionais foi pesquisar sobre o cara responsável pela logomarca de uma loja de água, que grande parte dos profissionais achou “muito colorida”.

As cores representam quem a faz.

A felicidade no olhar do responsável pela arte.

Representam o Nego Nato e fizeram pessoas de todo o país repensarem seus conceitos.

Foi assim que o vídeo que ele fez com os amigos (acima) bombou na internet. Choveram encomendas de todos os cantos do país e até telefonemas dos EUA e Canadá.

“Eu tinha um perfil no Facebook que recebeu um monte de solicitações de amizade. Tive que fazer um segundo, que lotou em seguida. Aí criei uma página para ficar mais fácil”, lembra.

Foi assim que ele se tornou empresário, com direito a CNPJ, caixa de e-mails lotada todas as manhãs e uma funcionária, que também atende pelo nome de “mãe”.

Motivação e mudança para a BS

Emicida se tornou fã do cara. Ele saiu em vários jornais da capital paulista e o Luciano Huck pediu pra conhece-lo. Com uma história dessas, Renato decidiu que era hora de retribuir e ajudar o próximo.

Nessa etapa da vida, ele fez uma festa de aniversário beneficente e montou 90 cestas básicas para serem doadas em uma periferia em São Paulo. Em seguida, elaborou uma palestra para ajudar as pessoas a correrem atrás de seus sonhos.

“O meu objetivo é motivar as pessoas. Todo mundo é capaz, só tem que correr atrás. Às vezes demora, mas a gente consegue”, explica, enquanto mostra os slides que utiliza.

Para a realização das palestras, o Nego Nato conta com o apoio do pessoal da Vila Cuíca e, por isso, a família e ele vieram morar em São Vicente.

A mudança aconteceu para estar próximo ao pessoal do projeto, que tem uma vibe boa para a família e tem os ajudado. Para o Renato, o único problema é: cadê o samba dessa cidade? Nós mostramos o samba e ele nos mostrou suas criações, disponíveis para encomendas em toda a Baixada Santista.

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Seja um cliente do Nego Nato

Enquanto não realiza seu novo sonho de ter uma loja física, a empresa do Renato funciona por meio de encomendas. E tem tudo o que você precisar.

Canecas, copos, garrafinhas, almofadas, bonés, camisetas, azulejos, cartões de visita… Basta pedir que ele faz e te entrega com todo o carinho.

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“Tem coisas que eu demoro um dia para fazer. Em outras, fico uma horinha ou até menos, depende do que o cliente quer. É por isso que eu não tenho preço tabelado”, conta.

As encomendas podem ser feitas lá no Facebook do Nego Nato, pelo Whatsapp (11) 98203-2216 ou 11 95956-7088, e-mail [email protected] ou telefone fixo (13) 3395-4590.

Se, lá no começo da história, Regina e Eduardo tiveram medo do futuro, hoje sabem que a paralisia não é uma barreira. O trabalho de design do Nego Nato é real e, em momentos de sufoco, sustentou a casa.

“Eu estou de pé, feliz e trabalhando. Isso tudo graças aos meus pais. Eu não seria nada sem eles”, finaliza Renato, antes de voltar às obrigações. Enquanto sua mãe ouve, com olhos brilhando de orgulho e exclama: “O meu filho é a coisa mais linda do mundo!”.